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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Não é só lazer: estudo dimensiona impacto da bicicleta na economia

Pesquisa de laboratório da UFRJ quantifica a movimentação econômica e monetiza os impactos sociais e ambientais das bikes.

CICLOVIA NA ZONA OESTE DE SÃO PAULO. FOTO: ROVENA ROSA/AGÊNCIA BRASIL
Por Dionizio Bueno
Os benefícios individuais da bicicleta são bastante conhecidos, principalmente por quem já pedala regularmente. Revelar seus impactos coletivos é uma tarefa um pouco menos simples. Para isso, é fundamental definir indicadores que possam mostrar de forma objetiva os ganhos que a sociedade obtém quando a prática se dá em maior escala. O estudo Economia da Bicicleta no Brasil encarou esse desafio e traz uma proposta metodológica bastante interessante para mensurar o complexo econômico da bicicleta, que se compõe de todas as atividades direta e indiretamente ligadas ao seu uso.

Nascido de uma parceria entre o Laboratório de Mobilidade Sustentável (LABMOB), ligado à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e a Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike), o estudo realiza um admirável esforço metodológico para, mesmo diante da dificuldade em obter alguns dados, construir indicadores que permitem quantificar a movimentação econômica gerada em função do uso da bicicleta e monetizar impactos sociais e ambientais da adoção desse modal em detrimento de outras formas de deslocamento. O estudo é bastante honesto ao falar das próprias limitações, resultantes da dificuldade de se conseguir dados. E aqui reside seu caráter inovador. Em alguns casos, os dados necessários não estavam disponíveis simplesmente porque nunca haviam sido medidos. Em outros, os dados específicos referentes à bicicleta se encontram agregados a outros dados, mais gerais.

Assim, por mais que uma das fontes utilizadas se refira, por exemplo, a “Comércio Atacadista de Bicicletas, Triciclos e Outros Veículos Recreativos” (grifo nosso), o estudo demonstra de diversas maneiras que a bicicleta no Brasil é bem mais que um brinquedo para levar as crianças passear aos domingos. Por mais que as estimativas estejam sujeitas a imprecisões, oferecem provavelmente uma boa aproximação e são um ponto de partida bastante sólido para pesquisas futuras. Talvez mais importante, constituem um relevante documento para pautar o poder público nas cidades de todo o país, não somente as capitais, na criação de seus indicadores internos (sujeitos a serem publicizados por meio da Lei de Acesso à Informação) e, sobretudo, de seus planos de metas.

O estudo foi estruturado em cinco dimensões: Cadeia Produtiva, Políticas Públicas, Transporte, Atividades Afins e Benefícios, cada uma delas subdividindo-se em temas e abordando diferentes aspectos do complexo econômico da bicicleta. O restante desta matéria é dedicado a apresentar e comentar algumas descobertas feitas pelo estudo, sem jamais pretender substituir a sua leitura. A Economia da Bicicleta no Brasil é um documento que precisa ser lido na íntegra e divulgado. Exceto no que se refere aos dados e conclusões extraídos do estudo, as considerações que seguem são de responsabilidade desta coluna.


A atividade diretamente relacionada à produção e ao comércio de bicicletas é tratada dentro da dimensão Cadeia Produtiva. Por exemplo, as 5.178.356 bicicletas produzidas no Brasil em 2015 geraram um faturamento de 728,3 milhões de reais. O total de salários pagos na indústria em um ano (2016) é da cifra de 174 milhões de reais, e o número de postos de trabalho na fabricação de bicicletas caiu de 2013 para 2016, sendo que o número de estabelecimentos fabris cresceu no mesmo período. O estudo destaca a importância do comércio varejista de bicicletas e componentes, por ser a atividade que conta com maior número de estabelecimentos e empregos, espalhados por todo o país. A massa salarial total no varejo foi de 206 milhões de reais em 2016.

Enquanto os dados de produção e comércio exterior sofrem variações, por vezes bruscas, no período coberto pelo estudo, os números do varejo mostram relativa estabilidade, especialmente a partir de 2010. No que se refere a postos de trabalho, a comparação parece mostrar isso também. A queda do emprego no setor fabril foi de 20,8% em três anos (redução de 8.869 postos de trabalho em 2013, maior valor da série, para 7.028 em 2016), enquanto que no setor varejista a queda foi de 8,7% em cinco anos (de 15.088 empregos em 2011, maior valor da série, para 13.783 em 2016). Os dados mostram a inserção da bicicleta em dois universos econômicos, cada um sujeito a forças de naturezas diferentes: o universo dos grandes negócios e o universo das atividades econômicas que servem diretamente às pessoas. O varejo, mais próximo do cotidiano, mostra-se bem mais estável do que a indústria brasileira de bicicletas, mais sujeita a fatores externos, inclusive do comércio internacional.

A estabilidade do varejo parece ser mais um indício de que a bicicleta está mais solidamente inserida na cultura brasileira do que normalmente se pensa. Quem vive nas regiões mais centrais e observa o aumento do número de ciclistas bem arrumados se deslocando rumo aos seus escritórios muitas vezes não percebe a quantidade de pessoas que já estavam pedalando nas periferias, ao raiar do dia, tendo na bicicleta o seu principal ou às vezes único meio de transporte. Muitos moradores das capitais que, por andar de bicicleta, acreditam fazer parte de uma revolução da mobilidade talvez ignorem o quanto a bicicleta é um hábito consolidado, há décadas, em milhares de localidades país adentro. Seja por escolha, hábito local, tradição de família ou falta de alternativa, milhões de cidadãs e cidadãos brasileiros já usam e continuarão usando esse meio de transporte. Isto mais uma vez reforça a necessidade de as administrações públicas começarem a enxergar a bicicleta como um fato relevante no campo da mobilidade e passar a levá-la em consideração em suas decisões. Até porque, para aqueles a quem este tipo de argumento é necessário, a bicicleta movimenta de diversas formas a economia, como está tão bem demonstrado neste estudo.

A dimensão Políticas Públicas mede a parcela do complexo econômico da bicicleta correspondente aos gastos que a administração pública realiza para dar apoio ao uso desse modal de transporte. Em outras palavras esta dimensão traz indicadores que podem mostrar, em séries históricas ou em comparativos entre cidades, o quanto a bicicleta é levada a sério como um meio de mobilidade urbana. Naturalmente, esperamos que estes indicadores cresçam muito nos próximos anos.

Em 2017, investiu-se 1,2 bilhão de reais no Brasil inteiro em Infraestrutura de Circulação para bicicletas, que compreende ciclovias, ciclofaixas, faixas compartilhadas e sinalização de ciclorrotas. Se São Paulo concentra o maior montante gasto, fica apenas em 11º lugar entre as capitais no investimento per capita, sendo que Rio Branco ocupa o 1º lugar neste indicador.

No que se refere a Infraestrutura de Estacionamento, chama a atenção o fato de o investimento em bicicletários e paraciclos se mostrar pouco incorporado às políticas públicas na maioria das cidades estudadas, sobretudo tendo em vista o fato de se tratar de um custo relativamente barato para o grande efeito de incentivo ao uso do modal. Os dados obtidos para a cidade de São Paulo, por exemplo, revelam um valor de 300 reais por cada paraciclo instalado em 2016. Interessante notar que, em algumas cidades, poder público se limita a ser apenas um incentivador da implantação de bicicletários e paraciclos, por meio de leis ou recomendações, deixando a instalação a cargo do setor privado.

BICICLETÁRIO PÚBLICO NO LARGO DA BATATA, EM SÃO PAULO. FOTO: JOÃO LUIZ/SECOM
Quando falamos em infraestrutura de estacionamento, as bicicletas funcionam de maneira semelhante aos automóveis: toda viagem começa e termina em uma vaga de estacionamento (inclusive quando essa vaga fica na sala ou no quarto do ciclista). Aliás, oferecer vagas gratuitas nas vias públicas é uma das formas de as prefeituras incentivarem e subsidiarem o uso do transporte individual motorizado. Além de reduzirem esse tipo de incentivo ao automóvel, as prefeituras deveriam aumentar a oferta de bicicletários e paraciclos, como uma forma inteligente e barata de fomentar o uso da bicicleta. É difícil proteger uma bicicleta de furtos. A existência de um lugar seguro para deixá-la pode muitas vezes ser condição para que a pessoa use a bicicleta no lugar de algum outro modal.

Se queremos que as pessoas possam ir trabalhar, estudar, fazer compras e frequentar bares e restaurantes usando a bicicleta, precisamos de uma boa infraestrutura de estacionamento, ou seja, bicicletários seguros em pontos estratégicos por toda a cidade. Para que os cidadãos possam beneficiar-se da intermodalidade, é preciso oferecer bicicletários de capacidade compatível com a demanda junto a todos os terminais de ônibus e estações de trem e metrô.

Além disso, as prefeituras poderiam deixar de apenas incentivar e passar a exigir que os edifícios comerciais privados ofereçam vagas para bicicletas em número igual ou superior ao de vagas para automóveis. Os efeitos disso na taxa de utilização da bicicleta e, consequentemente, na paisagem urbana, apareceria em poucas semanas. E, voltando para a economia, a movimentação no mercado de paraciclos e equipamentos para bicicletários seria visível, com números significativos, nas edições posteriores deste estudo.

Os Sistemas Públicos de Bicicletas Compartilhadas existentes hoje no Brasil são contratos nos quais uma operadora responsável pelo sistema atua em conjunto com um patrocinador (sobretudo bancos e empresas do setor médico), que paga à prefeitura um valor referente à outorga de utilização do serviço para divulgar a sua marca. São apresentados dois estudos de caso, feitos junto a duas operadoras que atuam em diferentes estados do país, com base em dados fornecidos pelas próprias empresas. A verba movimentada por uma delas, patrocinada por um banco, é da ordem de 80 milhões de reais para implantação e mais 40 milhões de reais por ano investidos na manutenção do sistema, gerando uma receita média anual de 5,8 milhões de reais.

Na realidade, muito longe de se tratar de uma política pública, o que esses dados mostram é o valor de um espaço de mídia publicitária instalado sobre uma frota de bicicletas. Para os patrocinadores deste tipo de serviço, trata-se de uma oportunidade sem igual para fazerem a exposição qualificada de suas marcas, associando-as a conceitos como saúde, estilo de vida e sustentabilidade. Ao utilizar o sistema, o ciclista oferece seu corpo e sua energia para compor um anúncio publicitário tridimensional ambulante. Carros-propaganda com megafone e uma marca ou figura política aplicada pela lataria, assim como aviões que puxam faixas publicitárias sobre as praias no verão, ambos são modalidades similares de propaganda ambulante. Seria mais justo se os ciclistas fossem remunerados para usar essas bicicletas ou, no mínimo, pudessem usá-las sem custo em vez de pagar por isso, como acontece em muitas versões desses sistemas. Mais correto ainda, o serviço deveria passar a existir como uma política pública de fato, deixando a publicidade comercial fora disso.

O estudo destaca a pouca atuação do Estado na regulamentação e fiscalização dos sistemas de bicicletas compartilhadas. O resultado é que não só a qualidade do serviço mas também muitos outros aspectos de sua operação, como por exemplo os critérios para a distribuição das estações, são deixados a cargo das operadoras e, consequentemente, das estratégias econômicas dos patrocinadores. Assim fica difícil salvaguardar o interesse público desse tipo de serviço que tem, entre outros, o importante papel de ajudar pessoas a migrarem para esse modal.


Outro grande desafio encarado pelo estudo foi justamente o de monetizar a economia obtida pelo uso da bicicleta no transporte urbano. Dentro da dimensão Transporte, a temática Uso Pessoal avaliou os hábitos de cinco famílias, de diferentes níveis econômicos, nas quais pelo menos um dos membros utiliza a bicicleta regularmente em seus deslocamentos. Foram feitas estimativas de qual seria o impacto anual no orçamento dessas famílias caso as viagens atualmente realizadas em bicicleta fossem feitas por outros modais (automóvel particular, ônibus, taxi e Uber). Os montantes são bastante diversos entre as famílias mas, apenas para citar o automóvel particular, os gastos das famílias ficariam entre 10 mil e 15 mil reais. O estudo teve o cuidado de levar em conta não somente as despesas com combustível mas também os gastos relacionados, como licenciamento, depreciação e seguro do automóvel. Estes últimos são gastos que as pessoas normalmente esquecem ou têm mais dificuldade de quantificar quando procuram calcular os custos do transporte motorizado individual em suas vidas.

No que se refere a Ciclologística, foram realizados dois estudos de caso, um dos quais fez uma contagem exaustiva dos estabelecimentos comerciais no bairro paulistano do Bom Retiro. Dos 698 estabelecimentos que fazem entregas, 114 (16%) o fazem por bicicleta e/ou triciclo, totalizando mais de 2300 entregas a cada dia. Há ali 220 trabalhadores envolvidos com entregas, sendo que 96% desses estabelecimentos são proprietários das bicicletas utilizadas. Ainda que se trate de um caso bem localizado no território, os dados mostram o grande potencial da bicicleta como meio de transporte de mercadorias nos locais em que as condições geográficas e o tipo de negócio são favoráveis para tal. De fato, 88% dos estabelecimentos que fazem entregas por bicicletas afirmaram que a escolha se deve à rapidez e praticidade desse tipo de transporte, enquanto apenas 8% mencionaram razões econômicas.

A dimensão Atividades Afins mede o impacto econômico de atividades que têm a bicicleta como temática. Com maneiras bastante diversas de atuação, as organizações que atuam no Cicloativismo movimentam verbas públicas e privadas, que totalizaram R$ 5,1 milhões em 2016. De qualquer forma, um levantamento como este dificilmente seria capaz de computar os valores movimentados pelos inúmeros grupos informais que atuam de alguma forma em favor da bicicleta e também pelas pessoas envolvidas com organizações formais e que doam a elas o seu tempo e conhecimento de forma não remunerada.

A distribuição das verbas para pesquisa indica quais são os assuntos que uma sociedade considera relevantes. Pesquisas produzem conhecimento que vai nortear tomadas de decisão no futuro. Daí a importância de se monitorar o universo de Pesquisa e Inovação sobre este assunto. O estudo levantou 124 projetos de pesquisa focados na bicicleta, seus usos e seus efeitos nas pessoas e na sociedade, entre 2007 e 2017. Esses projetos movimentaram R$ 3,7 milhões e envolveram 270 pesquisadores.


Há no mundo países onde a cultura da bicicleta, no sentido mais amplo do termo, é muito mais desenvolvida do que aqui. Muita gente pode supor que a tendência é seguirmos pelos mesmos caminhos e, sendo assim, bastaria tomar esses países como modelos e replicá-los. Pesquisas sobre o universo da bicicleta, especialmente aquelas centradas em fenômenos sociais, podem revelar informações importantes e propor soluções próprias, bem mais sintonizadas com as características da nossa sociedade.

Neste capítulo do estudo encontram-se ainda as seções Cicloturismo, Cicloempreendedorismo e Eventos Esportivos, nas quais são apresentados estudos de caso que exemplificam o potencial desses setores para gerar postos de trabalho e movimentar economias locais de maneira direta e indireta.

Alguns dos impactos positivos decorrentes do uso da bicicleta são abordados dentro da dimensão Benefícios. No que se refere a Clima e Energia, supondo que as viagens feitas de bicicleta no Brasil aconteçam em substituição a viagens que seriam feitas de automóvel, estima-se que o universo de ciclistas brasileiro deixa de emitir 1.664 toneladas de material particulado e 36.608 toneladas de monóxido de carbono por ano. Se as viagens de bicicleta estiverem substituindo viagens de ônibus, pode-se dizer que os ciclistas contribuem para que 30.784 toneladas de material particulado e 348.608 toneladas de monóxido de carbono por ano deixem de ser emitidas. Foi também estimado que o total de quilômetros rodados em bicicleta por ano no Brasil equivale a uma economia de combustível da ordem de R$ 291 milhões em gasolina (caso essas viagens fossem feitas de automóvel) ou a R$ 80 milhões em diesel (caso fossem feitas de ônibus).

Finalizando o estudo, o tema Saúde traz uma coletânea de trabalhos científicos sobre o assunto. Encontramos aí as fontes primárias de informações já um tanto familiares: a bicicleta contribui para a redução da obesidade, da ansiedade, do estresse, do risco de derrame, diabetes, câncer e doenças do coração; ajuda a aumentar a capacidade cardiorrespiratória, a autoestima, o humor, a qualidade do sono. Por mais que, num certo grau, já sejam parte do senso comum, é importante que esses benefícios continuem a ser repetidos como mantras, para fazer frente a outros velhos mantras da sociedade de consumo carrocrata como “Você fica mais bonito dentro de um carro”, “Pedalar pela cidade é perigoso”, “Quem anda a pé é gentalha”.

CICLISTAS NO EIXÃO DO LAZER, EM BRASÍLIA. FOTO: ANDRÉ BORGES/AGÊNCIA BRASÍLIA
Há também pesquisas que aprofundam essas questões. Uma delas mostra que mesmo em cidades com níveis de poluição atmosférica como os de São Paulo, os benefícios à saúde proporcionados pela bicicleta só começam a ser superados pelos malefícios da poluição após sete horas ininterruptas de pedal, tempo muito superior à duração dos deslocamentos em bicicleta com finalidade de transporte pessoal. Portanto a poluição das grandes cidades, por vezes usada como desculpa para a não adoção da bicicleta, está longe de representar aos ciclistas riscos à saúde mais graves do que o simples fato de viver nesses lugares.

Ao conceituar o complexo econômico da bicicleta, este estudo está propondo indicadores úteis não apenas àqueles que podem ser economicamente beneficiados de maneira direta pelo crescimento do setor. Indicadores como estes refletem mudanças de hábito, tendências culturais e até mesmo perspectivas de alteração significativa na paisagem urbana. Daí a importância de se continuar monitorando estes e outros dados referentes ao uso da bicicleta.

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terça-feira, 11 de setembro de 2018

Reforma da Previdência em 2018 é novo golpe contra trabalhador

Em entrevista nesta segunda-feira (10) ao Valor Econômico o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia,declarou que sem a reforma da Previdência "não tem conversa". Segundo o ministro, a articulação no Congresso está avançada para aprovar a reforma até novembro. Dirigentes da Força Sindical e CTB criticaram a posição do governo federal e afirmam que a reforma é "golpe" contra o direito da população à aposentadoria.


"O que Guardia chama de ‘gesto de grandeza de Temer' eu chamo de golpe contra o direito a aposentadoria do nosso povo. Após tantos retrocessos, a sanha dos golpistas miram um direito elementar para a sobrevivência dos trabalharam ao longo de toda uma vida", afirmou Adilson Araújo, presidente da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) em matéria no portal CTB.  

Em entrevista ao Portal Vermelho, João Carlos Gonçalves, o Juruna, afirmou que uma reforma da previdência neste ano compromete a decisão do voto. "É um erro grave e parece ser um golpe contra os trabalhadores. Acredito que a decisão eleitoral implica em posicionamento em torno do programa da Previdência e de propostas que os candidatos façam à Previdência, então querer dizer que vai ter reforma ainda este ano é exagero e comprometer a decisão do voto".

Adilson reiterou que a reforma da previdência defendida pelo governo Temer vai resultar em colapso financeiro em mais de 4 mil municípios. "Reformar a Previdência é sentenciar à morte milhões e enterrar ainda mais o Brasil na crise política e econômica". Segundo o sindicalista "as eleições 2018 tornam-se fundamentais para reverter as reformas já realizadas, barrar mais essa agenda e proteger o maior programa de distribuição de renda na América Latina: a Previdência Social".

Juruna enfatizou que as centrais sindicais devem debater a reforma. "Para que no momento exato as centrais possam reagir diante da população em torno do voto e de futuras mobilizações".


segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Breve perfil de brasileiros ilustres – D. João VI e o traficante de escravos

O Príncipe Regente enfiou a mão no bolso e tirou um pacote engordurado. Com olhos gulosos, abriu o pacote e admirou o conteúdo, um belo frango assado. O Príncipe Regente arrancou uma das coxas com a mão direita e mordeu-a deliciado. Gotas de gordura escorreram pelo queixo proeminente do Príncipe Regente. Mastigando feliz o primeiro dos seis ou sete frangos do dia, o Príncipe Regente limpou os dedos no casaco e suspirou de satisfação. O Príncipe Regente chupou o osso da coxa, atirando-o em seguida pela janela da caleche.


Por Sebastião Nunes

O Príncipe Regente enfiou a mão no bolso e tirou um pacote engordurado. Com olhos gulosos, abriu o pacote e admirou o conteúdo, um belo frango assado. O Príncipe Regente arrancou uma das coxas com a mão direita e mordeu-a deliciado. Gotas de gordura escorreram pelo queixo proeminente do Príncipe Regente. Mastigando feliz o primeiro dos seis ou sete frangos do dia, o Príncipe Regente limpou os dedos no casaco e suspirou de satisfação. O Príncipe Regente chupou o osso da coxa, atirando-o em seguida pela janela da caleche.

O Príncipe Regente arrancou a outra coxa do frango e, ao mordê-la, deu um tapa na testa com a mão engordurada que segurava a coxa do frango.

– Virgem Maria! – exclamou ele, lembrando-se de repente. – E não é que eu tenho uma audiência com Elias António Lopes? Que memória a minha!

Botando a cabeça para fora, ordenou ao cocheiro que voltasse ao suntuoso palacete do paço de São Cristóvão, que mais tarde se chamaria Quinta da Boa vista, que mais tarde abrigaria o Museu Nacional e que dois séculos mais tarde seria destruído por um incêndio catastrófico, pavoroso, irreparável.



ELIAS ANTÓNIO LOPES

Baixo e atarracado, Lopes era a imagem do aristocrata português no Brasil, um dos muitos que enriqueceram traficando escravos. Comprara diversas propriedades no Rio de Janeiro e, pensando numa morada digna de sua riqueza e de sua descendência, construiu o palacete em São Cristóvão, que mais tarde doou ao Príncipe Regente, que mais tarde o chamaria Quinta da Boa vista, que mais tarde abrigaria o Museu Nacional, que mais tarde seria destruído por um incêndio catastrófico.

Quando entrou no palacete, o Príncipe Regente já encontrou à sua espera o rico traficante. Esparramado numa poltrona da antessala, direito adquirido por méritos de aristocrata e de doador da bela moradia, Lopes fumava grosso charuto.

O Príncipe Regente estendeu a mão engordurada que o visitante beijou, sentindo nos lábios e no nariz o gosto e o cheiro de frango assado.

– Por aqui, tenha a bondade – disse o Príncipe Regente com intimidade, conduzindo o traficante para o gabinete principal.

A porta estava aberta. Lá dentro, Carlota Joaquina remexia nas gavetas.



A PRINCESA CONSORTE

Apanhada em flagrante, a Princesa não se abalou. Empertigada, esperou a entrada do traficante e do marido, que não via há semanas.

Como se tivesse dormido com ela, o Príncipe Regente limitou-se a saudá-la com um muxoxo, indicando depois uma poltrona ao traficante.

Depois de sentar-se, Lopes tirou do bolso um lenço, com o qual esfregou os dedos minuciosamente, cheirando-os depois. Pareciam limpos.

O Príncipe Regente estava, no entanto, incomodado com a presença da Princesa. Não preferia ela morar numa vila em Botafogo, longe dele? Não vivia ela escrevendo ao papá e à mamá, senhores da Espanha, pedindo que o destronassem e a nomeassem regente do Brasil? Não era ela mal falada por gregos e troianos, que a culpavam de eternas ingerências no governo e na nomeação de preferidos?

Vendo que ela não se retirava, o Príncipe Regente decidiu-se pela diplomacia.

– Como tens passado, Princesa?

– Muito bem – respondeu ela. – Apenas me queixo de solidão.

– Como de solidão, se em Botafogo tens tudo de que precisas?

– Lá tenho apenas uma casa e amigos fiéis – retrucou ela. – E isso é bem pouco perto do que almejo.

– Bem sei o que almejas – ironizou o Príncipe Regente. – Mas o que almejas é impossível. Poderias, pois, retirar-te?

Bufando, a Princesa saiu a trote, batendo a pesada porta.



O PRÍNCIPE E O TRAFICANTE

D. João VI suspirou aliviado, assim que viu Carlota Joaquina pelas costas. Meteu a mão no bolso e, relutante, tirou de lá o pacote engordurado. As asas do frango pareciam apetitosas. Arrancou uma, que mordeu com satisfação.

– Está servido? – perguntou a António Lopes.

– Muito obrigado, senhor – respondeu educadamente o traficante. – Almocei não faz uma hora. Estou satisfeito.

O Príncipe Regente mastigava deliciado, gotas amareladas escorrendo-lhe pelo queixo gorducho. Passou a mão livre pelo queixo e a esfregou no casaco.

– Para que me queres? – perguntou ao traficante.

– Senhor, tenho um apelo a vos fazer – principiou Lopes.

– Diga.

– Gostaria muito de ser nomeado Comendador da Ordem Militar de Cristo.

– Pedes pouco, em vista do palacete que me doaste.

– Além disso – prosseguiu Lopes diante da boa acolhida –, pediria ser agraciado tabelião e escrivão da Vila de Parati.

– Terei o maior gosto em servir tão nobre e prestativo cortesão – respondeu com um sorriso o Príncipe Regente. – Mais tarde lhe farei outras benevolências.

– Fico eternamente agradecido, Senhor – respondeu o traficante. – No caso de haver precisão de alguns pretos e pretas para o serviço doméstico, é só pedir. Terei a maior honra em servir Vossa Senhoria.

– Por enquanto não, caro amigo – retrucou o Príncipe Consorte, pilheriando em seguida. – Só espero que este palacete não venha a incendiar-se. Principalmente se, no futuro, vier a se tornar importante museu nacional.

– Que Deus nos livre e guarde de tal tragédia, senhor – disse Elias António Lopes benzendo-se. – De minha parte nada tenho a temer, já que embarcar e vender preto não é pecado.

Via Jornal GGN

domingo, 9 de setembro de 2018

Hospital municipal de Diamante do Norte recebe licença sanitária

O Hospital Municipal Emília Francisca de Souza, de Diamante do Norte, recebeu a Licença Sanitária Estadual na última sexta-feira (31) dos representantes do Governo do Estado e da 14ª Regional de Saúde de Paranavaí.

Secretária Simone Soares com o documento em mãos da licença sanitária
Somente o hospital do município de Diamante do Norte e mais sete hospitais da região da Amunpar (Associação dos Municípios do Noroeste Paranaense) possuem essa licença.

Lembrando que dentre os hospitais públicos, este foi o primeiro da região a ter a licença sanitária liberada pelo Governo do Estado.

O documento só foi possível com apoio do prefeito Daniel Pereira e equipe da Secretaria Municipal da Saúde que se empenharam e dedicaram para deixar o hospital de acordo com as normas sanitárias. 

“Alguns podem dizer que ainda tem muito a melhorar e fazer, as críticas de sempre, afinal, não devemos nunca estar satisfeitos quando se trata de saúde, mas quando algo bom é alcançado, principalmente com a parceria de todos, isso merece ser comemorado e respeitado”, disse a  secretária municipal de saúde, Simone Soares da Silva.


Feminicídio oculto: as mortes violentas de mulheres que não aparecem nas estatísticas

Cinco mulheres de 15 a 59 anos, a maioria negras, morrem a cada dois dias no Brasil por traumas e ferimentos com intenção "não determinada".

MULHERES FAZEM CAMINHADA NO RIO EM 2016. FOTO: FERNANDO FRAZÃO/AGÊNCIA BRASIL

Por Elvis Cesar Bonassa
Do site da Kairós

No período de dez anos, entre 2007 e 2016, 9,3 mil mulheres de 15 a 59 anos morreram devido a ferimentos e traumas causados com “intenção não determinada”, isto é, sem que fique caracterizada ou descartada agressão. Isso equivale a aproximadamente 25% do total de casos caracterizados oficialmente como agressão (38,2 mil). Das mortes com intenção não determinada, há 4,4 mil (47%) em que nem mesmo a origem dos ferimentos é identificada –são classificados como “fatos ou eventos não especificados e intenção não determinada”.

A análise, feita pela Kairós na base de dados de atestados de óbitos do DATASUS, indica que para homens da mesma idade o percentual de óbitos violentos com “intenção não determinada” no período analisado equivale a apenas 12% das mortes efetivamente caracterizadas como resultantes de agressão –metade do percentual feminino. Ou seja, a obscuridade em torno das circunstâncias de mortes violentas é proporcionalmente muito mais frequente no caso das mulheres.

Os ferimentos de intenção indeterminada são causados principalmente por objetos contundentes, armas de fogo, enforcamento ou estrangulamento e afogamento. Os casos mais obscuros de “fatos ou eventos não especificados e intenção indeterminada” se referem a traumatismos diversos (traumatismo craniano, traumatismo múltiplos, traumatismo de órgãos internos, entre outros) e hemorragia causada por traumatismo, além de casos de queimaduras e asfixia, sem nenhuma explicitação de como isso ocorreu.

As mortes femininas por ferimentos e traumas sem intenção definida equivalem a 2,5 mulheres por dia. Embora não seja possível afirmar quantos desses casos se referem a agressões não reveladas, há aqui um feminicídio oculto. As informações utilizadas na definição da causa da morte têm origem em boletins de ocorrência, informações prestadas por familiares ou pelo hospital, no caso de ter havido atendimento médico, e pela necropsia realizada no Instituto Médico Legal (IML).

Há um dado que reforça a especificidade do não esclarecimento de casos de morte feminina. O percentual de óbitos registrados como causadas por “fatos ou eventos não especificados e intenção não determinada” caiu significativamente entre 2007 e 2016, em termos gerais, mas se manteve praticamente estável no caso de mulheres. De 3,8 mil casos em 2006, esses registros caíram para 2,8 mil em 2016 –um recuo de 26%. No caso de mulheres, no entanto, os números passaram de 454 para 439 –queda de 3%, praticamente estável– no período de 10 anos, embora com variação significativa nos anos de 2008 e 2009.

As mulheres negras (considerando-se a soma das classificações oficiais pretas e pardas utilizadas no atestado de óbito) são as principais vítimas, mas com variações significativas na definição da causa. As mulheres negras representam 61,4% de todos os casos caracterizados como agressão. Já no caso de “intenção não determinada”, esse percentual cai para 54%. Em sentido inverso, as mulheres brancas são 33,5% das vítimas de agressão e 39,7% dos casos de “intenção não determinada” (sem considerar raça/cor amarela, indígena e ignorada, sempre de acordo com as classificações oficiais).

Considerando que no Brasil, por razões sociais e históricas, a população negra tem em média patamar de riqueza inferior à população branca, é possível adotar a hipótese de que a não apuração das circunstâncias de mortes violentas de mulheres varie em parte de acordo com o nível socioeconômico.

Metodologia

De 2007 a 2016 (dez anos) houve 1.175.287 óbitos femininos. As três principais causas são neoplasias (26,3%), doenças do aparelho circulatório (23,5%) e causas externas (11,5%).

Entre as causas externas podemos separar os grupos abaixo (há mais grupos de causa externa, não pertinentes para esta análise, como ação policial, complicações médicas ou acidentes cirúrgicos, reação a medicamentos, sequelas, entre outros): a – Acidentes em geral, acidentes de transporte, morte provocada por animais, incêndios, entre outros; b – Suicídio; c – Agressão; d – Intenção não determinada.

Nesse último grupo (intenção não determinada), estão os mesmo fatos catalogados como agressão, mas não se sabe se foi ou não agressão. Não há informações sobre o que aconteceu: pode ter sido acidente, ainda que com a participação de outra pessoa, ou pode ter sido suicídio, dependendo do caso. Entre os casos de intenção não determinada, existem ainda as mortes em razão de fatos ou eventos também não determinados. Ou seja, em que não se sabe nem mesmo como o ferimento foi causado.

As mortes de intenção não determinada são causadas principalmente por objetos contundentes, arma de fogo, enforcamento ou estrangulamento e afogamento. No caso dos fatos não determinados, referem-se, em geral a traumatismos, fraturas, asfixia, queimaduras. Os atestados de óbito trazem a intenção não determinada na causa básica, acompanhada dos outros fatores (causas secundárias) que permitem identificar os ferimentos ou traumas encontrados.

Os casos reconhecidos de feminicídio estarão registrados entre as agressões; os feminicídios não reconhecidos, entre os casos de intenção não determinada. Ou seja, uma parte das mortes de mulheres com causas de intenção não determinada é de feminicídio oculto. Nem todos os casos de morte classificados com intenção não determinada podem ser considerados como feminicídio oculto, mas todos os casos de feminicídio oculto estarão nessa classificação.

O universo de análise do feminicídio, portanto, são todas as mortes registradas nos grupos agressão e intenção não determinada. Para a análise do feminicídio oculto, o universo é o grupo de mortes com intenção não determinada, que é objeto da presente pesquisa (códigos Y10 a Y34 da CID – Classificação Internacional de Doenças).

O recorte da faixa etária (15 a 59 anos) foi motivado por dois fatores, para evitar distorções. Para a faixa de até 15 anos, considerou-se que os casos não são diretamente relacionáveis a feminicídio. Nessa faixa etária não há variação significativa entre os percentuais masculino e feminino de mortes por intenção não determinada em relação a mortes por agressão. Não há uma especificidade feminina.

Na faixa etária a partir de 60 anos, há a utilização da classificação de intenção indeterminada para um grande número de casos de fratura de fêmur ou bacia, associados a osteoporose, e outros eventos comuns entre idosos – diferentemente do que acontece entre 15 e 59 anos, em que há predomínio de traumas, fraturas, asfixias, armas de fogo, entre outros que indicam mais claramente a possibilidade de agressão. Embora não se deva descartar a existência de feminicídio nessa faixa etária, a análise dos atestados de óbito seria distorcida.

Para a realização da análise, os mesmos tipos de óbito, na mesma faixa etária, foram catalogados para o sexo masculino, a fim de realizar as comparações necessárias.

A fonte dos dados são os arquivos de declarações de óbito de 2007 a 2016 do DATASUS.

Elvis Cesar Bonassa é doutor em Filosofia pela USP e diretor da Kairós Desenvolvimento Social


sábado, 8 de setembro de 2018

LETICIA LIMA – A BELA DA SEMANA


A beleza incondicional da mulher é a mais sublime das belezas, tal qual a própria mulher é a mais sublime das criaturas...

Não há noutras ocasiões ou noutras manifestações daquilo que é belo, algo que se compare a esta beleza contida no ser humano mulher, possuidoras da atração como nenhum outro exemplo, a mulher como ninguém, tem o poder da sedução...

Neste rol de impecáveis, Leticia Lima ocupa a posição das privilegiadas, daquelas beldades que nasceram predestinadas a tornar encantados os olhos que se beneficiam com a invejável formosura contida unicamente nas seletas criaturas.

Na supremacia feminina, impera a hegemonia das morenas, destas notáveis espécies de pele e corpos formidáveis que se proliferam e dominam o mundo já seduzido por elas, um mundo habitado não somente por estas mulheres interestelares, mas, por mortais comuns que tiveram o privilégio de serem contemporâneos a tais Deusas, Deusas estas que são a personificação exata da perfeição.

Se um dia nos perguntarem sobre o que é o poder e o carisma, diremos sem receio que é a mulher, se ainda persistirem para que citemos um exemplo convincente, diremos sem equivoco: Leticia Lima.

E é Leticia, catedrática em formosura, que hora ocupa este pedestal onde só as dignas colocam os pés, e nós no êxtase de nossa satisfação, louvamos a beleza imensurável desta bela que hora nos honra com sua imagem.

Para o nosso deleite, preenchendo os anseios de nossos humanos sentidos, em especial a visão, a beleza feminina está devidamente representada...

Portanto, quando nossos olhos contemplam o poema Leticia, é como se nossas retinas fossem agraciadas com um ótimo presente, ela é colírio natural que tão bem nos faz. Tê-la neste espaço supera o prazer e o privilégio, ela está para ser louvada, ela é digna de reverência.

Apreciem leitores, a beleza tem cor morena, Letcia Lima é a Bela da Semana.

*LETICIA LIMA FERNANDES – Marilena – PR. Filha de Leide Pereira Lima e João Carlos Fernandes. Leticia é corinthiana e estuda o 9° Ano do Ensino Fundamental no Colégio Estadual Princesa Izabel.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Wilson Moreira deixa mais belas composições das rodas de samba

Se tem um compositor que deixou relevante repertório para as rodas de samba, este é Wilson Moreira. Suas composições são as mais belas executadas e possuem enorme capacidade de interação entre músicos e público.


Por Augusto Diniz
No Jornal GGN

Mas, infelizmente, o cantor e compositor Wilson Moreira morreu aos 81 anos nesta quinta-feira (6/9) depois de apresentar problemas renais ocasionados por um câncer iniciado na próstata.

Wilson Moreira foi autor de músicas que não ficam de fora de rodas de samba pelo País afora há anos, como “Não tem veneno” (com Candeia), “Judia de mim” (com Zeca Pagodinho), “Deixa clarear”, “Morrendo de saudade”, “Senhora liberdade”, “Goiaba cascão”, “Gotas de veneno”, “Coisa da antiga” (estas no Nei Lopes), entre outras.

Seu parceiro mais constante e de várias composições que se tornaram sucesso na voz de grandes intérpretes da música brasileira foi Nei Lopes.

Eles se conheceram nos anos 1970 através de um outro grande compositor: Délcio Carvalho. Nei trabalhava em um estúdio de jingle no centro do Rio quando foi apresentado a Wilson Moreira por Délcio – Nei Lopes já tinha admiração por Wilson como compositor.

A primeira música gravada de Wilson Moreira e Nei Lopes foi “Leonel Leonor”, interpretada por Roberto Ribeiro. Ambos deixaram mais de 300 composições gravadas e fizeram dois discos antológicos: “A arte negra de Wilson Moreira e Nei Lopes” (1980) e “O partido (muito) alto de Wilson Moreira e Nei Lopes” (1985).

Wilson Moreira Serra nasceu em Realengo, na Zona Norte do Rio. Participou do grupo Partido em 5, que contava entre seus membros com o inesquecível Candeia, com quem compôs algumas músicas – como a “Me alucina” e a já citada anteriormente.

Passou pela ala dos compositores das escolas de samba Mocidade Independente de Padre Miguel e Portela.

Trabalhou por mais de 30 anos na carceragem do Complexo Prisional de Bangu. Segundo Wilson, ele era muito respeitado e chegou a salvar alguns presos da morte dentro do sistema.

Gostava também de sambas de roda, de terreiro e de Jongo. Registrou como cantor importantes composições dentro dessa vertente do samba. Foi o caso de “Yaô”, de João da Baiana, e “Benguelê”, de Pixinguinha e Gastão Viana. E também produziu composições com referências africanas.

Antes de sofrer um derrame, em 1997, afetando a mobilidade de parte de seu corpo, lançou os discos solos "Peso na balança" e "Okolofé". Em 2002 gravou mais um disco solo e outro de temas afros com um quarteto só de percussionistas (2011).

Ano passado, apresentou projeto de financiamento coletivo de um disco de composições inéditas remetendo à sua infância, mas o trabalho não chegou a ser lançado.

Wilson Moreira deixa imenso legado à música, diariamente apresentado nas rodas de samba pelo País afora.


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