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terça-feira, 8 de outubro de 2019

STF decide pela anulação de condenação da Lava Jato; Lula é favorecido

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quarta-feira (2), por 7 votos a 4, que o réu delatado tem o direito a fazer as alegações finais durante as manifestações no processo antes do réu delator. Isso pode levar à anulação de 32 condenações da operação Lava Jato, inclusive a do ex-presidente Lula no processo do sítio de Atibaia, no qual ele levou a pena de 12 anos e 11 meses de prisão.

 O ministro Celso de Mello discordou da formulação de tese para orientar o alcance da decisão
Por Iram Alfaia

Após aprovarem a necessidade de adoção de uma tese para “orientar” as instâncias inferiores sobre o alcance da decisão, o presidente da Corte, Dias Toffolli, suspendeu a sessão para retornar nesta quinta-feira (3).

Com isso, foi concedido o habeas corpus pedido pela defesa do ex-gerente da Petrobras Márcio de Almeida Ferreira, condenado pela 13ª Vara Criminal Federal em Curitiba no processo oriundo da Lava Jato.

Adotou-se o mesmo entendimento no julgamento em agosto passado, pela segunda turma, quando anulou a sentença do ex-presidente da Petrobras Aldemir Bendine, condenado por Sergio Moro então juiz da Lava Jato.

A decisão pode fazer retroagir em nove meses a sentença por corrupção e lavagem de dinheiro do ex-presidente Lula no processo do sítio de Atibaia (SP) que já se encaminhava para a fase decisiva na segunda instância.

A favor da tese que pode anular sentenças votaram os ministros Dias Toffolli, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski, Cármen Lúcia, Rosa Weber e Celso de Mello. Contra estiveram o relator Edson Fachin, Marco Aurélio, Luís Barroso e Luiz Fux.

O presidente da Corte, Dias Toffolli, que votou com a maioria, apresentou a proposta para “orientar” as instâncias inferiores sobre alcances da decisão. São elas:

1) Em todos os procedimentos penais é direito do acusado delatado apresentar as alegações finais após o acusado delator que, nos termos da lei 12.850, de 2013, tenha celebrado acordo de colaboração premiada devidamente homologado, sob pena de nulidade processual, desde que arguido até a fase do artigo 403 do CPP ou o equivalente a legislação especial, e reiterado nas fases recursais subsequentes.

2) Para os processos já sentenciados, é necessária ainda a demonstração do prejuízo, que deverá ser aferida no caso concreto pelas instâncias competentes

Votaram contra a adoção de tese Alexandre de Moraes, Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio.

Lewandowski entendeu que no caso concreto existe “nulidade absoluta”, ou seja, pode beneficiar todos os réus que se encontram na mesma situação.

Para ele, está se propondo um "contra HC". “Ainda que se chame um gato de cachorro, ele não deixará de miar”, falou. O ministro diz que a tese fará com que a decisão "não atinja aqueles que não se manifestaram no momento oportuno" e prejudicar quem não tenha bom advogado.

Lava Jato

O ministro Gilmar Mendes fez duras críticas a operação Lava Jato é ao ex-juiz Sergio Moro. Disse que sempre teve preocupação com abusos agora revelados pelo The Intercept Brasil. Ele citou casos em que defendeu a excepcionalidade da prisão preventiva e afirmou que o instrumento foi usado como "elemento de tortura".

"Isto aparece hoje. Feitas por gente como Dallagnol (Deltan). Feitas por gente como Moro. É preciso que se saiba disso. O Brasil viveu uma fase de trevas. O resumo é: ninguém pode combater crime cometendo crime”, disse.

"Hoje se sabe de maneira muito clara, e o Intercept está aí para provar, que usava-se prisão provisória como elemento de tortura. Custa-me dizer isto no plenário E quem defende tortura não pode ter assento nesta corte constitucional", criticou.


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Feminino Cangaço – (Documentário)


O Centro de Estudos Euclydes da Cunha apresenta o documentário “FEMININO CANGAÇO” dirigido por Lucas Viana e Manoel Neto, propõe uma reflexão crítica sobre a entrada das mulheres no cangaço, suas motivações, as superstições em torno delas, seus papeis dentro dos bandos, seus costumes, crenças e dramas pessoais. Trata-se de melhor compreender a importância das mulheres na construção do que hoje entendemos como o fenômeno do cangaço e as destacar como sujeitos ativos desta história, mulheres que transgrediram os valores sociais de sua época e cuja força surpreende ainda nos dias atuais.

sábado, 5 de outubro de 2019

Definindo Lampião


Virgulino Ferreira da Silva - Lampião - Por Benjamin Abrahão
A história de Virgulino Ferreira da Silva (Lampião) remonta a 1897, na cidade de Serra Talhada, Pernambuco, mas foi a partir de 1920 que ele começou a se tornar o maior cangaceiro do Brasil, Foi uma figura controversa, um enigma, uma lenda que persiste na história sertaneja, Sabemos que foi bastante temido e que também foi fruto das injustiças sociais, foi valente, foi um malfeitor fortemente armado, e andava em bando pelos sertões do nordeste e que onde tinha morte com rituais macabros, certamente Lampião e sua trupe estavam pelo meio, foi saqueador de fazendas e o maior inimigo da polícia.

Foi um misto de justiceiro, forasteiro, herói, vilão, para alguns Robin Hood do Sertão, para outros um bandido assassino, cruel, sanguinário.
Sua história é mesmo controversa e dá margens para pessoas comuns e conhecedores da história do cangaço criar suas próprias hipóteses, a partir da literatura, da pesquisa, de documentos e de depoimentos que surgiram de pessoas que conviveram com o mesmo, através de registros e vídeos publicados.

E partindo pro lado subjetivo, te pergunto. Em suas palavras, o que Lampião significou pra você e pra história do sertão nordestino?

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Da série a beleza feminina no cangaço


Devido sua beleza, ela era motivo de atenção, no mínimo descuido de seu companheiro sempre atento aos oponentes cobiçosos, não teve quem não embebedasse as retinas ao contemplar seus traços delicados de moça bonita naquele ambiente de machismo extremo.
Tal qual Durvinha, outra beldade que agraciou o cangaço, ela também arrancou suspiros e admiração. Foi assim em seus verdes tempos o que caracterizou a bela Dulce de Criança..

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

LAMPIÃO E UMA PROSTITUTA! EM CAPELA SERGIPE EM 1929.


Foi por volta de 1929 em sua primeira ida a cidade de Capela Sergipe... Depois de passear e até ir ao cinema da cidade, Lampião sempre dominado pelo erotismo, foi até a casa da Prostituta por nome Enedina. Ordenou-lhe que deixasse as portas da frente e dos fundos abertas, e disse-lhe: "Se aparecê os macacos (policiais) por uma ou por outra eu tenho que sair por cima deles" No quarto cuja porta Lampião a trancou por dentro, desfez se todos os embornais, cartucheiras, armas e roupas, ficando apenas de alpercatas e de camisa de meia a tal da camiseta. Ao se despir a rapariga quis ser gentil, e quis ajuda-lo. Ele e deteve a com um gesto:

Não pegue em nada: Minhas armas e neste borná só pode alguém pegar depois de morrer o Capitão Lampião. Pôs o fuzil e o parabellum ao alcance das mãos, sobre a cama ele colocou seu longo punhal... Depois do rala e rola Lampião suspirou e falou uma frase digna de um super amante ( Este quarto não cabe a metade dos cabras que este aqui tem sangrado, levantando o punhal em direção aos céus) Deu setenta mil réis a Enedina" e lamentando falou? é uma pena que o comercio não estar aberto para eu comprar para você um vestido e um perfume dos bons!!!

Obs. a fotografia da prostituta que aparece na matéria não é a de Enedina... A foto é da Prostituta Amélia Mendes da Silva, que viveu em Campina Grande PB. e teve com vários Cangaceiros.

Fonte: Do livro O incrível mundo do Cangaço vol.2 autor: Antonio Vilela de Souza.




quarta-feira, 2 de outubro de 2019

SEXO NO CANGAÇO

Maria Bonita - Por Benjamin Abrahão
Sabemos que mesmo na sociedade contemporânea o sexo é um tabu, nossas relações em alguns lugares ainda tem resquício de uma sociedade eurocentrica do século 19, isto é, conservadora, agora, imagine como seria as relações de amor e sexo nos anos 20 e 30 no sertão nordestino, sobre tudo no cangaço.

Os cangaceiros não andavam aos beijos e abraços aconchegados de mãozinha dadas, a vista dos companheiros e do público, tinham o desejo de demonstrar seu afeto, mas eram acanhados, como sabem o sertanejo é rude e grosso, por uma questão de ambiente não é carinhoso, a mulher pra ele é uma procriadora, sim, os bandidos eram jovens e totalmente sexuais, ainda mais com cangaceiras adolescentes, quase mulheres com seus seios rígidos e corpos sensuais, a entrada das mulheres no bando serviu um pouco pra amansar as feras, os estupros diminuíram bastante, as relações sexuais eram chamadas de "cobrir uma fêmea:, avistarem mulheres chorando era fetiche para os cangaceiros, isso era interessante para eles.

Quando iam dormir com suas companheiras forravam o chão com folhas e mantas, em qualquer parte e as vezes a vistas dos companheiros, porém eles não olhavam, as relações eram barulhentas, os cabras ouviam e compreendiam início meio e fim, ouviam os estalidos dos beijos, dos gravetos e o toque em algum objeto, o vento soprava e espalhava o sereno naqueles casais sujos, suados, com a roupa que passaram os dias e muitas vezes sem nenhum asseio pessoal.

 imagino que as cangaceiras eram lindas mesmo, até porque é muito difícil serem feias nas idades que tinham quando entraram no bando, na sua maioria adolescentes quase mulheres e nas idades de 13 a 19 anos, dizem que a mais bonita delas foi Lídia, na descrição de alguns autores, morena, dentes perfeitos, seios grandes e rígidos, cabelos negros e lisos, lábios carnudos, corpo sensual e bastante simpatica, na sua instabilidade amorosa teve o azar de ser mulher do Zé Bahiano, o mais feio do bando e também o mais cruel. Bom, o resto da história de Lidia já conhecemos, traiu o cangaceiro e teve uma morte cruel a cassetadas, seu belo rosto ficou desfigurado, Zé Bahiano enterrou em uma cova rasa e chorou feito criança por uma semana mas cumpriu o código de honra do cangaço, infelizmente Lídia teve um fim triste.

No Grupo do Facebook - Lampião - Governador do Sertão

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Desconstruindo Maria Bonita (e os cangaceiros)

"Uma visão romântica do cangaço não é compatível com um momento em que discutimos feminicídio", diz biógrafa da mulher de Lampião.

MARIA BONITA EM CENA DO FILME DE BENJAMIN ABRAHÃO. FOTO: REPRODUÇÃO

Entrevista para o site Socialista Morena

A série da Rede Globo que eternizou, em 1982, a imagem de Maria Bonita para a geração que hoje está com mais de 40 anos, trazia a mulher de Lampião como uma sertaneja coquete, sexy, ciumenta e que atirava de pistola nos “macacos” da polícia, lado a lado com os homens do bando. Era a mesma época em que programas como Malu Mulher e TV Mulher desafiavam a censura do fim da ditadura militar falando em divórcio, sexo e feminismo. A Maria Bonita de Tânia Alves tinha tudo a ver com a nova mulher brasileira que nascia com a redemocratização.

Nas imagens em preto e branco feitas pelo fotógrafo sírio Benjamin Abrahão entre 1936 e 1937, Maria Bonita (que aliás só ganharia este nome após se tornar uma lenda) surge como uma moça brejeira e algo tímida, mas com um semblante maroto, e esposa dedicada do cangaceiro, a quem serve água do cantil e penteia os cabelos lustrados com brilhantina.


Maria de Déa foi, na verdade, uma das poucas mulheres do cangaço a escolher aquela vida errante sob o sol do sertão. Na biografia de Maria Bonita escrita pela jornalista Adriana Negreiros, se está longe de ser a pioneira do feminismo que tantos pintaram, Maria Bonita é uma mulher “arretada” que foge dos maus tratos do marido para seguir Lampião, movida pelo desejo de aventura e pelo amor a Virgulino.

Bem ao contrário de suas contemporâneas de cangaço, que se assemelham a vítimas de Síndrome de Estocolmo, afeiçoando-se aos sequestradores e estupradores que se tornariam seus companheiros. Libertam-se de pais e irmãos opressores, é verdade, mas se dobram ao jugo dos amantes cangaceiros e são, no fundo, tão invisibilizadas quanto suas mães e avós: nas notícias sobre o bando de Lampião, os cronistas dedicam parcas linhas às mulheres, preocupando-se mais em descrever (e menosprezar) sua aparência.

“As cangaceiras eram submetidas à mesma lógica que aprisiona as mulheres na vida privada (no caso delas, os coitos, onde se escondiam da polícia e realizavam tarefas domésticas convencionais, como cozinhar e costurar), ao passo que aos homens era destinada a vida pública, o espetáculo”, afirma Adriana. Dadá, a mulher de Corisco, é o caso mais evidente de sequestrada que se liga emocionalmente ao sequestrador: aos 12 anos, foi deflorada pelo cangaceiro e trazida para o convívio no bando anos mais tarde, quando Lampião se une a Maria Bonita e abre a possibilidade de os cabras terem companheiras.

Lampião também se dedicava à costura e ao bordado de suas roupas e acessórios, como revelou o historiador Frederico Pernambucano de Mello em Estrela de Couro: A Estética do Cangaço –o que não significa, para a biógrafa, que os cangaceiros dividissem as tarefas domésticas. Mas é fato que o “rei do cangaço” costurava e bordava à máquina, com perfeição, seus bornais coloridos, cinturões, as capas dos cantis, seu chapéu de couro… Lampião teria inclusive alcançado alguma fama como alfaiate de couro antes de entrar para o cangaço.

Lampião na máquina de costura
“No sertão do começo do século 20, o manejo de linhas e agulhas não era uma atividade exclusivamente feminina. Os vaqueiros produziam os próprios gibões e chapéus e primavam pela beleza, além do aspecto utilitário da indumentária. Cangaceiros também se dedicavam à produção de seus trajes –mais do que simples vestimentas, verdadeiros uniformes de guerra. Se Lampião apreciara o bordado de Dadá era porque dominava o assunto e sabia reconhecer a sofisticação de uma trama. Entre os sertanejos, costurar e bordar não era ocupação que denunciasse pouca macheza”, conta Adriana no livro.

A vida familiar no cangaço era sofrida, o que não transparece nas imagens feitas por Abrahão, com as mulheres atirando e se divertindo a valer diante da câmera. Na realidade, de acordo com a jornalista, Maria Bonita não participava das ações do bando, assim como a maior parte das cangaceiras – ao que consta, Dadá era a única mulher a carregar um fuzil. “Raras foram as bandoleiras que pegaram em armas. Ao contrário do que propõe uma visão romanceada do cangaço, as mulheres não participavam dos combates”, diz. Apesar de ter sido aparentemente feliz ao lado do amado, Maria foi obrigada, como as demais, a dar à adoção sua filha, Expedita.

Leia abaixo a entrevista com a biógrafa de Maria Bonita. De bônus, o documentário Feminino Cangaço, de Lucas Viana e Manoel Neto, do Centro de Estudos Euclydes da Cunha, sobre a presença das mulheres entre os cangaceiros.


Socialista Morena – Percebi que você teve muita dificuldade em encontrar informações sobre Maria Bonita. As cangaceiras foram invisibilizadas pelos cronistas da época?

Adriana Negreiros – Sim. Os cronistas da época mal se referiam às mulheres. A presença das cangaceiras só começou a ser noticiada mais de um ano depois do ingresso delas no bando –e, ainda assim, de maneira bastante fantasiosa. As primeiras notícias davam conta de que as moças –ou meninas, porque algumas delas tinham 11, 12 anos– compunham um harém de Lampião. Posteriormente, quando a dinâmica no interior do bando começou a se mostrar mais clara (com casais em relação tradicionais), os cronistas pouco se interessariam pelas mulheres. Quando muito, referiam-se à sua aparência. Sobre Maria de Déa (a futura Maria Bonita), um escritor comentou que tinha ‘mãos de unhas sujas, descuidadas’ e o ‘semblante sem a beleza de um sorriso meigo’. Como acontece ainda hoje, as mulheres eram reduzidas à aparência. E exigia-se que fossem lindas, limpinhas e fofas.

SM – As cangaceiras não pegavam em armas? Só ficavam nos bastidores? Quais as principais funções delas?

AN – Raras foram as bandoleiras que pegaram em armas. Ao contrário do que propõe uma visão romanceada do cangaço, as mulheres não participavam dos combates. As cenas que vimos em séries e filmes, de cangaceiras atirando contra homens das forças volantes (os ‘caçadores’ de cangaceiros), não passam de licença dramatúrgica. Os combates eram importantes demais para serem delegados às mulheres –tratava-se de tarefa de ‘macho’, algo que exigia valentia, senso de estratégia e força, atributos que não eram considerados femininos naquele ambiente extremamente machista. As cangaceiras eram submetidas à mesma lógica que aprisiona as mulheres na vida privada (no caso delas, os coitos, onde se escondiam da polícia e realizavam tarefas domésticas convencionais, como cozinhar e costurar), ao passo que aos homens era destinada a vida pública, o espetáculo.

SM – Mas Lampião também era um exímio bordador, não é?

AN – Era, mas não porque fosse um homem delicado, e sim porque essa é uma tradição do vaqueiro, que produzia os próprios gibões. Lampião é um herdeiro dessa tradição.

SM – Você mostra uma história bem pouco heroica dos cangaceiros, onde havia muitos estupros. Inclusive as cangaceiras foram sequestradas por seus futuros maridos. Você acha que, ao longo da história, a imagem dos cangaceiros foi mitificada como espécies de Robin Hood do sertão sem sê-lo?

AN – Sim. Ainda com Lampião em vida, criou-se uma narrativa segundo a qual ele era uma espécie de camponês revolucionário, quase um comunista, homem empenhado em arrancar dos ricos e distribuir entre os pobres. Trata-se de uma visão, a meu ver, bastante ingênua. Lampião era muito mais chegado à elite política e econômica do que ao sertanejo simples. Este, aliás, era a grande vítima do cangaço –sofria violência por parte dos bandoleiros e, ao mesmo tempo, da polícia. O estupro, arma utilizada tanto pelos cangaceiros quanto pelas forças volantes, atingia sobretudo as mulheres pobres. E se Lampião tocou o terror durante quase duas décadas, sem ser capturado, não foi porque tivesse pacto com o sobrenatural ou proteção de Padre Cícero, como se comentava no sertão, mas porque era protegido por coronéis e políticos. Um de seus melhores amigos era o interventor de Sergipe, Eronides de Carvalho, homem da confiança do então presidente Getúlio Vargas. Não vejo Lampião como herói, embora não o considere um bandido comum. Nisso, concordo com Ariano Suassuna. O escritor diz que, a despeito de ter sido um sanguinário, Virgulino ‘não era uma alma pequena e vulgar’. O cangaço é um fenômeno complexo demais para ser preso em categorias simples, como o herói versus o bandido, o bem contra o mal. Como quase tudo, não comporta maniqueísmos.

SM – No livro Bandidos, Eric Hobsbawm chega a chamar o cangaço de “banditismo social”, por ser “contra os opressores”. Você leu o livro dele? Discorda dessa visão?

AN – Li o livro do Hobsbawm e tenho a opinião de que o conceito de ‘bandido social’ não foi compreendido por parte de seus leitores. A meu ver, Hobsbawm não enaltece a figura de tipos como Lampião, tampouco sugere que sejam revolucionários sedentos por igualdade. Ao contrário, apresenta como uma de suas características a ausência de consciência política. Contudo, reconhece que a atuação criminosa tem um componente de protesto por uma situação crítica dada –no caso dos cangaceiros, a vida dura no sertão, enfrentando a seca, a fome e a falta de perspectivas (a não ser que fosse um estoico, um sertanejo pobre dos anos 30 tinha todos os motivos para ser revoltado). Acredito que quem melhor explicou essa questão foi o historiador Frederico Pernambucano de Mello, ao referir-se ao “irredentismo” do cangaço. Para Mello (sem qualquer dúvida, a maior autoridade no tema), Lampião é o arquétipo do ‘irredento’ brasileiro, um homem que não se subordinou aos valores do colonizador. Mas isso não o torna um socialista, digamos assim. Seu sonho era ser rico, dono de fazendas.

TÂNIA ALVES E NÉLSON XAVIER, O LAMPIÃO E MARIA BONITA DA GLOBO EM 1982
SM – E as cangaceiras? Você vê algum “feminismo” nelas?

AN – Nenhum. No interior do bando, vigorava um código de conduta extremamente machista, que previa pena de morte para as mulheres em caso de adultério –embora aos homens fosse dado o direito de envolver-se em toda sorte de aventuras sexuais. Não há notícias de que as mulheres se opusessem a essas normas, muito pelo contrário. Dadá costumava conclamar suas colegas de bando a ‘respeitar’ os homens aos quais pertenciam, o que significa obedecer cegamente a tudo o que eles determinassem. Também não havia no bando o que hoje chamamos de sororidade –as mulheres não se apoiavam. Maria de Déa e Dadá, por exemplo, se detestavam. Antes de ser morta por apedrejamento por ‘trair’ Zé Baiano, Lídia pediu ajuda de Maria de Déa, que se recusou a intervir a favor da colega. Depois de assassinadas, essas mulheres ainda eram vistas, pelas próprias companheiras, como assanhadas. A mensagem era: se tivessem respeitado seus homens, estariam vivas. Como se tivessem feito por merecer a punição.

SM – Ao contrário de Dadá, Maria de Déa foi para o cangaço por vontade própria, fugindo de um marido abusador. Você acha que ela foi feliz ao lado de Lampião?

AN – Acredito que ela tinha uma vida compatível com seu espírito aventureiro e transgressor –comportamento muito valorizado nos homens, mas sempre reprimido nas mulheres. Maria era, de fato, uma mulher arretada e amava Lampião. Conseguiu algo que muitas não conseguem até hoje, que é dar fim a uma relação abusiva e começar uma vida nova. A despeito disso, Maria enfrentou uma existência miserável, em meio ao sertão, passando fome, sede, dormindo ao relento e tendo que abrir mão da própria filha, entregue a uma família de vaqueiros. Certamente foi feliz em muitos momentos e extremamente infeliz em outros.

SM – O que aconteceu com as crianças das cangaceiras?

AN – Foram criadas por famílias sertanejas e tocaram suas vidas, quase todas sem nenhum contato com os pais biológicos.

SM – No livro, você fala que Lampião se enfurecia ao ser ligado a estupros. Ele não participou das violências sexuais?

AN – Sim. Algumas delas, inclusive, estão relatadas no livro, como o estupro coletivo do qual foi vítima a esposa de um senhor de 80 anos. Lampião achou uma sem-vergonhice tremenda aquela situação, um idoso casado com uma mocinha (a esposa era bem mais jovem do que o senhor), e decidiu dar um corretivo no homem –obrigou-o a presenciar sua mulher sendo violentada por todos os cabras de seu bando (ele, como chefe, foi o primeiro a penetrar a jovem).

SM – Se você roteirizasse “Lampião e Maria Bonita”, da Globo, hoje em dia, após a pesquisa para o livro, como mostraria os protagonistas?

AN – Esse é um desafio que transfiro para o Heitor Dhalia, o Manoel Rangel e o Egisto Betti, da Paranoid, produtora que comprou os direitos audiovisuais do meu livro. Estou segura de que eles irão dar ao tema o tratamento que os tempos atuais exigem –uma visão romântica do cangaço não é compatível com um momento em que discutimos feminicídio, relacionamentos abusivos e os perigos da exaltação de figuras autoritárias e justiceiras.






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