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terça-feira, 29 de junho de 2010

Você - Raul Seixas.


Parece que foi ontem, mas, 20 anos nos separam daquela segunda-feira de 21 de agosto de 1989. Neste dia, perdíamos o maior nome do Rock nacional, Raul Santos Seixas, o Raulzito, o maluco beleza, saía do palco da vida deixando órfão uma legião de fãs.

Baiano de Salvador, o menino Raul foi um homem além do seu tempo e do seu espaço, num estilo único, consagrou-se como um dos maiores nomes da música popular brasileira.
Como tantos outros, foi perseguido pela censura que imperava durante os governos militares, Raul Seixas imortalizou-se com músicas como: Você, Gita, Ouro de tolo, Mosca na sopa, Metrô linha 743 entre outras que veemente criticavam e protestavam contra o sistema opressor.

A grande diferença de Raul está além de seu estilo despojado, supera o homem aparentemente louco criticado pelo consumo excessivo de drogas. Raul se imortalizou pelo estilo próprio, por sua forma única e inteligente de fazer música. Neste deserto de artista de qualidade, nesta carência por músicas que fazem sentido, poucos nomes entraram e entrarão para a história como o nome de Raul Seixas.

Os fãs de Raul são muitos, fãs contemporâneos a ele, privilegiados que viram e ouviram o maluco beleza dar o seu recado. Raul Seixas fez fãs na vida e na morte, é grande o número de pessoas que postumamente se renderam, que reconheceram e aderiram ao Raulseixismo.

Talvez Raul Seixas não seja o modelo ideal a ser seguido; talvez. Talvez também, a sua forma de andar contra a ordem o faça um louco, isso depende do ponto de vista de quem o vê, muitos o consideram um gênio exatamente por ele ser o que foi. Mas com certeza Raul foi e será por longos anos um nome de referencia. 20 anos sem Raul, a música popular sente a sua falta. Viva Raul.

Mateus Brandão de Souza.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A realidade é esta:


Pertencemos à camada mais populosa da sociedade, onde a verdade se externa nua e crua, onde as dificuldades estão presentes e a palavra NÃO, nos acompanha constantemente.
Aqui o buraco é mais embaixo, caminhamos lado a lado com a injustiça. E as conquistas quando as temos, chega através de muita capacidade pessoal, muito equilíbrio e força para se levantar das puxadas de tapete, os triunfos se os temos, vem com muito peito e muita raça.
Nos desdobramos dia após dia para driblamos a forte zaga do sistema excludente, somos oprimidos, escravizados. Somos matéria prima, mão-de-obra barata para o benefício de uma outra camada abastada e deleitosa.
Somos a parte da sociedade onde existe um povo guerreiro, onde estão os verdadeiros heróis, onde com sol, chuva e vento, pessoas escrevem a sua existência. Existência esta, que poderia ser muito mais longeva e qualitativa, não fosse a falta de dignidade que nos mata a míngua sem nos assistir com a justiça a qual merecemos.
Aqui não nos rasgam sedas, não vivemos rodeados por bajuladores. Ai daqueles que aqui estão se por ventura mostrar-se insatisfeitos. Não nos é dado o direito á resistência, somos treinados a pacificação, somos adestrados a aceitarmos tudo em perfeita ordem, pois desde a nossa mais terna idade, estamos cientes que devemos ser ordeiros, pois a ordem é quem garante o progresso daqueles que estão onde não estamos.
Somos os excluídos dos excludentes. Não está para nós a parte boa do bolo, não desfrutamos das regalias que deliciam a poucos, somos peças, somos a plebe, somos o combustível que movimenta toda a máquina fazedora de riqueza.
Aqui, muitos bons médicos não serão médicos, muitos mestres, não serão mestres, muitos grandes profissionais não o serão, tudo pela falta de oportunidade, tudo pelo sistema cruel que nos cala e que enterra bons e verdadeiros talentos.
A verdade nauseabunda, revoltante e deprimente é esta: Foi assim com nossos antepassados, assim nós somos e assim serão nossos filhos, netos e toda geração futura. Estamos todos aprisionados, fadados ao fracasso de um beco sem saída.
Teremos uma esperança?
Talvez, talvez um dia apareça uma nova realidade, um novo sistema miraculoso que nos tire da lama a qual estamos atolados e que faça cair por terra toda realidade opressora, mas isto são apenas esperanças e esta parte da sociedade a qual nós estamos incluídos, a muito se alimenta de esperanças vãs. Até lá o povo continuará escrevendo sua sobrevivência, munidos de muita fé e muito sonho, horas acreditando no impossível e desta forma tirando forças para continuar existindo, assim é e assim será, desde que o mundo é mundo.
Por Mateus Brandão de Souza, sobrevivente.

sábado, 26 de junho de 2010

Faz me lembrar.



Certas músicas se tornam marcantes, por acontecer em tempos também marcantes em nossas vidas. A música San Francisco de Scott Mackenzie me remete ao ano 2000, quando, tomado pelo calor que motivava os sonhos de todos os sonhadores do meu lugar nesta época, resolvi jogar tudo o que tinha e buscar novos horizontes nas terras portuguesas.

E assim aconteceu, nos meados de fevereiro de 2000, eu e outro sonhador meu camarada e amigo José Darci, embarcamos num avião da empresa espanhola Ibéria e partimos com destino à distante capital do homem português.

Meu objetivo? Ganhar o dinheiro que nunca ganhei na minha terra mãe, o Brasil.
Porém, o que minha mente e minha emoção aventureira não contavam eram com as reações da ação mais insensata até então de toda minha vida. E somente lá, distante de tudo o que tinha de mais precioso foi que travei conhecimento com a crueza da solidão e da saudade. Na terra de Fernando Pessoa, eu, desvalido, desprotegido e ilegal foi que aprendi o quão valioso é aquilo que de fato me pertence. Em Portugal, em meio a uma multidão de estrangeiros, porém sozinho, foi que tive a certeza que o Brasil é o melhor país do mundo.

Uma saudade imensa varreu a minha alma, saudade de tudo que é meu, de tudo que me identifico, saudades de minha mãe, do meu velho pai e de todos e tudo que aqui deixei.
E durante todo este tempo, neste aprendizado inesquecível, uma música me acompanhava vinda dos carros, dos estabelecimentos e das tantas ruas da velha Lisboa ou das estações do comboio entre Cascais a Cais do Sodré. Não foram os fados melancólicos de Amália Rodrigues que embalavam minha incontida saudade, mas, Scott Mackenzie com San Francisco.
Nos inéditos, imprevisíveis e únicos momentos vividos naquela terra, esta música esteve quase sempre presente.

No dia do meu retorno para o Brasil, viajei sozinho, eu estava eufórico, pois voltava para o meu país e para tudo que me fazia falta. Em determinado momento da viagem, sobrevoando não sei que ponto do imenso oceano atlântico, percebi que havia no encosto da poltrona, um fone de ouvido onde se quisesse, poderia ouvir alguma música. Pois bem, coloquei o fone e para minha surpresa a música que soava era exatamente, San Francisco de Scott Mackenzie.

Portanto, definitivamente, não são os carimbós, nem os fados, nem mesmo o vira de Roberto Leal, que me faz recordar meu tempo em Portugal, mas, a melancolia externada por Mackenzie nesta música, mesclando-se à minha saudade no meu tempo de clandestinidade na terra de Cabral.
Viva o Brasil.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A sabedoria do mendigo.


(Autor desconhecido)
Serapião era um velho mendigo que perambulava pelas ruas da cidade. Ao seu lado, o fiel escudeiro, um vira-lata que atendia pelo nome de Malhado
Serapião não pedia dinheiro.
Aceitava sempre um pão, uma banana, um pedaço de bolo ou um almoço feito com sobras de comida dos mais abastados.
Quando suas roupas estavam
imprestáveis, logo era socorrido por alguma alma caridosa. Mudava a apresentação e era alvo de brincadeiras. Serapião era conhecido como um homem bom, que perdera a razão, a família, os amigos e até a identidade.
Não bebia bebida alcoólica, estava sempre tranqüilo, mesmo quando não havia recebido nem um pouco de comida. Dizia sempre que Deus lhe daria um pouco na hora certa e, sempre na hora que Deus determinava, alguém lhe estendia uma porção de alimentos.
Serapião agradecia com reverência e rogava a Deus pela pessoa que o ajudava.
Tudo que ganhava, dava primeiro para o malhado, que, paciente, comia e ficava a esperar por mais um pouco.
Não tinham onde dormir; onde anoiteciam, lá dormiam. Quando chovia, procuravam abrigo embaixo da ponte e, ali o mendigo ficava a meditar, com um olhar perdido no horizonte.
Aquela figura me deixava sempre pensativo, pois eu não entendia aquela vida vegetativa, sem progresso, sem esperança e sem um futuro promissor.
Certo dia, com a desculpa de lhe oferecer umas bananas fui bater um papo com o velho Serapião.
Iniciei a conversa falando do Malhado, perguntei pela idade dele, o que Serapião, não sabia. Dizia não ter idéia, pois se encontraram um certo dia
quando ambos andavam pelas ruas e falou:
- Nossa amizade começou com um pedaço de pão. Ele parecia estar faminto e eu lhe ofereci um pouco do meu almoço; e ele agradeceu, abanando o rabo. Daí, não me largou mais.
Ele me ajuda muito e eu retribuo essa ajuda sempre que posso.
Curioso perguntei:
-Como vocês se ajudam?
Ele me vigia quando estou dormindo; ninguém pode chegar perto que ele late e ataca. Também quando ele dorme, eu fico vigiando para que outro cachorro não o incomode.
Continuando a conversa, perguntei:
Serapião, você tem algum desejo na vida?
Sim, respondeu ele - tenho vontade de comer um cachorro quente, daqueles que a Zezé vende ali na esquina.
- Só isso? Indaguei.
É, no momento é só isso que eu desejo.
Pois bem, vou satisfazer agora esse grande desejo.
Saí e comprei um cachorro quente para o mendigo. Voltei e lhe entreguei. Ele arregalou os olhos, deu um sorriso, agradeceu a dádiva e em seguida tirou a salsicha, deu para o Malhado, e comeu o pão com os temperos.
Não entendi aquele gesto do mendigo, pois imaginava ser a salsicha o melhor pedaço.
Não me contive e perguntei, intrigado:
Por que você deu para ao Malhado, logo a salsicha?
Ele com a boca cheia respondeu:
Para o melhor amigo, o melhor pedaço!
E continuou comendo, alegre e satisfeito.
Despedi-me do Serapião, passei a mão na cabeça do Malhado e sai pensando.
Aprendi como é bom ter amigos. Pessoas em que possamos confiar.
Por outro lado, é bom ser amigo de alguém e ter a satisfação de ser reconhecido como tal.
*Jamais esquecerei a sabedoria daquele eremita:
"PARA O MELHOR AMIGO O MELHOR PEDAÇO"

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Procura-se um amigo.

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.



Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.


Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.


Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

(Vinícius de Moraes)
Embalados pela poesia acima de Vinícius de Moraes, nos damos conta que: com a correria do dia a dia, com a competição deste mundo cão, ao qual somos inseridos e submetidos, muitos desses valores são ignorados, violados e sequer ensinados ou transmitidos.
Por onde andam os amigos? Onde estão os de fato humanos? os simples, aqueles que mesmo vivendo neste sistema competitivo e desumano, ainda possuem a virtude de enxergar e praticar as boas ações? aqueles que vivem naturalmente a vida? Que admira a natureza, um céu repleto de estrelas, a poesia e o valor de uma verdadeira amizade?
Procuremos por esses amigos, e se você se enquadra nessas qualidades, se você se deixa envolver por essas virtudes, saiba que és uma pessoa rara, as pessoas com tais qualidades, estão em extinção, isto é deprimente. Pense nisso.
Mateus Brandão de Souza.

sábado, 19 de junho de 2010

Morre José Saramago


"Hoje, sexta-feira, 18 de junho, José Saramago faleceu às 12h30 horas [horário local] na sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença. O escritor morreu estando acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila", diz uma nota assinada pela Fundação José Saramago e publicada na página do escritor na internet.
O autor de "O evangelho segundo Jesus Cristo" e "Ensaio sobre a cegueira" vivia em Lanzarote, no arquipélago espanhol desde 1993 com sua esposa.
Entre seus livros mais conhecidos estão "Memorial do convento", "O ano da morte de Ricardo Reis", "O evangelho segundo Jesus Cristo", "A jangada de pedra" e "A viagem do elefante". O mais recente romance publicado pelo escritor foi "Caim", de 2009. Seu estilo de escrita era caracterizado pelos parágrafos muito longos e escassez de pontuações.
Biografia
O português José de Sousa nasceu em 16 de novembro de 1922, na pequena aldeia portuguesa
de Azinhaga, no Ribatejo, região central do país. Ficou mais conhecido, no entanto, pelo sobrenome de sua família paterna, Saramago, que o funcionário do Registro Civil acrescentou após seu nascimento.Sua família mudou-se para Lisboa quando José tinha dois anos. Alunobrilhante, ele teve de abandonar o ensino secundário aos 12 anos, por causa da falta de recursos de seus pais.
Ateu, cético e pessimista, Saramago sempre teve atuação política marcante e levantava a voz contra as injustiças, a religião constituída e os grandes poderes econômicos, que ele via como grandes doenças de seu tempo.
"Estamos afundados na merda do mundo e não se pode ser otimista. O otimista, ou é estúpido, ou insensível ou milionário", disse em dezembro de 2008, durante apresentação em Madri de "As pequenas memórias", obra em que recorda sua infância entre os 5 e 14 anos.
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