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sábado, 12 de março de 2011

Quem duvida?

Escutei pela boca de um profeta
Que de cima o castigo rasga o véu
Cá na terra, tem vez que nada presta
O que parece forte é de papel.
Quem duvida que pipa de criança
Também lança por terra arranha-céu?

De que vale o orgulho desse mundo
O dinheiro, o poder a arrogância?
Nem voar sob o céu se num segundo
Tudo muda conforme o carrossel?
Quem duvida que pipa de criança
Também lança por terra arranha-céu?

Não há muro tão firme que não caia
Foi assim com aquele de Berlin.
Não há rei que do trono nunca saia
Nem nação que não prove o próprio fel.
Quem duvida que pipa de criança
Também lança por terra arranha-céu?

Não existe tirano que não beba
Do veneno que ao povo ofereceu
Pois a vida não releva a soberba
Nem a boca do mal reserva o mel.
Quem duvida que pipa de criança
Também lança por terra arranha-céu?

Todo dia na terra morre gente
Pelas mãos dessas tais super-potências
Por seus mísseis, fuzis tão inclementes
Para quem matar mais vai o troféu
Quem duvida que pipa de criança
Também lança por terra arranha-céu?

Na tv as imagens da barbárie
Da miséria que o mundo já provou
Você não está imune, pois, a dor
Não lhe poupa porque também é réu
Quem duvida que pipa de criança
Também lança por terra arranha-céu?

Quem viver verá que nada se perde
Que ainda há de pagar a sua conta
Pois um dia a justiça desponta
Pra julgar de plebeu a bacharel
Quem duvida que pipa de criança
Também lança por terra arranha-céu?

Quem achar que meu canto está errado
E do que eu digo não se convencer,
Não terá de fazê-lo por agrado
Quem sou eu pra julgar se é fiel?
Quem duvida que pipa de criança
Também lança por terra arranha-céu?




Do álbum “Cantigas de bem querer” – da cantora Paraibana de Campina Grande - Socorro Lira. Indubitavelmente, um show.

ATÉ TU BRUTUS?

Reeditando esta postagem à pedidos de leitores.


Às vezes o poder dá a quem o tem a ilusória sensação de ser intocável. A posição confortável e invejável desperta no indivíduo o ilusionismo de ser imbatível, tornando-se assim um inconsequente.

Foi assim com Julio César, o maior homem da Roma republicana e expansionista. Em seus melhores dias, César adquiriu status, títulos, poder e popularidade. Motivado pelo conforto de seus privilégios, César passou a não medir as conseqüências de suas ações, não se deu conta que suas atitudes despertavam periculosa ira e a mais cega inveja em seus subordinados mais próximos.

Numa fatídica tarde, em pleno senado romano, caía por terra, de forma imbecil, o homem mais poderoso de Roma. César, aquele que se julgou Deus, ditador perpétuo, o amante da rainha Cleópatra do Egito, poderoso, temido, foi assassinado por senadores com estocadas de punhais, dentre os agressores, Brutus, seu próprio filho.

Quando César se deu conta de que ali era o fim de sua jornada, fitou com as vistas turvas seu filho entre seus algozes e balbuciou estas últimas palavras:

“Até tu Brutus, meu filho”?

Esta frase sobreviveu aos tempos, tendo a conotação de decepção, desapontamento e admiração negativa.

Sendo assim, nos atentemos ao exemplo de César, para policiarmos nossos atos, para quando formos líderes, chefes ou senhores, sejamos convenientes, providos de noção e cientes dos nossos limites.

Saibamos que a humildade, a ponderação e a cautela, são degraus que destinam à sabedoria, estes são alicerces fortes que edificam grandes homens. A prudência, os pés no chão, são componentes, complementares de sábias consciências. Não esqueçamos a humildade, atentemos para o fato de que para todas as coisas, são estabelecidos limites. Cuidado para não inflamarmos a ira e o desgosto de outros, pois toda ação produz reação.

Não nos iludamos com o abuso, com o fazer e acontecer, há ainda muitos César, mas também há muitos senadores e Brutus, ávidos, prontos para fazer cair por terra todos os "Césares" inconseqüentes e que erroneamente se julgam imbatíveis.


Por: Mateus Brandão de Souza, graduado em história pela FAFIPA.



sexta-feira, 11 de março de 2011

CARNAVAL DE RUA EM NOVA LONDRINA.

Foto: Osmar Fernandes.
Ao que se sabe, nenhum outro evento popular na cidade se tornou tão tradicional quanto ao carnaval de rua, esta atração teve sua primeira edição em 1997, na administração do então recém eleito prefeito João Fernandes de Almeida.
O Título da primeira edição foi: “carnaval de rua agora vai” uma alusão à vitória obtida nas urnas no pleito de 1996 onde presenciamos uma das campanhas eleitorais mais acirradas de nossa história municipal.

Para quem não sabe ou não se lembra, naquela ocasião, 14 votos decidiram as eleições municipais em Nova Londrina, 14 votos quebraram uma hegemonia política de 14 anos.
Pois bem, tornaram-se memoráveis além alem disto, as primeiras edições deste tradicional carnaval, os primeiros foram realizados próximo à quadra amarela, e aqueles sem dúvida abrigaram em suas melhores noites algo entre 8 a 10 mil foliões de toda região.

De lá pra cá muita coisa aconteceu, o carnaval mudou de cara, de organização, hora uma edição acontecia em um local, hora noutro, até que definitivamente passou a ser realizado no lugar onde estamos habituados. Desde o primeiro, 15 edições já aconteceram, e quem é carnavalesco desde 1997 há de ter notado que nosso carnaval vem gradativamente deixando de ser a atração contagiante que era nas primeiras edições.

Sabemos que a organização de um evento deste porte, gratuito e a céu aberto implica para os responsáveis o custo financeiro e muito labor, ainda assim é interessante manter uma tradição que ainda agrada a maioria da população.
Nesta décima quinta edição, notamos algumas mudanças, ambiente fechado, diversificação a cada noite dos animadores do palco, uma preocupação notável para a não entrada de bebidas afim de não prejudicar os comerciantes que montaram suas barracas, enfim, o carnaval aconteceu sem grandes dificuldades, notou-se até o que é plausível, o baixo índice de violência.

É óbvio que não faltarão críticas e elogios, naturalmente as criticas molestarão os organizadores, uma vez que para uma organização, é penoso ver seu trabalho hostilizado após o esforço da realização.

Talvez o maior pecado desta mais recente edição do carnaval ficará centrado na última noite, pois é impossível passar despercebido a nenhuma combinação entre o sertanejo universitário e um evento tipicamente movido por marchinhas e outros ritmos que são tradicionais na maior festa popular do país.

O ritmo oferecido aos brincantes de carnaval na última noite foi nenhum, pois carnaval com música sertaneja não dá certo nem aqui nesta distante Nova Londrina como em nenhum outro ponto desta federação de dimensão continental.

Aos foliões, ao povo que gosta do carnaval como diversão, fica sempre a esperança de que a tradição continue, e que as características dos grandes carnavais que por aqui aconteceram, voltem a animar e entusiasmar a população nas cinco noites que antecedem a quarentena cristã católica romana.
No mais, vida longa ao carnaval de rua, marca registrada de nossa cidade.

Mateus Brandão de Souza, Graduado em história pela FAFIPA.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Toada da Revolução.

Por Bartolomeu.

Estou postando aqui "proceis" um texto interessante do grande Rolando Boldrin, que retirei do livro de sua autoria "EMPÓRIO BRASIL" lançado pela Melhoramentos em 1987, infelizmente já fora de catálogo.  Pelo menos não consegui encontrar. É um texto inspirado no conto de Rubem Braga "Eu e Bebu", na linguagem caipira e tradicional do Boldrin contá lá os seus "causos".
Mas, antes, a letra da canção "Toada da Revolução" já que Boldrin recita esse texto junto com a música, na coletânea "Vamos Tirar o Brasil da Gaveta":

TOADA DA REVOLUÇÃO

(Rolando Boldrin)

Contei pra meu companheiro de moda
Uma história de revolução
Que eu vi contar em conversa de roda
Como coisas de assombração
Então esse meu companheiro de moda
Depois de me ouvir assombrado
Pediu que eu cantasse com ele em dueto
Um refrão desesperado
Ai meu deus
Que mundo pra se endoidar, credo em cruz
Só se pagando em Jesus.
Ai meu deus
Que mundo pra se endoidar, credo em cruz

AGORA, O TEXTO DO LIVRO:
(Com vossa licença, irmão Rolando Boldrin...)

ZÉ CAPIAU E O OUTRO


Inspirado no conto “Eu e Bebu” de Rubem Braga


Ele, o Diabo, num entrô ansim, cumo num susto no meu rancho... Nem pelos buraco das parede de tábua, ou pelos vão das porta. Não sinhô. Passô, mais foi um dia intero cumigo... e uma noite. A gente começô andando por umas ruela, passemo pelos carreadô de café... e peguemo uma rua da cidade, sempre andando a pé... de quando em vez, proseando.



No começo, palavra de caboclo, eu tava meio descunfiado, amode que cismando. É ou não é? Eu... Mais um Diabo ansim o dia todo... lado a lado... Mas quando foi de tarde, eu já num chamava mais ele de Diabo, nem de Pé-de-Pato ou Pé-Preto, ou arrenegado... ou mesmo Berzebu... Era só, Bebu; e ele a me chamá de Zé, ou mió, de Zé Capiau, Zé pra cá, Zé pra lá, naquela véia intimidade de quando se é amigo há muito tempo, amigo de verdade.

De repende, passô por nois um pedidô de esmola, um preto véio, o Honório. Eu procurei nos borço uma moeda de tostão, que sempre dô tostão de ajutório, e o Bebu aí, me espantô... Num é que ele tirô uma nota grande de um conto de réis e ponhô na mão do esmolêro? E lá evamo nóis andando. A gente agora, proseava pouco, tava meio sem assunto, mas o tempo todo ali, caminhando junto. Passemo na frente do cinembra, resorvemo entrá. Sentemo perto de duas rapariga bonitinha, aí eu pensei cá comigo: - Hiii... Bebu é bem capaz de bolí cum elas, mas não; Ficô ali, cumo um cidadão, bem comportado... assistindo o firme anunciado, era uma firme muito divertido, desses de guerra e de sordado. Eu oiêi no escuro e vi uma morenaça de fazê gosto, me deu uma vontada de falá de amô, mas quando oiêi pra ele, me recriminava com os óio... palavra que fiquei envergonhado do jeito que ele me oiô. Bão. O firme cabô, saímo de lá, e toca a caminhá de novo, inté chegá na praça do povo, na praça principá. Paremo num bar, tomemo umas cerveja e tar, e aí sem nem pru quê, ele me pergunto:
- Escuta aqui, Zé Capiau? Ocê credita no Bem e no Mar?
- Sei lá, eu respondi.
– Pois existe, ele falô; mas num é cumo ocê pensa.
– Ara essa, que cunversa mais besta, Bebu, Bem e Mar? E ele continuou;
- Tá bão, Zé, deixa eu falá; O Bem e o Mar existe, pode ficá certo. Ocê morô lá em S. José? Num morô? – Quase dois ano. Êta lugarzinho parado, né? Lá tem prefeito, num tem? Pois muito bem. O prefeito acha que os banco do jardim deve de ser colocado na frente da igreja. Isso é o Bem. O homi que faz uposição ao prefeito acha que não. Ele acha que os banco deve de ser colocado na frente do coreto. Isso é o Mar.
- Bebu... eu disse – que ocê qué dizê com isso, agora?
Aí ele fico bravo, e gritô:
- Ocê cunhece a minha história. Eu fiz uma revolução contra Deus, perdi, fui vencido, excumungado, expursado, escorraçado, com toda valentia... mas nunca, nunca improrei pra ele, a tar de anistia. Deus me venceu pra todo o sempre, pra toda a eternidade. É o prefeito eterno. .. e eu me revortei, pensa que não? E pensa que foi atôa? Ocê cunhece o meu pograma de guverno, Zé?
Aí que eu num entindi mais nada, que num entendo dessas coisas trapaiada... de política. E ele entrão completô:
-Eu fui pra luta. E desde que o mundo inda nem era mundo, inté hoje, inté hoje sempre fui eu o Lúcifer. Mas só eu que tive peito de me arrevortá, e arriscá a vida e Tudo. Eu podia lhe contá o meu pograma de guverno, Zé. Mas ocê é tão Burro, tão Burro, que inté vô lhe dizê: - Essa joça desse mundo, cumigo num tava assim, não. Mas o que é que ele fez inté agora
A vida que ele organizo é uma miséria. Os homi num sofre? Num se atrapaia? Num se mata? Num véve fazendo burrada? Deus fracassô, Zé. Deus fracassô.
Só ai ele paro... quase chorando de réiva. Já era dia craro. O sór banhava agora os caminho da gente.
– Deve ser mais de sete hora, eu disse de repente, e ele perguntô:
- Pra onde ocê vai agora, Zé? Zé Capiau? Pra onde ocê vai, Zé cheio de preguiça?
- Vô drumi... eu disse. E ocê?
Ele, me oiando muito triste, disse:
– Eu? Eu vou à Missa.

Não deixem de visualizar o site do Boldrin, tem coisas realmente interessantes por lá.

Como ele mesmo diz: "TEM A CRENÇA, E TEM A DESCRENÇA..."


Do Blog BARTOLOMEU777 - O BLOG DAS RARIDADES http://bartolomeu40.blogspot.com/

segunda-feira, 7 de março de 2011

Nereide e Marcele, um ano de saudades.

Que bom seria se as coisas boas da vida fossem pra sempre... Que bom seria se não houvesse um limite para vida de quem amamos... Que bom seria se os artistas da vida real nunca saíssem de cena... Que bom seria se soubéssemos aceitar com naturalidade a lei natural da vida. Todas as palavras do mundo seriam insuficientes para expressar o sentimento de todos nós que vimos vocês duas partirem. Vocês eram mãe e filha, eram também, a melhor amiga uma da outra, Descansem em paz. Para sempre nossas heroínas.
Era uma segunda-feira que amanhecia comum como tantas outras, muito embora aquela de 2010 tenha caído exatamente em um 08 de março, dia dedicado internacionalmente às mulheres. A vida em nossa família seguia seu cotidiano normal, se quer imaginávamos que ao fim da tarde daquele dia, iríamos sofrer o tamanho impacto da notícia que nos chegou de Paraíso do Norte.

Nereide e Marcele, respectivamente mãe e filha saíam de cena do palco da vida em um desastre que nos deixou imensamente consternados frente ao acontecimento que veio ceifar a existência de duas pessoas por quem guardávamos amor e consideração.

Era apenas uma quadra que separava Marcele e Nereide de suas casas, porém o destino marcou para nós naquela esquina, a amarga despedida daquelas que além de mãe e filha, eram amigas inseparáveis e esteios fortes da família do meu irmão José Cardoso e de seus dois filhos Eder e Diego.

Um acontecimento desta proporção deixa marcas enormes em nós que somos dotados de sentimentos, pois por mais conscientes que somos sobre a lei natural do nascer e morrer, nunca somos emocionalmente fortes para suportar, aceitar e entender a partida de um ente querido.

Marcele, jovem aos 21 anos, esbanjava saúde e beleza, tinha mil planos, mil anseios, mil sonhos, ninguém jamais pensou que a fatalidade ia nos deixar órfãos de sua presença insubstituível. Nereide vivia para os filhos, morreu duas horas depois do acidente ao dar entrada no pronto socorro de Maringá, sequer viu a geladeira nova que tanto queria e que havia chegado aquele dia em sua casa.

Um acontecimento de marcas desmedidas, que nos serve para pensarmos na fragilidade da vida e o quanto as estruturas pessoais são abaladas quando se perde de forma inesperada uma pessoa próxima. Conosco ficou além da infinda tristeza, a amarga certeza da inutilidade das palavras e dos atos, pois não há nada que apague de nossas memórias e corações o vazio deixado por essas duas criaturas que partiram repentinamente nos cobrindo de tristeza e luto.

Marcele e Nereide. Fica registrada neste blog esta homenagem a vocês que sempre serão amadas, fica também além de toda a nossa saudade, a certeza de que a um ano o mundo de todos os seus parentes e amigos ficou pior devido ao vazio que suas ausências deixaram.

Descansem em paz queridas.

Mateus Brandão de Souza.

domingo, 6 de março de 2011

Arthur Bispo do Rosário

Com diagnóstico de esquizofrenia-paranóide, ele viveu recluso por meio século e morreu há 22 anos, mas sua obra atravessou os muros da instituição psiquiátrica e obteve reconhecimento
IMAGENS: EDITORA ROCCO/DIVULGAÇÃO
Por Luciana Hidalgo.

Arthur Bispo do Rosário perambulou numa delicada região entre a realidade e o delírio, a vida e a arte. No refúgio de sua cela no Hospital Nacional dos Alienados, na Praia Vermelha Rio de Janeiro, o paciente psiquiátrico produziu mais de mil obras consagradas no mercado internacional de arte contemporânea. Criou um universo lúdico de bordados, assemblages, estandartes e objetos durante os mais obscuros períodos da psiquiatria – época dos eletrochoques, lobotomias e tratamentos violentos aplicados para o controle de crises. Sem se dar conta, Bispo não só driblou os mecanismos de poder no manicômio como utilizou sobras de materiais dispensados no hospital para criar suas obras, inventando um mundo paralelo, feito para Deus.

Dizia-se um escolhido do todo-poderoso, encarregado de reproduzir o mundo em miniaturas. Eram suas “representações”, afirmava. Paradoxalmente, as obras, que deveriam representar tudo o que havia na Terra acabariam reconhecidas como peças de vanguarda, incluídas por críticos em importantes movimentos artísticos. Sua arte genial chegou a representar o Brasil na prestigiada Bienal de Veneza, além de correr museus pelo mundo, a exemplo do Jeu de Paume, em Paris. Curiosamente, em vida, Bispo recusava o rótulo de “artista”, dado o caráter divino de sua tarefa. Mas a potência de sua obra ignora limites e até hoje atravessa fronteiras, transgredindo convenções e levando espectadores de todo o mundo ao encantamento.

A história da “loucura” de Bispo remonta à noite de 22 de dezembro de 1938, quando, aos 29 anos, conduzido por um imaginário exército de anjos, andou pelas ruas do Rio com um destino certo: ia se “apresentar” na igreja da Candelária, no centro. Peregrinou pelas várias igrejas enfileiradas na rua Primeiro de Março e terminou no Mosteiro de São Bento, onde anunciou a uma confraria de padres que era um enviado, incumbido de “julgar os vivos e os mortos”. Detalhes dessa narrativa, meio real meio ficcional, constam de um estandarte bordado por Bispo, uma das belas peças de sua vasta obra, que mistura autobiografia e autoficção. É nesse estandarte que Bispo registra a frase-síntese de sua vida e obra Eu preciso destas palavras – Escrita. A palavra tinha para ele status extraordinário, por isso seus bordados estão repletos de nomes de pessoas, trechos poéticos, mensagens.

O dia 24 de dezembro de 1938 foi um divisor de águas psíquico para Bispo. Era Natal, ele se convertia na figura de Jesus Cristo, mas acabaria sob o domínio da psiquiatria. Interditado pela polícia dois dias após a sua “anunciação”, foi enviado ao Hospital Nacional dos Alienados, na Praia Vermelha, onde rótulos não tardariam a marcar sua ficha: negro, sem documentos, indigente.

Nota: Luciana Hidalgo é jornalista, escritora e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UFRJ), onde leciona no Departamento de Letras, com bolsa de pós doutorado (Faperj). É autora de Arthur Bispo do Rosario – O senhor do labirinto (ed. Rocco/Prêmio Jabuti 1997) e Literatura da urgência – Lima Barreto no domínio da loucura (ed. Annablume, 2008).


Fontehttp://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/as_artes_de_arthur_bispo_do_rosario.html

Moça Rica (Poeta Zé Laurentino)

Em dias de carnaval, indico aos leitores deste blog este poema do poeta paraibano de Campina Grande, Zé laurentino. Aqui o vamos tomar conhecimento da "tizorada" que um matuto deu em uma moça rica. Após esta se aventurar e desventurar-se com seus amores de carnaval, vista em maus lençois, a moça foi intencionava  na verdade empurrar no matuto as conseqüências de seus namoros carnavalescos. 

Moça rica.

Moça rica tu me prigunta
Purqui é que num ti queru
Eu ti respondu, minina
Eu so um sujetu séru

Eu num ti queru pruque
Tu nasceste na riqueza
Nunca vai ti acostumá
A vivê na minha pobreza

As tua mãozinha fina
Bunita como elas são
Era capaz de tê nojo
Dos calo da minha mão

Tu num sabe panhá fava
Pega mio, bate pano
Cuzinha fejão cum lenha
Soprano cum abano
Pras labareda crescê
Nem tem corage de tê
Um mininu todo ano

Num sabe anda a cavalo
Num gosta di andá a pé
Num sabe fazê pamonha
Pa mó di tomá cum café

Num sabe anda na floresta
Pois intonce assim num presta
Pa mó di sê minha mulé.

Otra coisa, Moça rica
Antis tu num mi quiria
Só dispois du carnavá
Qui tu pulaste 3 dia
Mi vem assim tão pachola
Mas cego que vê esmola
Muito grande desconfia

Só dispois daquele dia você se arrisca
A querê vim pegá um besta
Com esses zóio de faísca

De você mesmo se queixe
Como vem pegá um peixe
Depois que estragô a isca?

Vai ti embora Moça rica
Que eu tomo otra direção
Vou me casar com Rosinha
Filha do seu Sebastião

Essa sim me tem amô
E é pura como as fulô
Dos pé de manjericão!
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