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quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Rio da minha infância...



No Marcos Valnei

Um dia me perguntaram qual o motivo de eu gostar tanto de rios... Talvez o rio seja para mim a plena inteiração com Deus... Desde menino, adorava água correndo mansamente, levando em seu itinerário, mistérios que jamais minha curiosa mente conseguiu desvendar. Sombra de árvores, raios de sol vencendo a copa da mata e reluzindo na água mansa e calma de um rio, o barulho da correnteza... Tudo isso massageia minha alma e me deixa mais leve. Uma pescaria de caniço, um barco riscando o azul das águas, um banho refrescante... Rio é vida... Geralmente vamos até ele acompanhados de amigos, de pessoas que queremos bem. Rio me faz sonhar e contemplando a paisagem que o rodeia, me reencontro com o menino que ainda nada dentro de mim pelos rios da minha história...

Leiam a crônica de Joel Trinidad... Trata-se de uma obra tão universal que consegue não só retratar a sua infância como também a de muita gente. Confesso que me emocionei...


SAUDADES DO RIO DA MINHA INFÂNCIA


Ah! Que saudade do rio da minha infância!


Lá as águas tinham vontade própria e a gente não tinha vontade alguma de sair de lá.

_No três a gente pula, está bem?


_1, 2,3... Êba!!!!


Lá a água era doce, doce que nem os bolos de chocolate que a mãe da gente fazia e a gente levava para comer quando sentia fome, lembra?


Era tão bom poder ver os amigos da gente se divertindo, enquanto o dia ia passando na maior preguiça.

Subíamos na mangueira e lá de cima a gente gritava alto que nem Tarzan e se jogava de cabeça, segurando a ponta do nariz e sorrindo feito gente feliz.


Ah! Que saudades do rio da minha infância...


A tardezinha quando chovia, deixava a água quente e a gente mergulhava ainda mais fundo para buscar pedrinhas brancas e guardá-las na caixinha de madeira, cheio de iscas de peixe que a gente nunca colocava na água.


As roupas ficavam ensopadas com a água da chuva e a gente nem ligava para o que a nossa mãe diria quando nos visse daquele jeito. Mas, não tinha importância não. Lá a gente não pensava no futuro. Só queríamos na verdade aproveitar a grandeza do presente.


Pensando bem, a gente pensava no futuro sim. O Zeca queria ser médico. Dizia que montaria um consultório próximo lá do rio, para que quando algum outro garoto se machucasse tivesse a quem recorrer, e assim nenhuma mãe desconfiaria quando voltasse pra casa.


O Fabinho disse que seria astronauta e que lá do espaço, ele nos mandaria um sinal com reflexo de espelho quebrado, tipo aquele que a gente colocava mirando para o sol, anunciando da cerca que a turma iria se reunir no riachinho...


Ah! Que saudades do rio da minha infância...


Lá a gente era feliz e não sabia. Éramos todos ricos, ricos das próprias incertezas que a vida nos reservaria. Saudade daquele cheiro de mato, da água fria e dos sabiás moldando o cenário que a gente cresceu lembrando, e que hoje me faz chorar quando bate a saudade.


Aquele cheiro de lenha queimando no fogo, o gosto do caju apanhado do pé, o cheiro de capim espinhando as costas...


Hoje puseram um cerca lá.


Puseram uma cerca onde não havia limites, onde não havia dono, onde não havia um pedaço de chão que a gente já não tivesse colocado a planta do nosso pé.


Separaram o que foi infância do que hoje tem preço. E a gente não vai mais lá.


Separaram o que era pra sempre, e puseram a metade do outro lado, como se pudessem dividir o que já foi inteiro... E a gente não pode ir mais lá.


A velha calça rasgada e os chinelos sujos de lama, já não calçam mais meus pés, é verdade. O Fabinho, hoje é o Seu Fábio, dono de um pequeno ranchinho na beira da estrada e o Zeca hoje trabalha na cidade grande e eu que nem tinha vontade de ser gente alguma, virei Doutor. Como é essa vida!


Ah! Que saudades do rio da minha infância!


Lá eu fui inteiro num pedaço que era só metade, porque o resto era dividido entre nós.

E metade... Metade já foi aquilo tudo inteiro, moço!


Deu saudade da época em que as cercas não me diziam o que dizem hoje.


Puseram uma cerca no rio da minha infância e trancaram o meu peito no leito daquele rio.

_No três a gente pula, está bem?


_1, 2, 3...


Adeus!


Autor da crônica: Joel Trinidad

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

ENTRE AMIGOS


 Para que serve um amigo?

Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.

Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.

Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo contruído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.

Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.

Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.

Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.

Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.

Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o reveillon.

Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.

Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.

Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém.

Martha Medeiros

terça-feira, 21 de setembro de 2021

A coruja gaba o próprio toco


Respeitando-se em suas devidas qualidades os conhecimentos filosófico e cientifico, vamos nos atentar aqui tão somente a um outro conhecimento, o do senso comum, sem jamais menosprezá-lo, pois, por mais que pensadores e cientistas possuam suas convicções, o senso comum sem a pesquisa nem a experiência aprimorada, também tem suas razões.

O dito popular “a coruja gaba o próprio toco” nos remete às fábulas onde a coruja é uma personagem inteligente, dada ao diálogo, personagem esta que se auto-promove, que intenciona convencer terceiros que ela, a coruja, possui qualidades mil, muito embora estas qualidades sejam inexistentes ou sejam vistas apenas no imaginário das corujas.

Foram das fábulas também, que tiramos a expressão “mãe coruja”, pois seus filhotes embora visivelmente feios, a mãe coruja os considera lindos. Portanto, quando o senso comum diz que a coruja gaba o próprio toco, obviamente concluímos que de forma alguma alguém em sã consciência propagará suas debilidades ou defeitos.

A propaganda busca convencer, evidenciar a um terceiro que determinado objeto, pessoa ou o que quer que seja possua qualidades ímpares, significativas e consideráveis. Quando a pessoa se comporta como a coruja das fábulas, muitas vezes ela está persuadindo aos quatro cantos sobre suas qualidades, qualidades muitas vezes inexistentes e vislumbradas apenas no imaginário daqueles que estão se auto-propagando.

“Sejam outras que te aplaudam, não as tuas mãos, seja outra que te louve, não a tua boca”. Assim nos ensina um dos provérbios atribuídos ao sábio Salomão. Ninguém jamais falará mal de si próprio, pois os próprios interesses estão sempre em jogo, é uma questão de lógica.

Portanto, prezado leitor, aproveitemos a sabedoria popular contextualizando seus ditados repletos de fundamentos. Em toda esta competitividade a qual estamos inseridos cada qual puxa a brasa para sua sardinha.

Pensemos nisso...

Mateus Brandão de Souza

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Poça D' água


 ...”Na rua uma poça d'água, espelho da minha mágoa, transporta o céu para o chão”...

(Newton Teixeira e Jorge Faraj)

Trecho do poema, do clássico da música popular “A Deusa da minha rua”. É composição de Newton Teixeira e Jorge Faraj, foi cantada por grandes nomes como Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Silvio Caldas entre outros. Como diriam os mais velhos, “é música dos tempos em que se tinha vergonha na cara”.

A música fala de um apaixonado morador de uma rua modesta em que havia uma mulher linda, uma Deusa, um sonho de beleza e encantamento. Descreve a rua esburacada, com poças d’água, enfatiza a modéstia desta rua e salienta, rebatendo a precária ou nenhuma pavimentação da rua, com a importante beleza de uma moradora que encanta e paralisa o olhar dos que a fitam.

Talvez você prezado leitor, não tenha a sorte do autor desta música, talvez em sua rua, não viva uma Deusa, talvez em seu portão não passe nenhuma mulher sinuosa, mas estamos certo que em algo você se identifica, temos certeza de que em sua rua há uma poça d’água, principalmente nestes tempos de crise e de chuva em abundância, evidentemente há aquela poça transportando o céu para o chão, é lindo, a poça reflete a luz da lua é de fato poético . E se em sua rua há além da poça d’água uma Deusa, parabéns coincidentemente, foi em situações como a sua, que a música A Deusa da minha rua foi escrita.

Talvez buracos na rua, sirvam para inspirar outros poemas como o clássico que hora citamos, afinal os bons poetas tiram canções até mesmos das situações adversas a exemplo de Amélia que achava bonito não ter o que comer. Quem acha que buracos na rua, poças d’água sirvam apenas para as deixar feias, aos motoristas que tiveram seus automóveis danificados, a você que já teve que ir na contra-mão para desviar de um buraco, saiba, rua feia esburacada, inspirou Newton Teixeira e Jorge Faraj fazer acontecer A Deusa da minha rua, um clássico. Quem sabe nossas ruas também faça fluir alguma poesia e desta forma termos mais um clássico? Assim diremos, “nem tudo está perdido nesta terra onde as ruas tem buracos”

Por Mateus Brandão de Souza, graduado em História pela FAFIPA.

sábado, 18 de setembro de 2021

"Até tu Brutus?"

 


As vezes o poder dá a quem o tem, a ilusória sensação de ser intocável. A posição confortável e invejável desperta no indivíduo o ilusionismo de ser imbatível, tornando-se assim um inconseqüente.

Foi assim com Julio César, o maior homem da Roma republicana e expansionista. Em seus melhores dias, César adquiriu status, títulos, poder e popularidade. Motivado pelo conforto de seus privilégios, César passou a não medir as conseqüências de suas ações, não se deu conta que suas atitudes despertavam perículosa ira e a mais cega inveja em seus subordinados mais próximos.

Numa fatídica tarde, em pleno senado romano, caía por terra, de forma imbecil, o homem mais poderoso de Roma. César, aquele que se julgou Deus, ditador perpétuo, o amante da rainha Cleópatra do Egito, poderoso, temido, foi assassinado por senadores com estocadas de punhais, dentre os agressores, Brutus, seu próprio filho.

Quando César se deu conta de que ali era o fim de sua jornada, fitou com as vistas turvas seu filho entre seus algozes e balbuciou estas últimas palavras:


“Até tu Brutus, meu filho”?


Esta frase sobreviveu aos tempos, tendo a conotação de decepção, desapontamento e admiração negativa.

Sendo assim, nos atentemos ao exemplo de César, para policiarmos nossos atos, para quando formos líderes, chefes ou senhores, sejamos convenientes, providos de noção e cientes dos nossos limites.

Saibamos que a humildade, a ponderação e a cautela, são degraus que destinam à sabedoria, estes são alicerces fortes que edificam grandes homens. A prudência, os pés no chão, são componentes, complementares de sábias consciências. Não esqueçamos a humildade, atentemos para o fato de que para todas as coisas, são estabelecidos limites. Cuidado para não inflamarmos a ira e o desgosto de outros, pois toda ação produz reação.

Não nos iludamos com o abuso, com o fazer e acontecer, há ainda muitos César, mas também há muitos senadores e Brutus, ávidos, prontos para fazer cair por terra todos os "Césares" inconseqüentes e que erroneamente se julgam imbatíveis.


Por: Mateus Brandão de Souza.

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Avião dos EUA entrou sem autorização no Brasil e americanos estiveram em Varginha no dia da captura do ET

Representação em instalação artística da cena do encontro com o ET de Varginha (Foto: Portal Vigília)

Por: Redação Vigília

O Caso Varginha, um dos mais impressionantes e importantes eventos ufológicos do mundo, completou 25 anos em janeiro de 2021. E embora a história seja bastante conhecida é razoável afirmar que não conhecemos a totalidade do que aconteceu naquele fatídico dia 20 de janeiro de 1996.

Mas, ao longo dos anos, diversas peças desse “quebra-cabeças” já surgiram. E no último dia 02 de julho o controlador de voo Marcos Feres deu sua contribuição para a história.

O ET de Varginha

Durante uma LIVE realizada pelo canal Controladores de Voo no YouTube, Feres – que estava acompanhado dos também controladores de voo Nel “Mané” Fernandes e Aroldo Soares, e do meteorologista Hiremar Soares – trouxe à tona um importante complemento para o Caso.

Segundo ele, aquele 20 de janeiro de 1996 era mais um dia comum de trabalho na Torre de Controle quando sua equipe identificou um avião “estranho” adentrando o espaço aéreo brasileiro.

Após rápida investigação descobriu que tratava-se de uma aeronave da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF).

Mas ao procurar a AVOEM, autorização que permite que aeronaves militares e civis públicas estrangeiras entrem no nosso espaço aéreo, descobriu que não havia.

Avião sem autorização

“Fizemos tudo o que podia ser feito ali para descobrir porque aquela aeronave estava entrando sem o nosso conhecimento”, contou Feres.

E antes mesmo que pudesse tomar qualquer providência um oficial superior entrou em contato por telefone falando sobre a aeronave americana e alegando que não houvera tempo de preparar o AVOEM. Todavia era para liberá-la.

“Eu não impedi, mas pedi a autorização por escrito. Era muita responsabilidade entrar uma aeronave estrangeira no país sem autorização”, lembra.

O controlador de voo e sua equipe ouviram também do superior que o destino da aeronave americana era o aeroporto de Guarulhos, em São Paulo.

Mudança de rota

Apesar de incomum o incidente não causou grandes preocupações na equipe. Entretanto, ao invés de seguir o plano de voo, a aeronave dos EUA mudou de rota e seguiu para o aeroporto de Viracopos, em Campinas.

“E é de conhecimento do pessoal da aviação que uma aeronave militar estrangeira quando entra no país não pode efetuar desvios. Ela segue aquele padrão todo certo porque ela é observada pela defesa aérea”, continuou contando Feres.

A história ficava cada vez mais esquisita.

Com destino à Varginha

Depois que o avião pousou em Campinas, em 15 minutos a equipe de lá telefonou e solicitou autorização para que dois helicópteros da Força Aérea Brasileira (FAB) decolassem com destino à Varginha, em Minas Gerais.

“Plano de voo nós não temos em mãos”, disse a voz do outro lado. “Mas o restante segue escrito: tempo estimado de voo, autonomia, pessoas a bordo”, prosseguiu.

Feres enfatiza que os helicópteros não eram sediados em Campinas e estavam ali apenas esperando os passageiros para levá-los à Varginha.

“Em Varginha eles ficaram algum tempo, não sei precisar quanto. Mas logo voltaram para Campinas e já com o plano de voo e todas as autorizações o avião da USAF voltou para os EUA”, continuou.

Estranha coincidência

Feres recorda que dois dias depois desse incidente viu a notícia do ET de Varginha na imprensa e que só aí se deu conta do que acontecera.

Mas quando quis falar sobre a “estranha coincidência”, foi orientado a esquecer.

“Feres, esquece esse negocio da AVOEM. Não precisa relatar, está tudo certo, tudo resolvido. Esquece tudo isso, deve ter tido alguma falha interna”, lembrou.

Hoje ele diz que, pela experiência que teve, tudo leva a crer que houve sim um ET de Varginha. “Não me deixaram falar”, lamenta. “Mas essa é uma prova ou amostra indireta que o ET de Varginha não é aquela brincadeira que o pessoal leva até hoje”, finaliza.


quinta-feira, 16 de setembro de 2021

De alvo de racismo a "manual do rap brasileiro": livro celebra "Sobrevivendo no Inferno"

Disco dos Racionais Mcs completa 24 anos e ganha publicação que analisa os discursos, estéticas e consequências da obra


Capa de "Sobrevivendo no Inferno" - Foto: Divulgação

Em 1997, os Racionais MC’s estavam às portas de celebrar uma década de existência, algo raro no rap nacional. Após três anos sem lançar um disco, o grupo apresentou o LP Sobrevivendo no Inferno. Hoje, 24 anos depois, não há dúvida de que se trata de uma obra iconográfica da música brasileira.

Embora o sentimento seja amplo, a afirmação é do pesquisador Arthur Dantas Rocha, que acaba de publicar o livro Racionais MC`s: Sobrevivendo no inferno pela coleção O Livro do Disco da editora Cobogó.

“É um disco paradigmático, ele tem um peso que permanece no rap nacional. As gerações coladas a esse disco ficaram reféns desse jeito de se dizer as coisas, de uma estética, enfim, era um manual de como o rap deveria ser feito no Brasil”, afirma o escritor.

Antes do reconhecimento, porém, o grupo teve que enfrentar o preconceito na divulgação do trabalho. "Não tenho medo algum de dizer que o comportamento dos jornalistas com os Racionais e com o disco, era racista. Eles não sabiam como lidar e nem conseguiam achar um lugar para colocar essa música dentro da cultura brasileira. Os Racionais provocaram um curto-circuito na cabeça da crítica cultural daquela época", ressalta Dantas.

Em 2007, a revista Rolling Stone elaborou uma lista com os maiores discos brasileiros de todos os tempos.  Sobrevivendo no Inferno figura na 14ª posição, ladeado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Novos Baianos, entre outros. Em 2015, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), em viagem oficial ao Vaticano, presenteou o Papa Francisco com o disco.

Produzido de forma independente, pelo próprio grupo, Sobrevivendo no Inferno chegou rapidamente ao sucesso, alavancado pela MTV, que passou a divulgar o videoclipe da música Diário de um Detento, um clássico do rap nacional que figura nesse disco.

Confira a entrevista com Arthur Dantas Rocha na íntegra:

Brasil de Fato: Por que o Sobrevivendo no Inferno? Existe essa disputa, entre fãs do grupo, se o melhor disco seria Sobrevivendo no Inferno ou Nada Como um Dia Após o Outro Dia.

Arthur Dantas Rocha: Os dois coordenadores da coleção que decidiram o livro. O meu disco preferido era o Nada Como Um Dia Após o Outro Dia. Mas nós estamos falando de dois discos que são marcos na história da música brasileira, são enormes.

Em alguns momentos você fala sobre a tese de que este seria o disco evangélico dos Racionais. Me pareceu que te incomoda essa possibilidade. Estou errado? Ao fim e ao cabo, você defende ou ataca essa ideia?

Eu já tive discussões longas sobre se seria esse um disco evangélico, tenho amigos que são evangélicos que batem muito nessa tecla. Tem um cara, o MC Empada, que pegou o disco inteiro e comparou com passagens da Bíblia. Obviamente, o disco tem elementos evangélicos, mas tem elementos católicos e do candomblé.

Em Jorge da Capadócia, do Jorge Ben, eles fazem uma interferência, com uma saudação que remete ao candomblé, “Ogunhê”. Então, esse disco tem uma religiosidade mais complexa do que apenas evangélica. É uma religiosidade que tenta dar conta das contradições e dos dilemas de uma pessoa que vive na periferia.


Racionais MCs, grupo formado por Mano Brown, Edi Rock, KL Jay e Ice Blue / Foto: Divulgação

Esse é o disco que faz o rap ser levado a sério? Você fala desse olhar de exotificação que a imprensa, principalmente a crítica cultural, tinha sobre a periferia. Essa perspectiva, que separa a arte por sua posição no mapa da cidade, é rompida com o disco?

A relação que eles tiveram com a imprensa foi bem racista. Eu não tenho medo algum de dizer que o comportamento dos jornalistas com os Racionais e com o disco, era racista. Eles não sabiam como lidar e nem conseguiam achar um lugar para colocar essa música dentro da cultura brasileira.

Os Racionais provocaram um curto-circuito na cabeça da crítica cultural daquela época. Talvez tenha tocado rap brasileiro na MTV, antes de Sobrevivendo no Inferno, mas a grande febre foi provocada pelos Racionais, foi muito impactante o lançamento do clipe de Diário de um Detento. Foi avassalador. Mas exceção a Caros Amigos e Notícias Populares, os outros meios de comunicação eram racistas, quando tratavam do rap.

Você fala sobre a falta de cordialidade, um mito brasileiro, no disco dos Racionais. Achei interessante você trazer essa perspectiva. Mas ela serve para o rap nacional, não?

É um disco paradigmático, ele tem um peso que permanece no rap nacional. As gerações coladas a esse disco, ficaram reféns desse jeito de se dizer as coisas, de uma estética, enfim, era um manual de como o rap deveria ser feito no Brasil. Isso acontece até hoje.

Agora, eu particularmente, acho que o rap tem que ser o que ele quiser ser, sem fórmulas, um gênero que deve dizer que o quiser. Há um olhar enviesado, principalmente quando pensamos de enfrentamento ao racismo, que é muito influenciado por esse disco. Havia outros grupos que nessa época já falavam de racismo em suas letras, mas Racionais tinham um peso maior com o povo brasileiro. Quando vamos qualificar essa questão sobre o combate ao racismo no rap nacional, o Sobrevivendo no Inferno é fundamental.

Diário de Um Detento é uma música especial. Se hoje, ainda, é difícil colocar em perspectiva que a tragédia do Massacre do Carandiru foi um brutal ataque aos direitos humanos, independente de quem são as vítimas para você ou para mim, 111 pessoas morreram, imagina cinco após o episódio, em 1997. É a música mais relevante daquele disco?

Esse disco é revolucionário, não? Eu confesso que minha predileção naquele disco alterna, mas Diário de um Detento é, de fato, uma música fantástica. Em qualquer relação das 20 maiores músicas da história do rap nacional, Diário de um Detento entra.

Por mais que nossas predileções escapem para uma música ou outra, dependendo da fase que estamos vivendo, essa música é o marco do disco e eles [Racionais] também pensavam assim, tanto que escolheram ela para que fosse o primeiro clipe das canções do disco. Eles tinham a dimensão que essa música era incontornável, é a música mais poderosa daquele disco.

Muita gente divide o rap nacional em antes e depois de Sobrevivendo no Inferno. A influência do disco é mais na estética proposta, no discurso ou há elementos técnicos que o tornam uma referência histórica?

Eu concordo que é um marco e vou além, determina um antes e um depois para os Racionais também. Se você pegar o Raio-X do Brasil, que é um disco incrível, e pegar o Sobrevivendo no Inferno, parecem dois grupos diferentes. A persona do Brown, na abertura da música Capítulo 4, Versículo 3, que ele já vem estourando. O mesmo Brown no disco anterior não atuava dessa forma.

Eu entendo quando as pessoas falam que esse disco determina um antes e um depois no rap nacional, porque ele coloca a exigência para a produção desse estilo em um nível muito alto. Para fazer rap, depois do Sobrevivendo no Inferno, determinava um saber técnico que talvez estivesse aquém, até então, no cenário nacional.

Os samples são trabalhados de forma toda especial, puta maestria, que também era pouco comum no rap brasileiro. Esse é, também, o primeiro disco dos Racionais na gravadora própria deles, sem ter que responder para ninguém. Além disso, e não pouca coisa, eles tinham o melhor e o segundo melhor MC do país, Mano Brown e Edi Rock, e o Ice Blue, que é um intérprete violento. Por fim, um DJ que está entre os maiores do mundo. Essa seleção vivendo no mesmo tempo é uma dádiva, no mesmo grupo ainda, é um acaso maravilhoso.

Onde você vê, disco ou artista, maior influência desse discurso imposto pelos Racionais em Sobrevivendo no Inferno?

Dexter é o maior herdeiro do Sobrevivendo no Inferno, foi quem bebeu melhor nessa fonte, e foi além. Com certeza o Dexter, que é um artista que não fica apenas nisso, é um cara superimportante para o rap, foi além dessa referência. O Crônica Mendes também, ele tem uma lírica que é bem influenciada pelo disco. Mas ele também não fica apenas nisso. Mas são nomes que eu lembro agora, de rappers que souberam trabalhar esse legado.

Edição: Leandro Melito

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