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quarta-feira, 22 de julho de 2020

Novo Fundeb é aprovado em primeiro turno


O novo Fundeb (Fundo de Desenvolvimento e Valorização dos Profissionais da Educação) foi aprovado em primeiro turno na Câmara dos Deputados, na noite desta terça (21), por 499 votos a favor e 7 contra.

Seis dos sete votos contrários foram de deputados da base bolsonarista, como Márcio Labre (PSL-RJ), Bia Kicis (PSL-DF), Chris Tonietto (PSL-RJ), Filipe Barros (PSL-PR) e Junio Amaral (PSL-MG).

A aprovação representa uma derrota significante para o governo Bolsonaro e uma vitória para a educação básica.

O novo texto faz com que a parcela de contribuição da União passe de 10% para 23%. A relatora também incorporou algumas sugestões discutidas com o governo.

A complementação da União para o Fundeb crescerá de forma gradativa ao longo dos próximos seis anos (2021 a 2026).

A proposta apresentada pelo general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo, previa que 5% dos recursos do Fundeb fossem destinados ao programa social Renda Brasil.

Via - DCM

terça-feira, 21 de julho de 2020

Quilimérios, um povo isolado no interior de Minas

Vídeo mostra pela primeira vez a comunidade dos Quilimérios, que se isolaram em Rubim, no Nordeste do estado há quase dois séculos.


Por Aloísio Morais

Um curta metragem feito de forma artesanal acaba de revelar, pela primeira vez, as imagens dos remanescentes de um povo que vive isolado há quase dois séculos entre as belas pedras de granito do município de Rubim, uma pequena cidade mineira incrustada no Baixo Rio Jequitinhonha, quase na divida com o sul da Bahia.

Neste belo lugar, um antigo quilombo volante, certamente vindo do interior da Bahia, resolveu se fixar de vez misturando-se aos índios para ali em isolamento, até que nas últimas décadas as novas gerações começaram a mudar para a cidade. São os Quilimérios.

Um pouco da história da comunidade começa agora a ser desvendada por uma equipe de cineastas e jornalistas mineiros esteve lá e fez o interessante curta metragem chamado Quilimérios, de 24 minutos, que trata da história de um povo que vive isolado desde o século XIX. Escondidos entre altas pedras de lugares quase inacessíveis, os Quilimérios ainda são desconhecidos por muita gente que vive até mesmo na própria região.

O curta Quilimérios conta um pouco da história deste povo, mostra cenários deslumbrantes filmados praticamente apenas com celular e drone, “o que o torna um produto experimental e inovador”, afirma Emerson Penha, o diretor do documentário. “É impressionante, nos dias de hoje, com tanta tecnologia, um povo permanecer isolado. Por outro lado, é importante poder mostrar que o mundo tem lugar para todos, independentemente do seu jeito de ser e viver. Todos têm direito a viver como desejam e isso precisa ser respeitado”, observa Penha.

Até hoje o mistério da existência deste povo permanece, inclusive a origem do nome Quilimérios. Há indícios de que sua origem estaria ligada aos bantos vindos da África, mas a história que se conta na região de Rubim é que esse grupo de pessoas foi formado a partir da fuga de um ex-escravo, Juca Preto, contratado por um fazendeiro da vizinha cidade de Pedra Azul, onde vivia, para matar alguém importante. Após praticar o crime, Juca teria fugido para a região onde seus descendentes vivem até hoje. Na fuga, levou uma mulher indígena com quem deu início à família dos Quilimérios.

São pessoas muito reservadas que cultivam costumes antigos e têm hábitos comportamentais como o casamento endogâmico. A explicação sociológica mais razoável é que sejam remanescentes dos quilombos volantes, grupos nômades formados por afrodescendentes que escapavam do cativeiro, indígenas expulsos de suas terras e mesmo por brancos que fugiam das cidades por diversas razões.

Quilimérios é um filme de Emerson Penha, com música de Túlio Mourão, fotografia de Fábio Damasceno, produção de Zu Moreira, edição de Rafael Diniz (Fiel) e argumento de Tião Soares.

Assista o filme:




segunda-feira, 20 de julho de 2020

Novo teste positivo de Bolsonaro para coronavírus mostra que a cloroquina não é a cura que ele propagandeia


Publicado por Kiko Nogueira – No DCM

Um novo teste para covid-19 realizado por Bolsonaro apresentou resultado positivo na quarta, dia 15.

Bolsonaro anunciou no dia 7 que tinha contraído a doença e garantiu que estava se sentindo bem.

Avisou recentemente que iria retomar suas atividades “normais” se estivesse “curado”.

O sujeito faz propaganda aberta da cloroquina e da ampliação de seu uso pelo Ministério da Saúde, sem que haja comprovação científica da eficácia.

Alardeia que seu tratamento “está dando certo”.

Num vídeo, aparece metendo um comprimido para dentro.

“Estou tomando aqui a terceira dose de hidroxicloroquina. Estou me sentindo muito bem. Estava mais ou menos no domingo, mal na segunda-feira… Mas hoje, terça, estou muito melhor do que sábado. Então, com toda certeza, está dando certo”, afirma.

”Sabemos que hoje em dia existem outros remédios que podem ajudar a combater o coronavírus, sabemos que nenhum tem a sua eficácia cientificamente comprovada, mas mais uma pessoa que está dando certo”.

Termina com um anúncio de margarina feito por Satanás: “Eu confio na hidroxicloroquina, e você?”.

Chama-se propaganda enganosa. Gato por lebre. Como ele mesmo, aliás.




sábado, 18 de julho de 2020

Te cuida, Borba Gato: estátua de ativista negra substitui monumento a traficante de escravos

Na Inglaterra, escultura de manifestante do Black Lives Matter é colocada no pedestal onde estava a que foi jogada no rio em junho.



A estátua do traficante de escravos Edward Colston, que há 125 anos “ornava” o centro de Bristol, na Inglaterra, e que acabou jogada no rio por manifestantes antirracistas em junho, foi substituída nesta quarta-feira pela escultura de uma ativista negra do movimento Black Lives Matter. O artista Marc Quinn eternizou em resina negra a imagem em carne e osso de Jen Reid ao subir, de punho cerrado, no pedestal onde ficava o monumento ao negociante de vidas humanas. A substituição foi feita sem autorização formal dos órgãos públicos.

Quinn explicou que o título da obra, A Surge of Power (Uma Onda de Energia), veio da descrição que Jen fez do que sentiu ao ocupar, como uma estátua viva, o pedestal vazio, quando caminhava de volta para casa após participar das manifestações. “Foi como se uma corrente de energia elétrica corresse em mim. Meus pensamentos imediatos foram as pessoas escravizadas que morreram nas mãos de Colston, e transmitir energia a eles. Eu queria transmitir energia a George Floyd, queria transmitir energia às pessoas negras como eu que sofreram injustiças e desigualdades. Uma onda de energia para todos eles.”

Jen e Marc lançaram juntos um manifesto onde explicam seus sentimentos. “Esta escultura é uma tomada de posição sobre minha mãe, minha filha, pessoas negras como eu. É sobre crianças negras vendo isso lá em cima. É algo do qual se sentir orgulhoso, ter um sentido de pertencimento, porque na realidade nós pertencemos a este lugar, não estamos indo para lugar nenhum”, disse a ativista.

“Esta escultura captura um momento. Isso aconteceu no meio das notícias e do efeito cascata ao redor do mundo causada pelo assassinato de George Floyd, que eu vinha acompanhando”, disse Marc Quinn. “Um amigo me mostrou a foto de Jen no instagram sobre o pedestal em Bristol, com o punho erguido em uma saudação Black Power. Meu pensamento imediato foi como seria incrível fazer uma escultura dela. Contactei Jen pelas redes sociais e ela topou.”

O artista, que é branco, defendeu a importância de os brancos com poder se engajarem na luta antirracista. “Tem uma coisa que Desmond Tutu disse que reverbera em mim fortemente: ‘Se você é neutro em situações de injustiça, você escolheu o lado do opressor. Eu acho que chegamos num ponto em que os brancos têm que se aliar e os brancos em posições de poder precisam falar e combater ativamente o racismo. Para mim isso significa me educar, ouvir os outros e achar um meio significativo de contribuir.”

Não se sabe ainda como as autoridades da cidade reagirão à presença da nova estátua. Mas imaginem se acontecesse no Brasil, um monumento a um destes bandeirantes genocidas sendo derrubado e substituído pela escultura de um dos indígenas ou de um dos negros que eles assassinaram? E não seria muito mais significativo para o nosso povo? Te cuida, Borba Gato!

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Bispos se articulam para criar frente anti-Bolsonaro na CNBB

“Estamos num confronto direto do reino de Deus com o reino de morte”, afirma religioso.


Por Igor Carvalho

Os primeiros 18 meses de governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) serviram para esfriar os bastidores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – que, em maio de 2019, teve um ápice de tensão, com a disputa entre conservadores e progressistas pela presidência da entidade, que terminou com a eleição de Dom Walmor Oliveira de Azevedo, de Minas Gerais, mais alinhado com setores à esquerda da igreja.

Passados 14 meses da eleição na CNBB, a ala progressista ganhou força diante das notícias ruins produzidas pelo governo e bispos articulam internamente uma frente para que a entidade tenha “influência” no debate contra o governo de Bolsonaro. Dois bispos escutados pela reportagem do Brasil de Fato confirmaram a existência da aliança e disseram que o avanço desse acordo não encontra resistência entre os religiosos.

Isso porque a ala conservadora, liderada por Dom Orani João Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro – que tem ligação com o presidente e chegou a fazer campanha por ele nas eleições de 2018 –, está “tímida” com “os despropósitos das medidas de Bolsonaro, que atacam os povos mais pobres, indígenas e quilombolas”.

De acordo com os bispos, essa movimentação não está restrita à CNBB, mas tem encontrado eco em paróquias e igrejas pelo país, onde padres reclamam de perseguição política, por conta das críticas feitas ao governo de Bolsonaro nas missas ou em conversas com fiéis.

Há um debate corrente entre os bispos sobre a baixa interferência da CNBB no debate político. Isso seria, de acordo com os líderes religiosos, resultado da insistência da entidade em divulgar “apenas notas” sobre os temas nacionais. A ideia seria, portanto, que os religiosos sejam mais propositivos e atuantes.

“A voz da CNBB, apesar de ser uma voz importante, perdeu força ao longo tempo, não é tem sido tão reconhecida midiaticamente. A CNBB não está influente”, lamentou um dos bispos escutados pelo Brasil de Fato.

Perseguição

No último dia 9 de julho, um grupo de 300 religiosos ligados à Igreja Católica, entre eles alguns bispos, deram uma rápida resposta aos críticos do padre Edson Adélio, de Artur Nogueira, município no interior de São Paulo, que foi perseguido após criticar o presidente em uma missa.

“Nós nos alegramos com sua voz profética que se levanta para denunciar todo esse projeto de morte que vem sendo implantado! Saiba que você não está sozinho. Conte sempre conosco e com nossa solidariedade. E agradecemos ao bom Deus que não deixa morrer a profecia. Continua a suscitar homens de coragem e de compromisso. Continue sendo essa voz que denuncia tudo o que diminui ou mata a vida de nosso povo”, afirmam os religiosos, através da organização “Padres da Caminhada.”

Durante a missa do dia 7 de junho, Adélio disse aos fiéis que esse “governo não presta”, que “Bolsonaro não vale nada e quem votou nele deveria se confessar e pedir perdão pelo pecado que cometeu, elegeu um bandido”. O vídeo com a mensagem do religioso foi publicado na internet e ele passou a ser perseguido. O Brasil de Fato conversou com o padre, que pediu para não ser entrevistado, pois ainda enfrenta um clima hostil.

Fora, Bolsonaro

No último domingo (12), durante o debate inter-religioso “Fora Bolsonaro e o desgoverno federal”, Dom Vicente Ferreira, bispo auxiliar de Belo Horizonte (MG), que integra a Comissão Especial para a Ecologia Integral e Mineração da CNBB, atacou o presidente.

“Nós estamos num confronto direto do reino de Deus com o reino de morte. De fato, tudo aquilo que contribui para o reino de Deus, é nosso lugar e endereço no mundo. Agora, não posso compactuar com aquilo que é morte”, afirmou Ferreira, que encerrou sua participação no evento dizendo que “não há esperança nesse governo, infelizmente.”

Outro bispo, o emérito Mauro Morelli, também criticou Bolsonaro durante o evento. “Um governo que governa em favor de um grupo pequeno e poderoso da economia. Esse governo que está desrespeitando os povos indígenas, que está prejudicando os quilombolas, prejudicando a agricultura familiar e a saúde do povo. É muito pouco trocar o personagem”, encerrou o religioso.

Fonte: Brasil de Fato
Via – Portal Vermelho

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Guedes prepara novo pacote de maldades para pós-pandemia

O ministro da Economia de Bolsonaro insiste na capitalização da Previdência e quer trocar salário mínimo por horas trabalhadas.



Após as turbulências da pandemia de coronavírus passarem, o ministro Paulo Guedes prepara um novo pacote de maldades para os brasileiros. Segundo matéria do UOL, ele deve voltar à carga com suas reformas econômicas, buscando implementar mais mudanças trabalhistas. Ele insiste na capitalização da Previdência, na qual cada trabalhador é que tem de poupar para a aposentadoria.

O modelo, que criou uma geração de idosos paupérrimos no Chile, foi rejeitado no debate da reforma da Previdência. O ministro também quer ampliar a contratação por hora trabalhada, em vez de salário mensal. Guedes pretende criar um regime de trabalho mais “flexível”. Segundo o UOL, o governo deve enviar ao Congresso Nacional uma proposta para criar o regime de contratação por hora trabalhada.

Na prática, será definido um valor mínimo por hora trabalhada, com base no salário mínimo, precarizando ainda mais os trabalhadores. Hoje já existe o trabalho intermitente, pago por hora. Mas no regime intermitente não é possível que o contrato seja contínuo e sem intervalos.

A ideia original era de que no regime de hora trabalhada não existissem férias remuneradas, 13º salário e Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).Entretanto, técnicos da equipe econômica alertaram que esses benefícios são constitucionais, e a maldade sofreria grande oposição dos parlamentares.

Guedes deseja ainda a unificação do Bolsa-Família com outros benefícios criando o Renda Brasil, na tentativa de aproximar o governo neoliberal de Jair Bolsonaro da população mais pobre.

Fonte: UOL


quarta-feira, 15 de julho de 2020

Hábitos culturais podem explicar o mistério da pandemia no Japão

A baixa mortalidade por covid-19 no Japão, sem seguir as orientações da OMC, tornou-se polêmica entre cientistas e motivo até de racismo.

Com poucos casos e óbitos, Tóquio começa a voltar da quarentena voluntária
Por Cezar Xavier

O Japão não tem a taxa mais baixa de mortalidade para covid-19. Na região, Coreia do Sul, Taiwan e Vietnã têm taxas menores que o Japão. Ainda assim, os números do arquipélago surpreendem pela timidez com que a pandemia avançou sobre o país, mesmo sem tomar medidas mais rígidas de isolamento social.

Em termos comparativos, o Japão tem 4,5% do território brasileiro, mas 60% da nossa população, portanto, com maior dificuldade de isolamento social devido à alta concentração demográfica. O país está entre os que menos testaram: 4 mil testes por milhão de habitantes contra 20 mil testes brasileiros. No entanto, enquanto o Brasil teve, até agora, 314 mortes por milhão de habitantes, o Japão teve apenas 8. Enquanto o Brasil teve quase 8 mil casos por milhão, o Japão teve 158 contágios a cada um milhão de japoneses.

Com menos de mil mortes confirmadas, é possível que a quantidade geral de mortes venha a ser menor do que foi em 2019. Tudo isso com quase nada de rigidez no combate à pandemia, ao contrário daqueles vizinhos.

O Japão manteve suas fronteiras abertas, quando muitos já tinham fechado. É o país com a população mais idosa do mundo e, como já devidamente enumerado, as ilhas são densamente “apinhadas” de gente em grandes cidades. A Grande Tóquio tem quase o dobro de habitantes (37 milhões) da Grande São Paulo (21 milhões), multidão que se expressa internacionalmente pelos trens absurdamente lotados.

O governo japonês não se dignou a testar a população, uma medida considerada fundamental para definir estratégias de controle epidêmico. Ainda agora, o total de testes PCR está em apenas 510 mil, ou 0,40% da população, contra 2% do Brasil, que também está entre os países que menos testam (105o. contra 157o. do Japão, num lista de 215 países).

Ao declarar estado de emergência, no início de abril, o governo apenas pediu para a população ficar em casa. Serviços não essenciais foram convidados a fechar, mas não havia nenhuma punição prevista para quem recusasse o convite. Ou seja, até aqui, o Japão não seguiu nada da receita aplicada por seus vizinhos que reduziram drasticamente o avanço da pandemia. O estado de emergência foi revogado e a vida está rapidamente voltando ao normal.

E, ainda assim, cinco meses após o registro do primeiro caso de covid-19, o Japão tem menos de 20 mil casos confirmados e menos de mil mortes. Lembre-se que o Brasil tem quase 1,7 milhão de casos e mais de 66 mil mortos.

A empresa de telecomunicações Softbank realizou testes de anticorpos em 40 mil funcionários, que mostraram que apenas 0,24% havia sido exposto ao vírus. Testagem randômica de 8 mil pessoas em Tóquio e duas outras cidades mostraram níveis ainda mais baixos de exposição. Em Tóquio, só 0,1% testaram positivo. Isso serviria de evidência do controle da pandemia.

Recentemente, o primeiro-ministro, Shinzo Abe, afirmou que outros países deveriam aprender com o Japão. Mas aprender o que?

Superioridade nipônica

Para o vice-primeiro-ministro, Taro Aso, a explicação tem a ver com a “qualidade superior” do povo japonês. Pelo menos é o que disse em um notório — e bastante criticado — comentário, ao ser perguntado por lideranças de outros países sobre o sucesso do Japão.

“Eu disse a essas pessoas: entre o seu e o nosso país, o mindo (nível das pessoas) é diferente. E isso os deixou quietos e sem palavras”. Mindo é um conceito dos tempos do período imperial do Japão, que denota um senso de superioridade racial e chauvinismo cultural.

Apesar do termo infeliz, muitos japoneses, e alguns cientistas, pensam que há mesmo algum fator inexplicável protegendo a população contra a covid-19.

O Japão tem as taxas mais baixas de doenças do coração e obesidade no mundo desenvolvido. Ainda assim, os cientistas insistem que esses sinais vitais não explicam tudo, pois a covid-19 em se mostrado um desafio para todos os sensos comuns estabelecidos.

Os japoneses começaram a usar máscaras há mais de 100 anos, durante a pandemia de gripe em 1919, e jamais pararam desde então. Se você tiver tosse ou um resfriado é esperado que você use máscara para proteger os outros ao seu redor.

Alguns aspectos dos códigos sociais japoneses — com poucos beijos e abraços nos cumprimentos — que permitem que o distanciamento social seja praticado naturalmente poderiam fazer parte da explicação. Mas ninguém parece achar que essa é a resposta.

Um professor da Universidade de Tóquio, Tatsuhiko Kodama, que estuda como pacientes japoneses reagiram ao vírus, acredita que o Japão já pode ter enfrentado uma doença como a covid-19 antes. Não exatamente a covid-19, mas algum tipo similar que pode ter deixado uma “imunidade histórica”.

O pesquisador considera ser possível que um vírus da família Sars já tenha circulado pela região antes, o que poderia explicar a taxa de mortalidade baixa, não apenas no Japão, mas também na China, Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e sudeste da Ásia.

Essa tese, no entanto, tem sido vista com certo ceticismo, pois seria difícil manter um vírus como esse restrito à Ásia.

Três lições rapidamente aprendidas

O Japão também descobriu dois padrões significativos bem no começo da pandemia. Mais de um terço das infecções se originaram de lugares muito similares: casas noturnas e karaokês.

A equipe identificou que “respiração forte e proximidade”, incluindo “cantar em salões de karaokê, festas, celebrar em clubes, conversar em bar e frequentar academias” como as atividades de maior risco.

Além disso, a equipe descobriu que a transmissão da infecção se restringiu a um percentual pequeno de pessoas que carregavam o vírus. Um estudo preliminar apontou que cerca de 80% das pessoas com Sars-Cov-2 não infectaram outras pessoas. Já os outros 20% eram altamente infecciosos.

Em vez de dizer “fiquem em casa”, o governo lançou uma campanha nacional avisando a população para evitar:

lugares fechados com pouca ventilação
lugares lotados com muita gente
contato próximo em conversas
Por um tempo, isso funcionou. Mas, em meados de março, as infecções aumentaram em Tóquio e a cidade parecia caminhar para o crescimento exponencial. Nesse momento, o Japão ou teve sorte ou fez algo muito esperto — ainda não sabemos ao certo.

Disciplina oriental

Acredita-se que as medidas foram tomadas no momento certo. No Brasil, por exemplo, há vários problemas de timing nas medidas governamentais. A quarentena começou antes do tempo, desgastando a população, especialmente aquela do interior do país que não via nenhum caso de covid-19, e agora, com a pandemia perto do pico de casos, os governos relaxam o isolamento social por pressão econômica e da própria população que não suporta mais ficar em quarentena.

O primeiro-ministro, Shinzo Abe, decretou um estado de emergência não obrigatório em 7 de abril, pedindo às pessoas que ficassem em casa “se possível”. Isto não podia ser adiado ou teria levado a uma explosão de casos, avaliam os cientistas.

Sobre as lições a serem aprendidas pelo modelo japonês, um elemento claramente definidor dos resultados é a disciplina e colaboração da população em relação aos pedidos do governo. Mesmo sem medidas draconianas, as pessoas ficaram numa quarentena mais rigorosa do que aquelas que se observam no Brasil.

O governo pediu para as pessoas se cuidarem, evitarem lugares lotados, usar máscaras e lavar as mãos, e, de maneira geral e ampla, foi exatamente isso que a maioria das pessoas fez.
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