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terça-feira, 10 de maio de 2022

Marilena Chauí: da tragédia grega à democracia

A tragédia grega é uma instituição político-social de cunho democrático – uma reflexão que a cidade faz sobre o nascimento da democracia.

Por Marilena Chauí

 Portal Vermelho



Entre os séculos 5 e 4 antes de Cristo, a Grécia encena suas maiores tragédias. Como gênero teatral, a tragédia é encenada em dois espaços: o palco (onde ficam os atores profissionais que, falando em prosa, representam deuses, heróis e heroínas); e o coro (onde ficam o grupo de pessoas que não são atores profissionais e que, cantando em verso, narram e comentam o que se passa no palco).

A palavra encontra-se, assim, dividida – a prosa no palco e o verso no coro. O que significa essa divisão da palavra? Que a tragédia é uma instituição político-social de cunho democrático – uma reflexão que a cidade faz sobre o nascimento da democracia. No palco, estão deuses e personagens do mundo aristocrático – reis, rainhas, príncipes e suas famílias, definidos pelos valores da aristocracia, isto é, pela coragem na guerra, pela beleza física ou pelos laços de sangue ou de família.

Mas o coro é um colégio de cidadãos, que, comentando as ações que transcorrem no palco, avalia, julga e dialoga com as personagens aristocráticas. Dessa maneira, a divisão cênica da palavra visa marcar a diferença entre o passado aristocrático (que está no palco) e o presente democrático (que está no coro).

Uma das funções políticas da tragédia é mostrar que a lei da sociedade aristocrática precisa – e pode – ter um fim

Que ação se desenvolve no palco? Uma sequência de crimes sangrentos impostos pela lei da aristocracia, que exige que um crime sangrento no interior da família seja vingado por outro crime igualmente sangrento no seu interior. O ponto inicial da tragédia é sempre um parricídio (como no caso de Édipo), um fratricídio (como no caso de Antígona), um infanticídio (como no caso de Ifigênia), um adultério seguido de assassinato (como no caso de Medeia) e assim por diante.

Esse crime inicial narra a exigência imposta pelos deuses de que ele seja vingado por um outro crime tão sangrento quanto ele. Ora, esse novo crime, por sua vez, exige reparação por meio de um novo crime sangrento. A sequência de crimes sangrentos no interior da família é interminável, revelando que a lei de uma sociedade aristocrática pertence a um espaço privado, a família, e se realiza como vingança sem fim. Uma das funções políticas da tragédia é mostrar que essa lei precisa – e pode – ter um fim.

De fato, as tragédias costumam ser escritas formando trilogias. Na terceira peça, os deuses – que desde a primeira determinaram a obrigatoriedade da vingança – se reúnem e discutem se, afinal, devem continuar impondo essa lei aos mortais ou se cabe aos mortais julgar os próprios mortais, criando suas leis e seus tribunais.

Representação da deusa Atena no Partenon

Os deuses decidem que os mortais julguem os mortais, passando do espaço privado da família para o espaço público da cidade. Assim, por exemplo, na terceira peça da trilogia Oréstia, de Ésquilo, a deusa Atena recomenda aos atenienses, seu povo, que assumam a responsabilidade pública pela Justiça:

“Cidadãos de Atenas, como ireis julgar agora, pela primeira vez, um crime sangrento, escutai a lei do vosso tribunal. Sobre esse rochedo de ares, doravante sentar-se-á perpetuamente o tribunal, que fará ouvir o julgamento de todo homicídio. Este rochedo é chamado de Areópago. Aqui, o deus Respeito e seu irmão, o deus Temor, noite e dia, igualmente manterão os cidadãos longe do crime enquanto conservarem inalteradas as leis. Não mancheis a pureza das leis com a impureza dos estratagemas. Guardai bem e com reverência a vossa forma de governo. Nem anarquia, nem despotismo – eis a regra que aconselho à cidade observar com respeito.”

*

(Texto baseado em palestra proferida pela autora no mini-curso “Democracia: história, formas e possibilidades”, promovido pela Boitempo em outubro de 2019)

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Seriguela

 


Recordação tão gostosa

Ocupa a minha mente

O tempo da meninice

Aquele gosto excelente

Me pego pensando nelas

Verdinhas, vermelhas e amarelas

Ah que preciosidade

A agridoce saudade

Dos pés de seriguelas...

Por Maeus Brandão de Souza

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Documentário “O Povo Pode?” explica os últimos seis anos do país usando a voz de nordestinos

 

Para além de possuir gravações em todos os estados do nordeste, “O povo pode?” também construiu suas imagens e narrativas em São Paulo, no Paraná e no Distrito Federal - Paulo Alberton

Longa-metragem terá lançamento nacional nesta quarta-feira (4) no Armazém do Campo em São Paulo.

Mariana Lemos no Brasil de Fato

João, Vani, Aurieta e Izaltina são os personagens reais de um Brasil profundo, que emprestam suas vozes para a construção do documentário O Povo Pode? - Um País Pelo Olhar de Brasileiros, lançado às 19h desta quinta-feira (4) em São Paulo, no Armazém do Campo.

O evento contará com a exibição gratuita do filme, seguido de um debate com o diretor e demais convidados.

O longa-metragem, que tem pouco mais de duas horas de exibição, é uma produção que nasce da parceria entre o Instituto Alvorada Brasil, a Rede TVT e o Canal i Produções, com direção de Max Alvim e contribuições de professores da PUC-SP.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o diretor do documentário conta que o embrião surgiu durante a caravana realizada pelo ex-presidente Lula por estados do Nordeste, em 2017.  A ideia era registrar mudanças positivas na vida do povo, possibilitadas por políticas públicas dos governos petistas.

Porém, com todos os acontecimentos em torno da prisão do ex-presidente em 2018, eles avaliaram que “a produção deveria ser um documento histórico mais extenso”.

O resultado, nas suas palavras, "é um documentário que narra os últimos 6 anos do Brasil, ou seja, do golpe contra a presidenta Dilma, até os dias de hoje”.

Além de possuir gravações em todos os estados do Nordeste, o documentário também foi gravado em São Paulo, no Paraná e no Distrito Federal.

Para Alvim, “o filme vêm contribuir neste sentido de ativar o espírito crítico da sociedade num ano eleitoral, onde a gente sabe que as fake news vão inundar os nossos celulares e TVs e que é importantíssimo que o povo brasileiro tenha acesso à informação de qualidade e à informação checada”.

O Povo Pode? já está inscrito em mais 20 festivais do mundo, mas no Brasil a ideia é que seja exibido em espaços públicos, de forma gratuita e está confirmado em 15 capitais brasileiras. Alvim conta que “a ideia é levar cultura de qualidade para a população sem precisar cobrar preços exorbitantes para essa população ter acesso à essa cultura”.

“A forma que conseguimos para viabilizar isso foi por meio de duas ações: por um lado, nós construímos um financiamento coletivo em parceria com o Diário do Centro do Mundo (DCM), que garantiu os recursos iniciais para as filmagens. E, na sequência, tivemos o apoio de quatro emendas parlamentares, todas elas transparentes, que viabilizaram os recursos para a finalização e distribuição do longa nessas capitais”, afirma o diretor Max Alvim.

 Edição: Rodrigo Durão Coelho

quinta-feira, 5 de maio de 2022

A fidelidade de Argos



Não há animal mais leal do que o cachorro.

Argos esperou 20 anos pelo retorno de Ulises (Odiseus) a Itaca e morreu abanando o rabo depois de ver seu mestre voltar, sendo o único a reconhecê-lo como mendigo...

Crédito: Britânico Riviere (1840-1920)

quarta-feira, 4 de maio de 2022

terça-feira, 3 de maio de 2022

Fiocruz: desigualdade na vacinação contra covid-19 mostra que pandemia não acabou

No território nacional, foram aplicadas 427 milhões de vacinas da primeira, segunda e terceira doses - Foto: Adão de Souza

RJ e SP têm mais de 80% da população com 1ª dose; Amapá e Roraima não alcançam 65% e apenas 12% estão com 3ª dose.

No Brasil de Fato

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgou nesta sexta-feira (29) mais uma edição do Boletim do Observatório Covid-19 apontando para a manutenção de queda de casos, internações e óbitos pela doença devido aos avanços na vacinação. Mas as desigualdades na imunização pelo país mostram que a pandemia ainda não acabou.

Segundo o relatório, diferentes estados e municípios brasileiros possuem níveis desiguais de cobertura da população pela vacina. Há 83% da população do país vacinada com a primeira dose, 76,8% com o esquema vacinal completo e 40,4% com a dose de reforço, a terceira dose.

Mas a avaliação por estado sinaliza para muitas diferenças: São Paulo se destaca em relação ao tamanho da população e percentuais de pessoas imunizadas - 89,8% da população vacinada com a primeira dose, 85,2% com a segunda e 50,6% com a terceira. Em outro extremo, há estados como Amapá e Roraima, com menos de 65% para a primeira, 50% para a segunda e 12% para a terceira dose.

O Rio de Janeiro tem 81% da população imunizada com a primeira dose da vacina, 73% com a segunda dose e 35% com a terceira dose. No território nacional, foram aplicadas 427 milhões de vacinas, incluindo 1ª, 2ª e 3ª dose.

"Ainda é necessário ampliar a segunda dose e investir em grupos etários que tenham menor adesão à aplicação da vacina. Além disso, é fundamental reforçar a importância e a necessidade da terceira dose, que não pode ser vista apenas como uma dose extra", alerta o Boletim da Fiocruz.

Nenhum estado apresentou tendência significativa de alta do número de casos e em grande parte deles houve queda na incidência de casos novos. Os cientistas explicam que, apesar das dificuldades de acesso a testes que permanecem em alguns municípios, houve uma redução na taxa de positividade dos testes de diagnóstico por RT-PCR.

SRAG

A queda de casos de Síndromes Respiratórias Agudas Graves (SRAG) permaneceu em todas as faixas etárias. Nas últimas quatro semanas, a proporção de casos por coronavírus correspondeu a 35% dos casos de SRAG com resultado laboratorial positivo. Esta proporção reduziu significativamente nas semanas recentes, visto que, no período de 2020 e 2021 da pandemia, ela foi superior a 95%.

O documento da Fiocruz informa sobre a contínua redução de leitos para a covid-19 e também a retirada do indicador ou dados para calculá-lo em painéis e boletins de estados como Minas Gerais e Paraná. Comparando dados obtidos nos últimos dias 4 e 25 de abril, a disponibilidade de leitos de UTI SRAG/Covid-19 para adultos no SUS sofreu novas reduções em diversos estados.

Fonte: BdF Rio de Janeiro

Edição: Eduardo Miranda 

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Autora estreante lança livro criado a partir do desejo de se comunicar durante a pandemia

 

Nathália Ferreira Guimarães é natural de Patos de Minas (MG) - Foto: Andressa Pestili

“Quando escrevo, é para me lembrar da esperança que eu mesma sei que tenho”, diz Nathália Ferreira.

Ana Carolina Vasconcelos

Belo Horizonte (MG) | Brasil de Fato MG

Mais 600 mil vidas perdidas, o Brasil de volta ao mapa da fome e os altos índices de desemprego marcam profundamente o contexto atual do país. É diante desse cenário que Nathália Ferreira Guimarães, autora mineira natural da cidade de Patos de Minas, publica seu primeiro livro.

Produzido pela editora Caravana, de Belo Horizonte, “Vermelho” é resultado da necessidade de Nathália de se comunicar com o mundo durante o isolamento social. Em quatro capítulos, a escritora aborda as feridas brasileiras, mas diz da importância da memória para construir um novo projeto de futuro.

Para conhecer o que motivou e marcou a escrita de “Vermelho”, o Brasil de Fato MG conversou com Nathália. “A literatura, para mim, serve como lembrança, como memória das potencialidades que já vivemos e de como podemos resgatá-las, mesmo em momentos difíceis”, aponta.

Confira a entrevista:

Brasil de Fato MG – “Vermelho” é seu livro de estreia. O que te motivou e como foi o processo de criação?

Nathália Ferreira – A escrita foi um processo que permitiu me conhecer melhor.  É como fazer com que as coisas que sentimos morem também no papel. Dividir as dores. Na pandemia, me veio o desejo de publicar os poemas e prosas poéticas que eu já escrevia. No período de isolamento social foi quando escrevi mais.

Um livro de entrevistas da Hilda Hilst me marcou. Ela disse que publicava muito porque tinha a necessidade de se comunicar. No período de isolamento social, com a pandemia, mas também com as pessoas passando fome e morrendo sem assistência, precisei comunicar minhas dores. E também comunicar com meus companheiros e companheiras que eu não via. O livro nasce do desejo de compartilhar esses sentimentos e da necessidade de dizer que há esperança.

O Brasil vive um momento difícil, de crise, de sofrimento. Qual é o papel da poesia nesse contexto?

A literatura, para mim, serve como lembrança, como memória das potencialidades que já vivemos e de como podemos resgatá-las, mesmo em momentos difíceis. Quando escrevo, é para me lembrar da esperança que eu mesma sei que tenho. De alguma forma, ao escrever, me sinto em coletivo.

Por exemplo, quando leio Ferreira Gullar me sinto como se estivesse conversando e lutando com ele, dividindo as mazelas e pensando junto como superá-las para cantar um mundo novo.

Quando a gente vê todo o desmonte pelo qual passa o Brasil, a gente fica muito desacreditada. Eu vejo uma geração muito sem perspectiva de futuro, incrédula. Temos que lembrar quem nós somos e o que podemos ser. Se a gente não acreditar, o futuro pode ser tenebroso.

Para mim, a poesia ajuda nisso. Porque um povo sem memória é um povo sem presente e sem futuro, perdido na sua história.

Como o livro está organizado?

O livro se apresenta com o poema “Vida em vermelho”, que traz signos usados ao longo dos textos dos quatros capítulos. O primeiro capítulo, “Úlceras”, diz sobre as feridas abertas neste contexto de retirada de direitos, em tempos de conjuntura desbotada.

A segunda parte, "Aquarela e Bordô: Saudade Corrente e Memória Firme", fala sobre as diferenças e semelhanças entre a saudade e a memória. Se não fincamos nossos pés na memória, começamos a não construir o futuro.  Esse capítulo inicia com um poema que ajuda a explicar esse sentido: “Para construir futuro, nem viver de passado, nem morrer sem memória”.

Com uma crítica ao amor romântico, a terceira parte do livro, “Paixões corais”, fala sobre os amores que colorem e aquecem a nossa vida. Apresenta a proposição de amores companheiros, livres. O capítulo relembra o amor camaradagem da Alexandra Kollontai e o esforço de construir relações mais igualitárias e companheiras.

Por fim, o último capítulo se chama "Ego em Carmim" e trata sobre a força do Eu na relação entre com o mundo e com os outros.

Como adquirir o livro?

O livro foi produzido pela editora Caravana, de Belo Horizonte. Em pré-lançamento, é possível adquiri-lo pelo site da editora. Nossa expectativa é que ele esteja em mãos na Bienal Mineira do Livro, que acontece de 13 a 22 de maio deste ano. Também queremos fazer um lançamento no início de junho.

Fonte: BdF Minas Gerais

Edição: Larissa Costa

 

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