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sexta-feira, 6 de abril de 2018

Rússia denuncia tentativa de Ocidente de boicotar Mundial de Futebol

Rússia denunciou neste 1° de Abril,  as tentativas de Occidente de boicotar o Mundial de Futebol, com o pretexto do suposto ataque químico contra o duplo agente Serguei Skripal, na cidade inglesa de Salisbury.


Para Occidente, é uma espécie de sonho dourado, seu principal objetivo, declarou a porta-voz da Chancelaria russa, María Zajarova, ao comentar as ações de Occidente para expulsar a mais de 140 diplomatas desta nação.

Tenho a impressão de que é algo bem como a expressão russa de deixar todo de tal forma que 'não cresça a erva', assim parece ser o propósito, de desaparecer o Mundial de Futebol de Rússia, comentou a servidora pública ao 'Quinto canal'.

Tudo se concentra nessa bola para impedir que, nem queira Deus, consegua tocar o campo de futebol russo, expressou em tom irônico a porta-voz.

A princípio de março passado, o diário The Times admitiu a possibilidade de que Estados Unidos e Europa tomassem a decisão de boicotar o Mundial de Futebol, se se demonstrava o envolvimento russo no caso de Skripal.

Depois, Islândia, Dinamarca e Suécia consideraram possível participar no referido boicote, assinala a imprensa local.

Zajarova considerou que a negativa desde um primeiro momento de Londres a responder a várias petições de Moscou para colaborar no caso de Skripal ou para conter informação do sucedido abre suspeitas sobre o envolvimento britânico no fato.

Nós carecemos ainda de alguma notificação oficial do sucedido em Salisbury, a única informação com que contamos nos chegou ontem e se refere à melhora das condições de saúde de Julia, a filha de Skripal, também afetada o passado 4 de março.

mem/to/cc/gdc

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Jesus não morreu pelos "nossos pecados" e sim por enfrentar o sistema

Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados. Essa é a resposta que normalmente se dá para aqueles que perguntam por que o Filho de Deus terminou seus dias na forma mais infame para um judeu, o patíbulo da cruz, a morte dos amaldiçoados por Deus (Gl 3,13).


Por Alberto Maggi, no Outras Palavras

Jesus morreu pelos nossos pecados. Não só pelos nossos, mas também por aqueles homens e mulheres que viveram antes dele e, portanto, não o conheceram e, enfim, por toda a humanidade vindoura. Sendo assim, é inevitável que olhando para o crucifixo, com aquele corpo que foi torturado, ferido, riscado de correntes e coágulos de sangue expostos, aqueles pregos que perfuram a carne, aqueles espinhos presos na cabeça de Jesus, qualquer um se sinta culpado … o Filho de Deus acabou no patíbulo pelos nossos pecados! Corre-se o risco de sentimentos de culpa infiltrarem-se como um tóxico nas profundezas da psiquê humana, tornando-se irreversíveis, a ponto de condicionar permanentemente a existência do indivíduo, como bem sabem psicólogos e psiquiatras, que não param de atender pessoas religiosas devastadas por medos e distúrbios.

No entanto, basta ler os Evangelhos para ver que as coisas são diferentes. Jesus foi assassinado pelos interesses da casta sacerdotal no poder, aterrorizada pelo medo de perder o domínio sobre o povo e, sobretudo, de ver desaparecer a riqueza acumulada às custas da fé das pessoas.

A morte de Jesus não se deve apenas a um problema teológico, mas econômico. O Cristo não era um perigo para a teologia (no judaísmo havia muitas correntes espirituais que competiam entre si, mas que eram toleradas pelas autoridades), mas para a economia. O crime pelo qual Jesus foi eliminado foi ter apresentado um Deus completamente diferente daquele imposto pelos líderes religiosos, um Pai que nunca pede a seus filhos, mas que sempre dá.

A próspera economia do templo de Jerusalém, que o tornava o banco mais forte em todo o Oriente Médio, era sustentada pelos impostos, ofertas e, acima de tudo, pelos rituais para obter, mediante pagamento, o perdão de Deus. Era todo um comércio de animais, de peles, de ofertas em dinheiro, frutos, grãos, tudo para a “honra de Deus” e os bolsos dos sacerdotes, nunca saturados: “cães vorazes: desconhecem a saciedade; são pastores sem entendimento; todos seguem seu próprio caminho, cada um procura vantagem própria” (Is 56, 11).

Quando os escribas, a mais alta autoridade teológica no país, considerando o ensinamento infalível da Lei, veem Jesus perdoar os pecados a um paralítico, imediatamente sentenciam: “Este homem está blasfemando!” (Mt 9,3). E os blasfemos devem ser mortos imediatamente (Lv 24,11-14). A indignação dos escribas pode parecer uma defesa da ortodoxia, mas na verdade, visa salvaguardar a economia. Para receber o perdão dos pecados, de fato, o pecador tinha que ir ao templo e oferecer aquilo que o tarifário das culpas prescrevia, de acordo com a categoria do pecado, listando detalhadamente quantas cabras, galinhas, pombos ou outras coisas se deveria oferecer em reparação pela ofensa ao Senhor. E Jesus, pelo contrário, perdoa gratuitamente, sem convidar o perdoado a subir ao templo para levar a sua oferta.

“Perdoai e sereis perdoados” (Lc 6,37) é, de fato, o chocante anúncio de Jesus: apenas duas palavras que, no entanto, ameaçaram desestabilizar toda a economia de Jerusalém. Para obter o perdão de Deus, não havia mais necessidade de ir ao templo levando ofertas, nem de submeter-se a ritos de purificação, nada disso. Não, bastava perdoar para ser imediatamente perdoado…

O alarme cresceu, os sumos sacerdotes e escribas, os fariseus e saduceus ficaram todos inquietos, sentiram o chão afundar sob seus pés, até que, em uma reunião dramática do Sinédrio, o mais alto órgão jurídico do país, o sumo sacerdote Caifás tomou a decisão. “Jesus deve ser morto”, e não apenas ele, mas também todos os discípulos porque não era perigoso apenas o Nazareno, mas a sua doutrina, e enquanto houvesse apenas um seguidor capaz de propagá-la, as autoridades não dormiriam tranquilas (“Se deixarmos ele continuar, todos acreditarão nele … “, Jo 11,48). Para convencer o Sinédrio da urgência de eliminar Jesus, Caifás não se referiu a temas teológicos, espirituais; não, o sumo sacerdote conhecia bem os seus, então brutalmente pôs em jogo o que mais estava em seu coração, o interesse: “Não compreendeis que é de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda?” (Jo 11,50).

Jesus não morreu pelos nossos pecados, e muito menos por ser essa a vontade de Deus, mas pela ganância da instituição religiosa, capaz de eliminar qualquer um que interfira em seus interesses, até mesmo o Filho de Deus: “Este é o herdeiro: vamos! Matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança” (Mt 21,38). O verdadeiro inimigo de Deus não é o pecado, que o Senhor em sua misericórdia sempre consegue apagar, mas o interesse, a conveniência e a cobiça que tornam os homens completamente refratários à ação divina.
Tradução: Francisco Cornélio

Alberto Maggi, biblista italiano, frade da Ordem dos Servos de Maria, estudou nas Pontíficias Faculdades Teológicas Marianum e Gregoriana de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversos livros, como A loucura de Deus: o Cristo de João, Nossa Senhora dos heréticos

Francisco Cornélio, sacerdote e biblist

quarta-feira, 4 de abril de 2018

As 14 características do fascismo, por Umberto Eco. Parecem familiares?

Fragmento de uma conferência que Umberto Eco fez em 1995 na Universidade de Columbia, em que elaborou uma rápida caracterização do que chamou "Ur-Fascismo" ou "fascismo eterno”.

CARTAZ ANTIFASCISTA DA GUERRA CIVIL ESPANHOLA
Por Cynara Menezes
(Adaptado do PijamaSurf).

Umberto Eco (1932-2016) é uma das personalidades que melhor poderiam definir o fascismo, pois nele se combinaram a experiência própria, a erudição e a lucidez analítica. Como italiano, viveu de perto o fascismo e suas consequências, e como intelectual dedicou-se a estudá-lo, entendê-lo e explicá-lo, mas, acima de tudo, a denunciá-lo e preveni-lo. De todos os males que o ser humano pode gerar a si mesmo, poucos são tão nefastos como um regime totalitário, em que normalmente o sofrimento é muito maior do que os possíveis benefícios.

Compartilho o fragmento de uma conferência que Eco fez em 1995 na Universidade de Columbia, em que elaborou uma rápida caracterização do que chamou “Ur-Fascismo” ou “fascismo eterno”, quer dizer, uma ideologia e vontade de governar que, independentemente das circunstâncias históricas, parece sempre estar ali, à espreita, esperando um mínimo descuido para se apoderar de um governo nacional, uma sociedade, um país. Eco reconhece que nem todos os regimes totalitários são iguais, mas ao mesmo tempo encontrou alguns traços comuns, ou, melhor dizendo, recursos que a maioria empregou para seduzir a população e tomar o poder político.

Muita gente acha que falar em fascismo é “banalizar” o termo, mas reparem que a extrema-direita hoje, representada por Donald Trump e seus supremacistas brancos nos Estados Unidos e aqui pelos MBLs e Bolsonaros da vida, se enquadra em cada uma destas características. Só não vê quem não quer. Fica a advertência de Eco: “O Ur-Fascismo pode voltar todavia com as aparências mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo sobre cada uma de suas novas formas, todo dia, em todas as partes do mundo”.


A seguir, as 14 características do fascismo segundo Umberto Eco. Leia o texto completo da conferência aqui.

1. Culto da tradição, dos saberes arcaicos, da revelação recebida no alvorecer da história humana, dos hieróglifos egípcios às runas dos celtas e aos textos sagrados, ainda desconhecidos, de algumas religiões asiáticas.

2. Rechaço do modernismo. O Iluminismo, a idade da Razão, são vistos como o princípio da depravação moderna. Neste sentido, o Ur-Fascismo pode se definir como irracionalismo.

3. Culto da ação pela ação. Pensar é uma forma de castração. Por isso a cultura é suspeita, à medida em que é identificada com atitudes críticas.

4. Rechaço do pensamento crítico. O espírito crítico opera distinções e distinguir é sinal de modernidade. Para o Ur-Fascismo, estar em desacordo é traição.

5. Medo ao diferente. O primeiro chamamento de um movimento fascista, ou prematuramente fascista, é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, pois, racista por definição.

6. Apelo às classes médias frustradas. Em nossa época, o fascismo encontrará seu público nesta nova maioria.

7. Nacionalismo e xenofobia. Obsessão pelo complô. Os seguidores têm de se sentir ameaçados.

8. Inveja e medo do “inimigo”.

9. Princípio de guerra permanente, antipacifismo.

10. Elitismo, desprezo pelos fracos.

11. Heroísmo, culto à morte.

12. Transferência da vontade de poder a questões sexuais. Machismo, ódio ao sexo não-conformista, como a homossexualidade. Transferência do sexo ao jogo das armas.

13. Populismo qualitativo, oposição aos apodrecidos governos parlamentares. Toda vez que um político lança dúvidas sobre a legitimidade do parlamento porque já não representa a voz do povo, podemos perceber o cheiro do Ur-Fascismo.

14. Novilíngua. Todos os textos escolares nazis ou fascistas se baseavam em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com a finalidade de limitar os instrumentos para o raciocínio complexo e crítico. Devemos estar preparados para identificar outras formas de novilíngua, inclusive quando adotam a forma inocente de um popular reality show.



terça-feira, 3 de abril de 2018

Três importantes lições sobre o caso Marielle e a manipulação midiática

Duas semanas após a execução da vereadora e do motorista Anderson, uma pensata sobre o papel da mídia comercial no episódio.

ILUSTRAÇÃO DE ROBERT CRUMB, 1977

Por *Miguel Freitas
Duas semanas após a execução da vereadora Marielle e do motorista Anderson, ainda não solucionada, é possível aprender três importantes lições sobre o funcionamento da mídia comercial a partir deste caso: o que os jornais sabem; o que eles publicam; e o que eles pretendem.

1. Os jornalistas conheciam Marielle

Dos diversos jornalistas e colunistas dos grandes jornais que escreveram sobre Marielle Franco a maioria tratou a vereadora de forma muito sensível, mostrando estar sinceramente chocados não apenas com a barbaridade do crime mas também com a dimensão da perda de uma personalidade como ela. Os jornalistas sabiam que Marielle já era um mito.

O Globo, por exemplo, publicou logo no dia seguinte uma boa coletânea de textos de colunistas sobre Marielle. Homenagens ressaltaram a trajetória de Marielle e mostraram compreender que nenhuma sociedade dita civilizada pode aceitar um crime político desses passivamente.

É claro que nada disso chega a surpreender, pois jornalistas são, de modo geral, pessoas bem informadas. Ademais, o Rio de Janeiro tem algo de provinciano e os jornalistas sabem quem são os bons e os maus políticos, mesmo que não publiquem. O que nos leva precisamente à segunda lição:

2. Os jornais não publicavam Marielle

Alguns amigos me questionaram com certa incredulidade: “mas você conhecia a vereadora executada antes do assassinato dela?” Sim, conhecia. Acredito que todos os outros 46 mil eleitores que também votaram nela fizeram isso após conhecer sua história de vida e ativismo. Foi certamente um dos votos mais convictos e sem nenhum arrependimento que já tivemos.

Na minha opinião, Marielle era a maior renovação na política carioca em muito tempo. E digo isso não porque ela fosse de esquerda ou de direita, mas porque era sincera, honesta e totalmente dedicada às causas que se propunha. Marielle era uma autêntica representante da população e, mesmo que alguém possa contra-argumentar que representasse apenas um segmento específico da população, não há como negar: ela não estava na Câmara para conseguir “uma boquinha”. É exatamente este tipo de dedicação à vida pública que deveríamos valorizar como critério para a tão falada renovação política.

Marielle era a maior renovação na política carioca em muito tempo. E digo isso não porque ela fosse de esquerda ou de direita, mas porque era sincera, honesta e totalmente dedicada às causas que se propunha
O que vemos, no entanto, são jornais tentando vender que o “novo” seria lançar um apresentador de auditório como candidato a presidente, sendo apoiado pelas velhas raposas de sempre. É essa a renovação que vocês querem?

Por acaso os jornais publicaram alguma notinha quando Marielle propôs a Lei do Espaço Coruja, um espaço onde as mulheres que trabalham à noite possam deixar suas crianças pequenas? Ou quando ela denunciou a violência do 41º  BPM de Acari, o batalhão que mais mata no Rio? E onde estavam os jornais enquanto Marielle ajudava o Coronel da PM Robson Rodrigues a agilizar os processos de pensões das viúvas de policiais mortos no Rio?

Não, os jornais não publicavam Marielle. Não tinham interesse. Para se ter uma ideia, apenas agora, depois de toda esta repercussão, é que ficamos sabendo pelos jornais que a vereadora Taliria Petrone, de Niterói, amiga de Marielle, está recebendo ameaças de morte.

Vale refletir: será que os jornais estão realmente preocupados em nos informar? Estariam eles autenticamente interessados em ajudar a renovar a política?

3. A Rede Globo quer manipular o significado de Marielle

O jornalista Glenn Greenwald publicou uma excelente análise sobre as técnicas e os objetivos ocultos da Globo ao dedicar 45 minutos do Fantástico para falar de Marielle.

Além de jornalista premiado, Greenwald era amigo pessoal da vereadora, colega de Câmara de seu marido, David Miranda, também do PSOL. Traçando paralelos com o esvaziamento feito nos Estados Unidos do significado e da luta de Martin Luther King, Greenwald mostra que a estratégia da Globo é explorar o drama humano do crime bárbaro e do luto, escondendo porém as opiniões radicais de Marielle.

Marielle fazia questão de se apresentar sempre como mulher negra, favelada e LGBT. Agora, após o assassinato dela, simplesmente não há mais nenhuma vereadora negra no Rio. Dá para imaginar que os interesses das mulheres negras (que correspondem a 1/4 da população brasileira) estão sendo considerados na hora de definir políticas públicas?

É hora de denunciar essa tentativa de esvaziamento do significado de Marielle Franco pela mídia comercial. Que isso seja feito por ela e para que todos os nossos amigos e conhecidos tenham acesso à informação correta.

A melhor forma de lembrar e homenagear Marielle é conhecer suas ideias e sua luta. Um bom começo seria baixar o capitulo escrito por Marielle para um livro ainda não publicado e que foi disponibilizado pela editora Zouk na internet, A emergência da vida para superar o anestesiamento social frente à retirada de direitos: o momento pós-golpe pelo olhar de uma feminista, negra e favelada.

É hora de denunciar essa tentativa de esvaziamento do significado de Marielle Franco pela mídia comercial. Que isso seja feito por ela e para que todos os nossos amigos e conhecidos tenham acesso à informação correta e não manipulada.

Caso contrário, em breve poderemos estar assistindo a uma nova convocação de passeata pela Globo, onde “manifestoches” exibem orgulhosamente cartazes com o rosto de Marielle em defesa de Temer e da intervenção militar como solução para a violência no Rio. Tudo aquilo que ela era radicalmente contra em vida.

*Miguel Freitas é engenheiro e coordena um laboratório de pesquisas na PUC-RJ, a mesma universidade onde Marielle se graduou em Sociologia.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Testemunhas confirmam o que se sabia: Marielle foi executada

Mais de duas semanas depois do crime, seguimos à míngua de qualquer informação oficial sobre a mecânica do assassinato da vereadora Marielle Franco.


Na edição de hoje de O Globo, porém, tem-se o depoimento de duas pessoas que assistiram ao atentado – e que não foram ouvidas pela Polícia – que confirmam o que todo mundo sabia, embora os extremistas de direita procurassem colocar em dúvida: a vereadora foi vítima de um homicidio premeditado, planejado e realizado por gente com características de “profissional” em operações armadas.

O relógio digital da esquina das ruas Joaquim Palhares e João Paulo I, no Estácio, local de iluminação precária, marcava 21h14m, do último dia 14, quando um Cobalt prata fechou um carro branco, que quase subiu o meio-fio. A violência com que o motorista do primeiro veículo abordou o segundo, numa curva em direção à Tijuca, chamou a atenção de duas pessoas que estavam a cerca de 15 metros da cena. Uma delas aguardava o sinal fechar para atravessar o cruzamento. Ambas contam que o motorista do veículo branco, um Agile, reduziu a velocidade, na tentativa de não subir a calçada. O susto viria em seguida: o passageiro sentado no banco traseiro do Cobalt abriu a janela, cujo vidro tinha uma película escura, sacou uma pistola de cano alongado e atirou. O som da rajada soou abafado. Numa manobra arriscada, o veículo do agressor deu uma guinada e fugiu pela Joaquim Palhares, cantando pneus.

Uma das testemunhas acha que havia um silenciador, acessório inimaginável para algum tipo de assalto, como de resto toda a mecânica do crime.

É, pelo menos, constrangedor que uma repórter ache não uma, mas duas testemunhas oculares e que a Polícia, em 15 dias, não as tenha ouvido. Ao menos, com as testemunhas, fecha-se a porta para algum arranjo que encubra os responsáveis com uma versão de “assalto”.

O significado político da execução de Marielle e do motorista Anderson Gomes só vai ser exatamente compreendido quando se chegar a seus autores, não com a compreensível indignação com idiotas que procuram forjar ligações da vereadora com o crime ou com palermas vaidosas como a desembargadora boquirrota das redes.

Os grupos de extermínio e as promiscuidades da polícia com o crime não são novidade. Novidade, a cada dia menos provável, é que sejam responsabilizados.

Fernando Brito
No Tijolaço

domingo, 1 de abril de 2018

Eleições na Costa Rica revelam falência do bipartidarismo e crescimento da homofobia

O segundo turno da escolha presidencial no país centro-americano acontecerá no próximo domingo, dia 1° de abril.

abricio Alvarado Muñoz e Carlos Alvarado disputam a presidência do país; ambos são candidatos por partidos fundados a menos de 20 anos / CELAG

Os cidadãos da Costa Rica, país localizado na América Central, irão às urnas neste domingo (1°) para eleger o novo presidente do país. Mais de 3,3 milhões de costarriquenhos estão convocados para votar no segundo turno da eleição presidencial.

O primeiro turno, realizado em 4 de fevereiro, esteve marcado por um alto nível de abstenção; 35% da população do país se ausentou da votação e nenhum dos candidatos presidenciais obteve os 40% dos votos necessários para ser eleito.

No primeiro turno, Fabricio Alvorado, candidato do Partido Restauração Nacional (PRN), liderou a votação com 24,7% dos votos. Enquanto Carlos Alvorado, do Partido Ação Cidadã (PAC), que atualmente governa o país, ficou em segundo lugar, com 21,7% dos votos.

Carlos Alvarado, de 38 anos, é jornalista, escritor e integra o Partido Ação Cidadã desde 2002. Em sua trajetória política, foi Ministro do Desenvolvimento Humano e Ministro do Trabalho e Seguridade Social, entre 2016 e 2017. Caso ganhe a eleição, será o presidente mais jovem da história da Costa Rica.

Já Fabricio Alvarado Muñoz, do Partido Restauração Nacional (PRN), é deputado, jornalista e cantor evangélico. O PRN é um dos partidos mais jovens do país. Fundado em 2005, é o maior representante da comunidade evangélica nestas eleições. Atualmente, Alvarado Muñoz é o único deputado do PRN e é conhecido por suas posturas conservadoras em relação a pautas como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Segundo a última pesquisa eleitoral, a margem de diferença entre os dois candidatos é de apenas 1%. Fabricio Alvarado Muñoz tem 43% das intenções de voto e Carlos Alvarado, 42%. A pesquisa foi realizada pelo Centro de Investigação e Estudos Políticos (CIEP), da Universidade da Costa Rica (UCR).

Histórico

O partido de Carlos Alvarado, o PAC, fundado em 2000, chegou ao poder pela primeira vez na eleição de 2014, quando Luis Guillermo Solís foi eleito. A eleição de Solís marcou o fim do bipartidarismo entre o Partido da Libertação Nacional (PLN) e o Partido da União Social (PUSC) e confirmou a emergência de novas legendas políticas no país.

No entanto, o PAC, de tendência social-democrata e considerado progressista, não rompeu com a inércia neoliberal predominante na política do país durante seus últimos quatro anos de mandato.

O alto nível de abstenção, que se manteve acima dos 30% nas últimas três eleições, também é considerado como um dos efeitos do fim do bipartidarismo.

Contexto eleitoral

O casamento entre pessoas do mesmo sexo é um dos principais temas da atual campanha eleitoral, e é considerado um divisor de águas na sociedade costarriquense.

Um mês antes do primeiro turno eleitoral, a Corte Interamericana de Direitos Humanos determinou que a Costa Rica aprovasse o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ambos candidatos pautaram suas campanhas na divergência em relação ao tema.

Enquanto Carlos Alvarado comemorou a sentença, Fabricio Alvarado Muñoz se opôs terminantemente à resolução e ganhou projeção ao afirmar que retiraria o país deste tribunal por ser contra a decisão.

Segundo o Movimento Alternativo de Esquerda (Maíz), organização popular do país, o pastor evangélico fez da homofobia a sua principal ferramenta e contou com o apoio da mídia hegemônica para se tornar um fenômeno eleitoral.

*Com informações da TeleSur e da Agência Latino-americana de Informação (ALAI).

Edição: Vivian Fernandes | Tradução: Luiza Mançano

Golpe 64 - Estado brasileiro não reconhece camponeses assassinados na ditadura

Liderança do Movimento dos Pequenos Agricultores denuncia relação do governo militar com o agronegócio brasileiro.

Júlia Dolce

Entre as maiores vítimas do golpe militar brasileiro, que completa 54 anos neste domingo, 1º de abril, está o campesinato. O fato, no entanto, ainda é pouco discutido na sociedade brasileira. O Estado reconhece apenas 29 dos 1196 camponeses assassinados pela ditadura, estatística obtida em um levantamento de 2012 da Secretaria Nacional de Direitos Humanos e reiterada no relatório final da Comissão Camponesa da Verdade em 2014.

Para Humberto Santos Palmeira, integrante da Direção Nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e militante do movimento desde 2003, há um grande desconhecimento sobre o processo de repressão dos camponeses no pré e pós golpe de 1964, inclusive entre setores da esquerda. "Há um desconhecimento da realidade agrícola e camponesa brasileira, e como nossa própria formação de esquerda é centrada no urbano, há um desconhecimento sobre o processo de repressão camponesa", afirmou.

De acordo com Palmeira, a relação do governo militar com o agronegócio brasileiro foi muito próxima e contribuiu para forjar as bases latifundiárias da produção brasileira que, após o golpe de 2016, voltou a se fortalecer. “O que hoje dita o agronegócio tem na sua gênese as políticas aplicadas pela ditadura no campo: de aumentar o nível de repressão com os camponeses e dar incentivo estatal para a grande propriedade", afirmou.

O MPA realizou, ao longo da última semana, a sua Quarta Escola da Memória, que tem como objetivo formar os jovens militantes do movimento sobre a história da resistência e repressão dos camponeses a partir do golpe militar de 1964.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato - Como você encara os impactos do golpe de 1964 para o campesinato?

Humberto Santos Palmeira - As Ligas Camponesas, desde os anos 1960, apontavam que a conjuntura levaria a um golpe de Estado e por isso os camponeses precisavam se organizar para resistir. Então as Ligas passaram por um processo de organização e formação, mas houve pouco tempo de organização dessas frentes. Com o golpe, a repressão às lideranças camponesas e camponeses foi tremenda. Teve caso em Pernambuco de prisão de 5 mil pessoas com triagem de quem era da Liga, e pelo simples fato de ser da Liga você era preso. A própria violência do Estado foi horrorosa, um exemplo disso é o caso do camponês Gregório Bezerra, que foi amarrado no fundo de um jipe e arrastado nas ruas de Recife. O Estado brasileiro reconhece poucas mortes de camponeses, e por isso foi criada a Comissão Camponesa da Verdade. Conseguimos fazer um resgate, o registro, mas não conseguimos fazer com que o Estado reconhecesse o crime contra essas populações. A Comissão Camponesa da Verdade chegou aos dados de que foram 1.196 mortos na ditadura, mas o Estado reconheceu apenas 29.



O que foi a Comissão Camponesa da Verdade?

Quando começou o debate com a Comissão Nacional da Verdade, a gente viu que ela não teria pernas suficientes para ir para o campo. Então a Via Campesina, com o movimento sindical, propôs uma comissão específica para o campo. A Comissão Camponesa da Verdade não pega só o período a partir de 1964, ela pensa a partir de 1945, porque na reflexão dos movimentos populares e pesquisadores que compuseram a comissão, 1964 era parte de uma violência que já vinha acontecendo. Então, nesse período, grandes lutas camponesas foram destruídas, como a Guerrilha de Porecatu, no Paraná, a Guerra do Capim aqui em São Paulo, tudo antes do golpe.

O AI5 faz 50 anos neste ano. A partir de seu decreto, qual foi a consequência para os movimentos camponeses?

Em tempos organizativos, as Ligas Camponeses foram destruídas até 1965. As outras organizações que tinham um maior nível de tensionamento foram extintas, suas lideranças foram mortas, presas, torturadas. Na mesma medida que a repressão aumentou na cidade com o AI5, no campo foi maior, porque na cidade você ainda tinha um sistema de comunicação mais efetivo. No campo, nos anos 1960, era muito difícil essa comunicação interna e com a cidade.  Há muitos registros de violência pós AI5 registradas no processo de abertura em 1985, ou apenas em 2012 com a Comissão Camponesa da Verdade.

De que forma o golpe de 1964 incentivou o agronegócio? Podemos fazer um paralelo com o golpe de 2016?

Tem um conceito que o professor Guilherme Delgado usa e que os movimentos do campo adotaram para caracterizar o período da ditadura militar, que é o de modernização conservadora. A entrada da Revolução Verde foi na época da ditadura, então você "moderniza" a produção e a propriedade agrícola, mas conserva seus traços originais da grande propriedade. O que hoje dita o agronegócio tem na gênese as políticas aplicadas pela Ditadura no campo: de aumentar o nível de repressão com os camponeses, e dar incentivo estatal para a grande propriedade. Então você moderniza a partir de insumos, máquinas, agrotóxicos, mas conserva a estrutura fundiária, e não faz reforma agrária.

A relação do Estado com o agronegócio na ditadura era tão forte, que várias lideranças urbanas inclusive, não só camponesas, eram pegas na cidade e levadas para o campo para serem incineradas nas usinas de uma fazenda de cana no Rio de Janeiro, como o militante David Capristano. Sempre teve essa relação mútua e umbilical entre o Estado e o agronegócio, para manter o status-quo do poder político.

Se formos fazer um paralelo com o golpe de 2016, esses mesmos atores do agronegócio e capital financeiro foram partes constituintes do golpe. Com as primeiras mensagens golpistas nas eleições de 2014, formou-se um bloco conservador do agronegócio para derrubar  Dilma Rousseff com o golpe parlamentar, teoricamente via instâncias democráticas, mas financiada pela Bancada Ruralista, que votou completamente para derrubar a ex-presidenta. Nesta última Caravana do Lula vimos esses ataques do agronegócio também. Então esse agronegócio hoje é fruto da modernização conservadora da ditadura.

Acha que existe uma falta de reconhecimento por setores da própria esquerda sobre o impacto do golpe no campo?

É um déficit que temos na esquerda brasileira, um desconhecimento da realidade agrícola e camponesa. E como nossa própria formação da esquerda é centrada no urbano, as experiências organizativas no campo foram muitas vezes abandonadas pela própria esquerda. Então há um desconhecimento sobre o próprio processo de repressão. Tem muita pesquisa e pouca divulgação sobre esse período dos camponeses. Uma das questões principais que a Elizabeth Teixeira e o Clodomir Santos de Moraes, das Ligas Camponesas, ressaltam, é o quanto é difícil dar visibilidade para os conflitos do campo dentro da própria esquerda.

Edição: Nina Fideles

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