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quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Você já de olhou no espelho?


Tem gente que, ao se olhar no espelho, humilha-se... Ou porque é alto ou baixo, gordo ou magro, branco ou negro, comum ou diferente... Você já se viu no espelho?

Já agradeceu a Deus por ter conquistado a sua maior vitória, a vida? Já O agradeceu por ter nascido fisicamente perfeito? Tem gente que tem vergonha da própria imagem, evita o espelho e a balança a qualquer preço. Esse sentimento negativo pode levar qualquer pessoa ao precipício do estresse, e até a morte. “Se eu me odiar, quem vai me amar? Se eu me achar feio, quem vai me achar bonito? Se eu me depreciar, quem vai me valorizar?”

Um cego de nascença nunca se viu no espelho. Jamais discernirá o belo do feio...Nunca poderá ver a beleza do pôr-do-sol, nem as cores irradiantes do arco-íris... Jamais viu o rosto da mulher amada e a face do filho querido... Mas consegue enxergar a vida com os olhos da alma. Agradece ao Todo Poderoso por ter nascido. É feliz assim.Você já pensou nisso alguma vez?

Um surdo-mudo, vive num planeta construído e preparado para os fisicamente perfeitos. A todo instante tem que enfrentar barreiras e vencê-las ou adaptar-se a elas. A cada conquista agradece a Deus... É um guerreiro vencedor. Estuda ferozmente cada passo do mundo, adquirindo conhecimento e sociabilizando-se para entender a linguagem e a política da sociedade em que vive.

Um ser humano sem pernas e sem braços, para ir ao banheiro fazer suas necessidades fisiológicas, precisa da ajuda eterna de uma pessoa qualquer. Alguém tem que levá-lo nos braços, despi-lo (nunca vai poder manter sua vergonha em secreto). Depois, sentá-lo no vaso, segurá-lo (pois não tem ponto de apoio), e após defecar, necessita que este alguém limpe o seu bumbum e suas genitálias. Ele vive sua vida dependente vinte e quatro horas por dia. Como você viveria numa situação dessas?

Um deficiente vive desafiando o seu limite a todo o momento. Busca forças inimagináveis para a realização do seu objetivo. Trava batalhas de vida e morte na superação de uma tarefa, seja ela qual for. Ter nascido é a sua maior vitória, é o seu pódio, sua medalha de ouro. Aceita seu corpo, como é. Estar vivo é sua felicidade sem preconceitos, seu presente, ele agradece ao céu por isso.

Se você nunca se viu no espelho, veja-se agora. Nunca é tarde demais para nascer de novo. Ninguém está isento de se tornar um deficiente. Em verdade, digo que o verdadeiro pobre coitado é o pobre de espírito; que o pior assassino não é aquele que mata o inimigo: é aquele que mata a si mesmo, o próprio sonho. Enfim, é aquele que só carrega o ódio no coração e morre de inveja dos perfeitamente felizes.

Você realmente já se viu no espelho?!!!

Para alguém muito deprimido, estressado, tenho dito: Antes de fugir de si mesmo, cometer qualquer bobagem ou até pensar em suicídio – visite uma APAE, UM ASILO, UM HOSPITAL PSIQUIÁTRICO, UM LIXÃO, UM PRESÍDIO, UM ORFANATO, UMA IGREJA, UM CEMITÉRIO OU UM HOSPITAL QUALQUER...e seja voluntário por um dia. Tenho certeza que vai sair de lá com vergonha do seu problema, e vai agradecer a Deus pelo seu livre arbítrio, por ver, ouvir, falar, andar, amar e ser amado. Vai redescobrir o valor incalculável de viver. Vai reaprender a ter respeito, humildade e o amor por si mesmo; tornar-se-á um ser humano espiritualizado a tal ponto que voltará a sorrir de novo e a ver nas pequenas coisas o verdadeiro sentido da vida – a dádiva de Deus.

Por Osmar Soares Fernandes

terça-feira, 15 de outubro de 2019

COITADAS DE SODOMA E DE GOMORRA

... "Quando eu vi nesta cidade,
Tanto horror e iniqüidade
 Resolvi tudo explodir ““...
 (Chico Buarque em Geni e o Zepelin)

Foto ilustrativa
Será que o que rolava em Sodoma e Gomorra se assemelha com aquilo que rola por trás dos bastidores deste circo ao qual se estende sobre nossas cabeças? Você é capaz de imaginar o que vem acontecendo debaixo de nossas narinas?


A promiscuidade, a orgia, a perversão que houveram por lá, eram inocentes, se comparadas com a dos nossos dias. Os maiores pervertidos de Sodoma e Gomorra se pasmariam frente ao despudor reinante do nosso tempo.

Tudo bem que para sua época, Sodoma e Gomorra eram avançadas em matéria de desobediência e andavam na contra ordem de seu tempo, porem, a maestria dos nossos dias em atender aos anseios da carne é tanta, que o menor aluno em promiscuidade daqui, serviria como reitor dos reitores da libertinagem das duas extintas cidades.

Os escândalos causados por Sodoma e Gomorra, a violação dos bons costumes de seu tempo são se comparados aos nossos algo tão inocente, que se fossemos sodomitas ou gomorritas, teríamos uma conta pequena à prestar com Deus.

As coisas por aqui estão em tal nível, que se Sodoma e Gomorra tivessem notícias de nós, seus habitantes ficariam antes de tudo escandalizados e em seguida, revoltados. Povo, povo, nem queiram imaginar o tamanho do nosso castigo, se a prestação de contas para as irmãs Sodoma e Gomorra foi a nível de fogo e enxofre, A nossa então será indizível.

Joelhos ao chão minhas criancinhas, joelhos ao chão, as coisas por aqui andam estarrecedoras, seria o mesmo que colocarmos lado a lado uma bola de basquetebol e uma cabeça de alfinete, nós somos a primeira opção, os sodogorromitas, a segunda.

Pois é, as coisas estão nestas proporções, os cananeus de Sodoma e Gomorra não querem ser um carrapato em nosso couro. Nossa divida é descomunal, nem tentem imaginar. Os mais ajuizados, começaram a rezar.

Mateus Brandão de Souza, graduado em história pela FAFIPA.

Texto originalmente publicado em 2011

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

ACADEMIA DE JUDÔ OS DRAGÕES INDEPENDENTES 45 ANOS

Era manhã de sábado, dia 12 de Outubro de 1974, Agostinho Arraes, jovem professor de artes marciais, trazia em seu coração um misto de sentimentos que ia desde a ansiedade, passando pela emoção até a felicidade plena. Era, pois, um sonho que se realizava, nascia neste dia Academia de Judô Os Dragões Independentes, um escola que fez história e consequentemente, campeões, campeões estes, liderados pelo mestre que tem como característica a sobriedade e a seriedade.

Via: Professor Osmar Fernandes

A academia de judô com prédio próprio, situado na Avenida João Venâncio da Rocha N°542 é desde sua fundação um orgulho para a pequena Nova Londrina, em suas dependências agregaram-se campeões que se evidenciaram tanto no âmbito estadual quanto no nacional, uma história que sempre conduziu seus alunos no bom caminho, com a sensatez de seu líder Agostinho Arraes, ele, referência digno de reverência aos profissionais de judô.

Uma história de tradição e longevidade não vem acompanhada unicamente de flores, a luta renhida, o trabalho árduo e a seriedade não foram suficientes para poupar de adversidades a menina dos olhos de Agostinho Arraes, a conhecida Academia de Judô Os Dragões Independentes, seguia seus dias no tempo que nunca para e antes de completar sete anos de atividades, ela sofre um golpe doído...

Foto/Vilmar Toledo
Eram as primeiras horas da tarde de uma segunda-feira , 27 de Maio de 1981, um vendaval repentino castigou a cidade de Nova Londrina, colocando abaixo muitos telhados, muitas paredes e consequentemente, muitos sonhos, o contratempo não defendeu a academia do professor Agostinho, o castelo do rei ruiu-se, e ele escapou por providência divina, pois, poucos minutos antes estivera no prédio que naquele instante viera abaixo.

Era um sonho interrompido? A princípio parecia que sim, porém, toda tempestade antecede uma bonança. Os bons ventos vieram, os ruins se foram, o impacto negativo daquele dia também passou, o bom guerreiro não se entrega antes da hora final, a fé e a perseverança faz vicejar o sonho, a vida imita a mitologia e tal qual a fênix que ressurge das cinzas, a Academia de Judô Os Dragões Independentes ressurgiu sob os escombros deixados pelo vendaval.

Com a fibra dos guerreiros, o Dragão não adormeceu e a academia seguiu adiante seus passos, na defesa de seus intentos, atento, rompendo as barreiras e os vendavais, derrubando a desesperança, golpeando as dificuldades e escrevendo sua história campeã em formar campeões.

Quarenta e cinco anos nos separam daquele 12 de Outubro de 1974, Professor Agostinho Arraes  segue de pé com sua academia, olhando com orgulho seu patrimônio e descansado na paz de consciência de seu dever cumprido e do seu sonho realizado. O Dragão não adormece, sente que não é hora, não é tempo de parar.

Outros contratempos vieram, mas, a caminhada continuou, o mestre tem seu respeito e seu legado, seu trabalho rendeu frutos e não foi em vão, Agostinho Arraes se emociona quando relembra que teve seu trabalho reconhecido pelo mestre em judô Roberto Nagahama, quando este o felicitou por ser responsável pela formação do professor em Judô Douglas Violin, filho de Nova Londrina e hoje ministrando aulas na Universidade Estadual de Maringá (UEM).

A história da Academia de Judô Os Dragões Independentes segue viva na força de vontade e no amor pela causa do Sensei Agostinho Arraes, o mestre está na ativa, exercendo seus conhecimentos e contribuindo para a perpetuação desta arte milenar aqui em Nova Londrina, hoje em nome de sua academia, Agostinho Arraes presta seu serviço atendendo no Caiuá Country Club, quarenta e cinco anos depois de ter nos enriquecido com a construção de sua academia.

Ao professor e sua escola externamos nossos parabéns, além da gratidão por nos ensinar a perseverança e o caminho do bom senso, que os bons ventos estampem em seu semblante os sorrisos da consciência tranquila do dever cumprido. Obrigado professor pelo seu trabalho e pela Academia de Judô Os Dragões Independentes.

Salve 12 de Outubro de 1974 – Viva a Academia de Judô Os Dragões Independentes do professor Agostinho Arraes.

Mateus Brandão de Souza

sábado, 12 de outubro de 2019

"Adeus à Noite": Reflexos de duas gerações

Em meio à trama familiar, cineasta francês André Téchiné discute a posição de duas gerações argelinas sobre o uso da violência contra seus inimigos.


Por *Cloves Geraldo

Em princípio o tema central deste “Adeus à Noite” brota na cabeça do espectador como o conflito entre duas gerações de argelinos radicadas no norte da França. A começar pela idosa Muriel (Catherine Deneuve) cujas raízes árabes foram amortecidas pela absorção de uma nova cultura e os negócios no campo, onde administra o haras com cavalos de raça e a escola de equitação para crianças e adolescentes. Situação adversa à do neto Alex (Kacey Mottet Klein), envolvido com um grupo de descendentes argelinos muçulmanos, adepto do extremismo do Estado Islâmico (EI). O que torna a relação deles de difícil sustentação, dada à crença dos jovens.

O terceiro vértice desta configuração dramática é a jovem argelina, Lila (Oulaya Amanra), espécie de filha adotiva de Muriel e namorada de Alex. Cuidadora de idosos numa instituição de caridade, ela é firme em seu fervor a Alá e fiel seguidora do também jovem líder local do EI, o argelino Bilal Matip (Sthéphane Bakpor). De poucas palavras e firme em suas posições, ele os orienta sobre as tarefas e posições que o grupo deve adotar. Lila, ao contrário do que se espera dela, como mulher árabe, mostra-se livre e com posições próprias em conversas com as amigas.

Mas é Alex que concentra todas as atenções de Muriel, dada às relações cada mais estreitas entre ele e Bilal. Não lhe falta vigilância e conversas com o amigo e senhorio Joseph (Jacques Notot), devido aos sumiços do neto, quando deveria estar ajudando-a na supervisão das cerejeiras a ocupar grande parte de sua propriedade. Ou mesmo em seu haras, onde dedica parte de seu cotidiano a dar aulas de equitação para as crianças da pequena cidade. Isto mostra que ela prepara Alex para se tornar seu sucessor nos negócios, sem saber que ele está ligado ao EI.

Téchiné transforma seu filme em drama familiar

Há, no entanto, o conflito interior do jovem Alex que emerge em suas aflitivas conversas com Muriel. Principalmente quando ela o pressiona para lhe explicitar suas ligações com o EI e ele prefere pressioná-la a lhe esclarecer as nebulosas razões da morte da mãe, única filha da avó. Eles terminam por se desentender, pois há algo que Muriel não lhe revela. Com estas configurações, André Téchiné (13/03/1943), transforma este “Adeus à Noite” num drama familiar, no qual não faltam as figuras do pai e da mãe para preencherem o vazio e a urgência de eles estarem presentes.

Contudo, Téchiné (A Culpa dos Inocentes, 1987) é um cineasta sofisticado, bem informado, que busca a abordagem correta sem escorregar nos fatos históricos. E além disso trafega de um eixo dramático ao outro sem perder o tema central de sua narrativa. Discute a um só tempo a posição dos imigrantes argelinos, ocorrida antes e pós-Revolução Argelina (01/11/1954/19/03/1962), na qual os franceses foram derrotados. E não deixa escapar o quanto eles se tornaram cidadãos franceses. Numa sequência emblemática para se entender isto, Alex questiona Muriel a razão de ela não retornado uma vez sequer ao seu país e ela silencia.

Este rápido diálogo elucida a diferença entre três gerações de argelinos. E justamente o neto Alex que nasceu na França é o que tende a questionar a posição do Ocidente sobre sua crença em Abul Acacim Maomé Ibne Abdalá Ibne Abdal Mutalabe Ibne Haxim (570/632), fundador da religião muçulmana e do império árabe. E notadamente sua adesão ao Estado Islâmico (EI). Ainda mais prestes a entrar em ação de envergadura que poderia redundar num atentado de grandes proporções, a marcar de vez seu grupo. Mesmo o espectador, sem qualquer cena ou sequência preparatória pode aventar tais possibilidades. Alex não é mais o mesmo.

Alex não deixa escapar nenhum dado sigiloso

Os encontros de Alex, Lila, Bilal e Fouad (Kamel Labroudi) vão nesta direção, sem entrar em detalhes sobre o que realmente farão e quem lhes dará cobertura. Bilal apenas orienta seus liderados e os estimula a rezar e seguir suas orientações. Inexistem preparativos, levantamentos de locais e o tipo de ação que irão desenvolver. Téchiné prefere não ser didático, como o cineasta australiano Anthony Maras, em “Assalto ao Hotel Taj Maral (2018)”. Nenhuma informação sigilosa é comentada ou escapa dos jovens integrantes do grupo, ainda que saibam dos mínimos detalhes.

Mesmo Alex, por mais que seja pressionado pela avó, mantém o segredo nos mínimos detalhes, mesmo quando é punido ferozmente por ela. Travam uma luta construída por Téchiné como algo inevitável para Muriel controlar todas as ações do neto, evitando o pior para ambos, em seu ponto de vista. O espectador vê nesta punição o antecipar do que ela teme, porquanto chega mesmo a dizer que:” Eu sei o que acontece, ele não vai voltar”. Tipo de premonição forçada, ainda que verdadeira em razão do envolvimento de Alex na preparação do ato de grandes proporções.

O espectador então fica intrigado, pois quem acaba se transformando em “mãe coragem” é Muriel, em razão de sua sensibilidade de mulher e avó. Seu tirocínio é provocado pelo temor do que poderia advir das ações do grupo. Daí emerge o suspense, ainda que nada se saiba das maquinações da idosa, interpretada pela enigmática e sempre contida Catherine Deneuve (22/10/1943), como o personagem exige. Seus instantes de fúria e seu modo de interiorizar seus repentes são minimalistas e construções de thriller. Tal é o modo como justifica sua atitude ao impedir que o neto chegue ao local do atentado. E ele se vê encurralado como um cão, a ponto de desforrar em Fouad (Kamel Labrouda), em acertada direção de Téchiné.

Muriel teme o ato extremista do neto

Sem perder a tipificação do tema central deste “Adeus à Noite”, Téchiné desvia sua câmera para o que também estava em jogo. Não apenas a defesa do neto, mas também a sustentação dos negócios sob o controle do que restou da família. São agora apenas dois sobreviventes. Em curtas sequências, vê-se os adolescentes em seus cavalos de raça a treinar equitação. E ainda a preocupação de Muriel com sua plantação de cerejas. É o olhar crítico do cineasta atento não só aos eixos dramáticos, mas para o outro lado da personagem: o medo do ato extremista do neto.

Não se está diante de uma história digestiva com bem estruturadas cenas de suspense. Téchiné quer ir além, fazer o espectador sentir o dilema da avó diante do extremismo de Alex, não o visto de longe, mas dentro de sua própria casa. E ademais por ato de seu único neto. É isto que leva Muriel a agir como se vê ao longo da segunda e terceira parte do filme. Os fios dramáticos do que ocorreu à mãe de Alex e o que o faz detestar o pai não se encaixam mais nas preocupações dos dois personagens, a fazer a narrativa avançar de forma acelerada.

A admirável estruturação dramática de Téchiné e seus co-roteiristas Léa Nysius e Amer Alware está na matização dos ambientes onde transcorre a ação neste “Adeus à Noite”. Deixaram de lado os ambientes urbanos com suas movimentadas ruas, cheias de veículos e pedestres. Dando a entender a carnificina antes mesmo de ela ocorrer, a partir de ambientes fechados, rotas de fugas por telhados ou em veículos em alta velocidade. Um clichê mesmo depois dos ataques em Paris, nas ruas de Londres e no atentado às Torres Gêmeas, em Nova York. Por mais realistas que sejam estes cenários, não passam hoje de repetição barata.

Cenários naturais ditam clima do filme

Em “Adeus à Noite” quem dita o clima e a beleza dos cenários naturais em luxuriantes cores é a própria natureza. Da floresta de intenso verde na primavera de 2015 à vegetação rasteira. Entre elas estão as cocheiras com os cavalos de raça, as casas de andar térreo e a pista de terra para treinamento dos jovens cavaleiros. E mesmo a cidade quando aparece é através de nesgas de portas e só. O que vale aqui são os personagens vivendo situações reais, numa dicotomia entre imigrantes argelinos e um de seus descendentes, cidadão francês, ligado ao EI. E a cocheira quando se torna cenário do embate entre avó e neto se presta a representar uma prisão quando o punido está longe de cometer o crime.

Enfim, o que Téchiné pretende não é pender para um lado ou outro, sim mostrar o quanto as questões familiares podem interferir nos rumos tomados por seus entes queridos. O desfecho de “Adeus à Noite” é emblemático ao expor esta visão em estruturação e belo enquadramento, denso clima, pouca luz e plano aproximado do diretor de fotografia Julien Hirsch. E remete ao film noir das décadas de 40 e 50, seu ápice, flagrando a atitude de Muriel em intervir numa realidade que tentou manter sob controle sem sucesso. Mas encontrou as saídas que fizeram suas intenções se tornarem realidade, mesmo que alguns viram seus planos fracassarem.

Alguma lição pode sair para Alex e seu grupo

Há, portanto, a ideia de Téchiné e de seus co-roteiristas de que as gerações não repetem suas experiências, como ocorreu com Muriel. Ela se adaptou à nova realidade e construiu seu espaço de acordo com o ditado pelo capital e o defende com os mesmos interesses. Seu neto Alex e seus companheiros, por mais radicais que sejam, buscaram outros caminhos. Pode não ser o desejável, dado ao radicalismo com que podiam destruir sem apontar novas formas de construir estruturas econômicas e sociais. A alegria de Muriel ao saber do que ocorreu a Alex e seu grupo não desfaz a construção histórica. Alguma lição para ele e seu grupo pode sair daí.

Adeus à Noite (L´Adieu à la nuit”). Drama. França/Alemanha. 2019. 103 minutos. Ficha Técnica: Trilha sonora: Alexis Rault. Montagem: Albertine Lastera. Fotografia: Julien Hirsch. Roteiro: André Téchiné, Léa Nysius, Amer Alware. Direção: André Téchiné. Elenco: Catherine Deneuve, Kacey Mottet Klein, Oulaya Amanra, Jacques Notot, Stéphane Bak, Kamel Labroudi.

*Jornalista e cineasta, dirigiu os documentários "TerraMãe", "O Mestre do Cidadão" e "Paulão, lider popular". Escreveu novelas infantis,  "Os Grilos" e "Também os Galos não Cantam".

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

O vigoroso socialismo chinês

A passagem do 70º aniversário da Revolução Socialista na China revelou o entusiasmo do povo chinês com os êxitos do sistema inaugurado com a vitória da longa marcha comandada por Mao Tse-tung, em 1949. “De hoje em diante, a China vai se colocar de pé”, anunciou o líder revolucionário. O mundo ainda respirava a atmosfera da vitória da democracia na Segunda Guerra Mundial, mas novas ameaças surgiam no horizonte.


A Nova China, nascida da maior revolução anticolonial do século XX, foi importante também para o equilíbrio de forças na geopolítica do pós-guerra. Logo em seguida, em junho de 1950, com a intervenção norte-americana na península coreana, outro grande conflito começava a se desenvolver na região. À época, o sistema capitalista, já sob a batuta do governo dos Estados Unidos, enfrentava dificuldades para dominar alguns territórios, entre eles a China.

A União Soviética saíra da guerra ainda mais poderosa. Uma série de países da Europa — Alemanha Oriental, Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Bulgária, Romênia e Albânia — deixara a órbita das potências capitalistas. Além dos mais de 70 milhões de europeus, 475 milhões de chineses passaram para o campo da democracia popular e do socialismo. Esses acontecimentos eram tidos como obras de uma “conspiração moscovita”.

O mundo capitalista, que se debatia nas garras da crise desde antes do início da Segunda Guerra Mundial, armava-se febrilmente para impedir o avanço do socialismo. O mito-propaganda da “ameaça comunista” trazia de volta velhos chavões que inundaram o mundo pelas ações do nazi-fascismo no entreguerras. A Ásia e a América Latina foram as regiões priorizadas pela política de Washington para impedir o avanço das forças progressistas.

Além do cerco norte-americano — que voltaria a promover uma guerra de grandes proporções na região ao invadir o Vietnã —, a China se deparava com imensos desafios internos. O país enfrentava a constante ameaça externa e precisava de um rápido desenvolvimento. Após um período de ziguezague, com êxitos e revezes no aprendizado da Revolução desbravando um terreno novo, o socialismo com características chinesas chegou ao advento da reforma e abertura, criado por Deng Xiaoping.

O desenvolvimento rápido – essa livrou centenas de milhões de chineses da pobreza e passou por um acelerado ritmo de urbanização, com a superfície urbanizada se elevando de 17,9% para 50% do território nacional – trouxe também contribuição significativa para diferentes regiões do planeta. O país se integrou a várias economias, entre elas o Brasil. Outro fenômeno chinês de grande relevância foi a definição dos princípios de sua política externa, a busca do desenvolvimento pacífico estabelecido no 11º Congresso do Partido Comunista Chinês, de 1978. Hoje, a China tem importante protagonismo no multilateralismo internacional.

A construção da indústria básica e da infraestrutura também foi reforçada, dando suporte crescente ao desenvolvimento econômico e social do país. O salto educacional foi outro ponto relevante, considerado pelos chineses como um dos principais eventos que modernizaram a China nesse período, priorizado pelos camaradas de Mao Tse-tung e Deng Xiaoping que desenvolveram a reforma e a abertura.

Com seu feixe de tradições preservado, a China inventou seu próprio modelo de desenvolvimento, seu próprio estilo de fazer a roda da economia girar, baseado na alta tecnologia e no controle cambial – a razão principal da guerra comercial movida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump –, condição que coloca o país em primeiro lugar no mundo em termos de paridade de compra de sua população. Essa flexibilidade inteligente é um dos aspectos mais notáveis do sistema chinês. Ao mesmo tempo, o país reforça sua posição unitária e as garantias da sua soberania.

O presidente Xi Jinping, discursando no 150º aniversário de nascimento de Sun Yat-sen – o pioneiro da China republicana – em 2016, disse que era promessa solene do povo e da história nunca mais deixar o país ser despedaçado. “Todas as formas de atividades separatistas serão resolutamente opostas por todo o povo chinês", acrescentou. "Nunca permitiremos que qualquer pessoa, organização ou partido político remova uma parte do território da China, sob qualquer forma e em qualquer momento”, enfatizou.

Ao discursar no desfile dos 70 anos da Revolução, o presidente afirmou que “nenhuma força pode parar o progresso do povo chinês e da nação chinesa”. A Nova China, sob a direção do Partido Comunista, emancipou o país e sua população, dando-lhes novo destino, ao mesmo tempo que proporcionou à humanidade um gigantesco salto civilizatório.


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Outubro Rosa: Prevenir o câncer, investir na saúde da mulher

Desde os anos 1990, o Outubro Rosa vem chamando a atenção para a necessidade de maior atenção à saúde da mulher. O mês foi associado a essa cor para reforçar o controle do câncer da mama, o segundo de maior incidência sobre as mulheres no Brasil e no mundo, só atrás do câncer de pele não melanoma.

Material da Contee sobre o Outubro Rosa: valorização da saúde da mulher 
Por Marcos Aurélio Ruy

“Todas as conquistas dos últimos anos”, afirma Elgiane Lago, secretária de Saúde da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), “estão indo por água abaixo com os cortes promovidos pelo governo de Jair Bolsonaro”. Segundo Elgiane, os retrocessos na saúde pioraram com o golpe de 2016 e ganham ênfase no atual governo. “O Ministério da Saúde tem projetos para passar o dinheiro público para empresas privadas de saúde e isso pode acabar com o SUS (Sistema Único de Saúde), o que liquida com a medicina preventiva e com os programas de atendimento à população”.

A começar pelo “teto de gastos” – a Emenda Constitucional 95 –, que congela os investimentos públicos por 20 anos. “Temos assistido à queda de participação federal na Saúde, como proporção na receita corrente líquida. Ela foi 15,77% em 2017, caiu para aproximadamente 14% em 2018 e agora, no orçamento de 2019, era 13,8%”, afirmou o economista Francisco Funcia, assessor técnico do Conselho Nacional de Sáude para orçamento do SUS, em entrevista à repórter Beatriz Mota, numa publicação da Fiocruz.

Ele explica ainda que esse parco recurso sofreu um corte de 3% pelo governo Bolsonaro. “O que é grave para estados e, principalmente, municípios. Um estudo que a gente fez mostra que os municípios aumentaram até 2,5 vezes a participação no financiamento da saúde no Brasil, entre os anos de 1991 e 2017. Eles participavam com 12% no total (1991) e passaram a participar com 31% (2017). E a contribuição da União, neste tempo, caiu de 72% para 43%. Com qualquer queda do gasto federal, os municípios não têm mais condições materiais e objetivas de compensar”.

Em números absolutos, o Ministério da Saúde teve o congelamento de R$ 599 milhões, 3% do que foi orçado para 2019. “Considerando que o SUS tem enfrentado processo de subfinanciamento crônico desde a sua constituição, que se agravou fortemente a partir da EC 95, em 2017 – com um processo que a gente tem denominado hoje como ‘desfinanciamento’ –, tirar qualquer recurso previsto significa um grave problema. Não há como manter um sistema único de saúde como o nosso, retirando a cada ano mais recurso. Se nada for feito, o SUS vai morrer por asfixia financeira”, assinala Funcia.

Por isso, acentua Elgiane, “defender o SUS é a prioridade das prioridades”. Para a sindicalista gaúcha, “o congelamento dos investimentos públicos em todas as áreas afeta sobremaneira a saúde porque deteriora as condições de vida das pessoas, provocando número maior de adoecimentos. Tanto que estamos vendo a volta de doenças já dadas como extintas, principalmente relacionadas às condições de salubridade”.

Artigo publicado no periódico BMC Medicine mostra que os cortes de gastos federais para o programa Estratégia da Saúde da Família por causa da EC 95 podem levar a 27,6 mil mortes evitáveis até 2030. A quase extinção do programa Mais Médicos acarreta um possível aumento de 8,6% na mortalidade, o que representa cerca de 48,5 mil óbitos evitáveis em decorrência do abandono de políticas públicas fundamentais para a maioria da população sem acesso ao atendimento privado na saúde.

Os especialistas realçam a necessidade de políticas públicas de saúde para valorização da medicina preventiva. Daí o fundamento do Outubro Rosa. “É neste mês que as mulheres podem valorizar sua saúde, exigindo seus direitos”, acentua Celina Arêas, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB. É sabido que as mulheres sofrem mais as consequências da precariedade na saúde. “São as mulheres que, em geral, têm sobre os seus ombros a responsabilidade de cuidar da saúde da família, sobrando pouco tempo para si mesma”, garante.

Prevenção ao câncer da mama

“A prevenção ao câncer de mama é essencial para mostrar à mulher a necessidade de ela se cuidar e se respeitar para ser respeitada em sua vida como qualquer pessoa”, diz Ivânia Pereira, vice-presidenta da CTB. Segundo ela, a mamografia anual para mulheres acima dos 40 anos é fundamental para a prevenção dessa doença. “Os cortes efetuados em diversas áreas e o congelamento de investimentos no setor público causam transtornos à vida de todo mundo.”

Não por acaso, a Sociedade Brasileira de Mastologia, o Colégio Brasileiro de Radiologia e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia divulgaram um comunicado conjunto em defesa da mamografia anual. “As principais sociedades médicas do mundo são unânimes em recomendar o rastreamento mamográfico com uma periodicidade anual ou bienal, a depender do país. No Brasil, as sociedades médicas recomendam o rastreamento mamográfico anual para as mulheres entre 40 a 75 anos”, explica o comunicado à sociedade.

“A deposição da presidenta Dilma em 2016 trouxe consequências drásticas para o País. As pessoas estão mais doentes porque estão trabalhando em condições cada vez mais precárias e sem descanso adequado. A saúde pública está retrocedendo décadas por falta de atendimento adequado”, explica Ivânia.

“Cortar investimentos em áreas fundamentais para a melhoria da vida da população – como saúde, educação, transportes, habitação e saneamento básico –, aliados à liberação de agrotóxicos na agricultura e corte de bolsas de estudos, afeta pesquisas em saúde, em prejuízo para a população mais necessitada”, diz Elgiane. “Acabar com o SUS é outro fator que provoca aumento da incidência da doença, porque ainda existe tratamento para câncer de mama proporcionado pelo SUS.”

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

China: 70 anos de avanços sem dogmas preservando uma cultura milenar

Nos 70 anos de República Popular da China, a abertura e modernização de 1978 é o marco de um país que sabe avançar sem dogmas preservando sua essência


Por Luiz Rodrigues*

Uma das belezas da vida é aprender a usar as novas tecnologias, se adaptar aos novos tempos, mas ainda assim sermos capazes de preservar a nossa essência. Ser quem verdadeiramente somos. Mudar aquilo que nós queremos mudar em nós e não somente “ir na onda”. Autoconsciência e serenidade são qualidades que muitos gostam de cultivar em si mesmos. Também olhando por este ângulo, os 70 anos da República Popular da China merecem ser motivo de comemoração pelo povo chinês. Neste período pós-revolução de 1949, o país sob a liderança do Partido Comunista não somente alcançou progresso material e econômico em velocidade recorde, mas soube também manter suas características chinesas respeitando as condições e realidades do seu povo.

A mudança nunca é um processo fácil. Sejam as grandes revoluções ou as reformas esporádicas, mudar causa complicações. Por exemplo, o primeiro dia na escola pode ser o passaporte para uma vida mais independente e com mais amigos, mas as crianças choram ao ter que deixar seus pais no portão de entrada. Sobre as mudanças, nestes 70 anos de República Popular da China, um dos marcos mais mal compreendidos no Ocidente é a chamada Reforma e Abertura de Deng Xiaoping de 1978, que no fim do ano passado completou 40 anos. Àquela época, a China fez um balanço das primeiras décadas de revolução, avaliou os avanços e os gargalos, avaliou a conjuntura, e decidiu apostar no socialismo de mercado e numa maior inserção de sua economia no comércio internacional.

Este processo de grandes mudanças iniciado no fim da década de 70 foi interpretado superficialmente por alguns ideólogos ligados às potências ocidentais como uma “transição ao capitalismo”. Esta narrativa logo se tornou dominante no Ocidente. Prisioneiros de uma mentalidade dual típica de guerra fria, seria difícil explicar que alguns mercados ficariam abertos à República Popular da China em troca de rearranjos geopolíticos de redução de rivalidades. Não combinava com a grande narrativa que vinha sendo contada de tentar isolar o bloco soviético com alegações acerca de divergências de ideologia. Ficaria escancarado que os interesses eram mais complexos. Assim, o Ocidente optou por explicações que se mostrariam insuficientes.

Deng Xiaoping era uma figura emblemática. Tendo se juntado ao Partido Comunista Chinês nos anos 20 em seus estudos na França, foi mandado à Moscou quando a NEP (Nova Política Econômica) de Lênin dava os seus primeiros frutos na aceleração do crescimento econômico da recém-criada União Soviética. Tendo vivido experiência da NEP, para Deng, o socialismo que cria condições materiais para a realização dos trabalhadores pressupunha mercados. Mercados coordenados sob um planejamento estatal vigoroso e com controle do Estado em setores estratégicos. Ainda assim, mercado. O próprio capitalismo em seu estágio avançado nos mostra alguns limites: por questões técnicas nem todos os setores são monopolizados ou oligopolizados no capitalismo. Se a produção agrícola e o pequeno comércio estão pulverizados num determinado momento no capitalismo, é porque provavelmente não existem condições técnicas de fazer a coordenação. Se a siderurgia está oligopolizada, provavelmente há maior capacidade de o Estado ter meios técnicos de fazer coordenação mais direta.

Com base na vivência e na análise, o processo chinês de abertura econômico foi planejado para manter a soberania. A partir dos anos 80, diversas empresas estrangeiras foram admitidas a produzir na China, mas somente em joint-ventures com empresas chinesas, a quase maioria, estatais. Por exemplo, as primeiras montadoras, costumavam ser participação de meio-a-meio entre a estrangeira, Volkswagen ou GM e a estatal chinesa SAIC. O governo chinês participava dos lucros, dos riscos, mas principalmente, ia aprendendo a fazer carros fazendo carros. Joseph Stiglitz, economista americano detentor de prêmio Nobel tem uma obra que explica a importância do aprendizado no ambiente de negócios chamado “Creating a Learning Society”. A China soube fazer bem esse aprendizado e décadas depois, engenheiros e executivos experientes da SAIC passaram a produzir diretamente automóveis pela SAIC ou se juntaram a outras empresas estatais que passavam da produção de motos e mobiletes para automóveis ou fundaram empresas com recursos dos bancos estatais chineses. Esse processo da indústria automotiva se repetiu em diversos outros setores.


A administração da abertura econômica, no entanto, não se deu só com as “joint-ventures” e o impulsionamento a indústrias chinesas que disputavam e disputam mercados importantes. Também se deu com o controle estatal direto sobre setores estratégicos. No petróleo, por exemplo, extração, refino e distribuição estão na mão de empresas estatais. Com a telefonia celular e internet, ocorre a mesma coisa: várias operadoras estatais. A multiplicidade de empresas estatais tem explicação: no fim dos anos 70, estudos prospectivos chineses apontavam os problemas da falta de competição na União Soviética como um dos fatores da estagnação econômica daquele país. Temendo seguir pelo mesmo caminho, a resposta chinesa, ainda nos anos 80 foi criar empresas estatais espelho para que competissem umas com as outras. Três empresas de petróleo, por exemplo. Posteriormente, a venda de algumas ações minoritárias em bolsas de valores para que o mercado precificasse o desempenho das empresas. Afinal, se a empresa é do povo, ela precisa trabalhar para o desenvolvimento do país, não só para melhorar as condições de trabalho de seus próprios trabalhadores.

Todo esse processo de abertura e modernização teve também um forte componente de investimento estatal em pesquisa e desenvolvimento. Inicialmente para alcançar competência em indústrias maduras como automotiva, mas depois para competir em setores de ponta, como trens de alta velocidade e painéis solares. Seja com controle direto das empresas, no caso de indústrias de bens mais homogêneos, seja por meio do crédito (num país que quase todos os grandes bancos têm controle estatal), no caso das indústrias de pesquisa de maior risco em que a participação privada é maior, o Estado tem um papel fundamental no avanço tecnológico. Como explica a economista Mariana Mazzucato, professora da Universidade de Sussex, o Estado é fundamental como tomador de riscos.

Assim, a China soube avançar nas reformas, soube colocar o mercado para trabalhar e construir condições materiais melhores sem perder a ampla capacidade de coordenação para o desenvolvimento. Esse período de Reforma e Abertura é especialmente representativo dos 70 anos de República Popular da China. Com uma liderança que não se prende a dogmas ou a copiar modelos (até porque conforme nos explica o professor Elias Jabbour, ao fim e ao cabo modelos não existem, porque cada condição é única), a China soube avançar mantendo sua essência. A República Popular da China trabalha para implantar o socialismo, mas com características chinesas. Apesar de um choque inicial com alguns valores confucionistas, soube fazer as mudanças necessárias, mas preservar a essência, que é a essência da sociedade chinesa. Soube inserir o mercado na equação econômica sem sacrificar o planejamento socialista. Soube fazer abertura mantendo a soberania. Talvez a China tenha muito a nos ensinar, especialmente a avançar sem dogmas, sem medos e sem apego a modelos pré-fabricados. Indo na essência.

* Luiz Rodrigues é gestor público da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental. É acadêmico do Mestrado Profissional em Desenvolvimento e Governança pela Escola Nacional de Administração Pública. É Especialista em Relações Internacionais pela UnB e engenheiro formado pela USP.

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