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sábado, 8 de agosto de 2020

“Não há condição para retomada das aulas presenciais em 2020”

Faculdade de História e Geografia continuará fechada para aulas presenciais

Na opinião de Marcos Neira, diretor da Faculdade de Educação da USP, neste momento será impossível assegurar que os estudantes guardem as medidas de biossegurança de propagação do vírus.


 
Mesmo com a pandemia do novo coronavírus agravada após mais de quatro meses de suspensão das aulas escolares, com uma média móvel de mais de 40 mil casos e mil óbitos diários nos últimos sete dias, redes de ensino como a do Estado de São Paulo querem retornar às aulas presenciais em setembro. Diante dessa possibilidade, a Congregação da Faculdade de Educação (FE) da USP, reunida em 30 de julho, manifestou repúdio para a possibilidade de volta às aulas nas escolas.

 “Não há qualquer condição para a retomada das aulas presenciais ainda este ano. Assim como a USP optou por manter as atividades remotas até o fim do ano letivo, sugerimos que o mesmo procedimento seja seguido da educação infantil ao ensino superior, tanto público como privado”, recomenda o professor Marcos Neira, diretor da FE-USP, em entrevista ao Jornal da USP no Ar. Ele ressalta que qualquer educador tem consciência de que “será impossível assegurar que crianças, adolescentes, jovens e adultos guardem as medidas de biossegurança que impeçam a circulação e propagação do vírus”.

 Outro ponto abordado foi a quantidade de profissionais que fazem parte do grupo de risco e que deveriam permanecer afastados de suas atividades presenciais, pois estes, juntamente com demais membros da comunidade escolar, estariam mais vulneráveis. Em nome da Congregação, Neira diz reconhecer a insuficiência do ensino remoto para aprendizado de todos os estudantes, bem como as dificuldades de acesso e domínio de ferramentas virtuais pelos professores, pais e alunos. Contudo, há uma compreensão de que, nas atuais circunstâncias de índices de contaminação e mortes apresentados pelas Secretarias Estaduais de Saúde e o Ministério da Saúde, a prioridade deve ser dada às questões de saúde pública.

 Para as aulas remotas, diversas redes de ensino municipais tiveram que buscar outros meios de envio de atividades aos alunos sem internet ou com acesso limitado. “[Mas] não podemos reduzir a atividade remota emergencial ao acesso à internet. A gente precisaria ter tido no começo a democratização desse acesso e isso faltou”, lamenta Neira. Para ele, seria necessário convênios com empresas de telecomunicações distribuidoras de internet, Secretarias apoiando professores na produção de materiais didáticos e uma reelaboração do currículo escolar com atividades mais dinâmicas, já que “trabalhar neste momento não significa reproduzir as aulas que se faziam em sala de aula, significa repensar as formas de fazer isso”.

 Passado tudo isso, com um retorno seguro lá na frente, os desafios serão enormes para a reorganização de projetos pedagógicos das escolas e faculdades. Também será preciso levar em consideração o que as crianças, jovens e professores da educação básica sentiram nesse período. “Quem sabe possamos definir temáticas que ajudem as crianças a compreenderem o momento do retorno”, projeta Marcos Neira. Isso se daria ao levar o entendimento do porquê a sociedade precisa mudar, já que nossa triste realidade fez com que muitas pessoas fossem atingidas pela pandemia em função de condições sanitárias e de saúde insuficientes.

 “Nós vamos continuar com essa sociedade? Fingiremos que nada disso aconteceu? Não tiraremos nenhuma lição dessa situação triste? Precisamos aprender [com a pandemia] e também nos preparar, porque outras virão. Se não agora, daqui a dez, 15, 20 anos”, alerta o professor.

 Via – Portal Vermelho


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Conto de fadas para mulheres do século XXI


Por Luís Fernando Veríssimo


Era uma vez, numa terra muito distante, uma linda

princesa que, independente e cheia de autoestima, enquanto

contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso

lago do seu castelo estava em conformidade ecológica,

se deparou com uma rã.

 

Então, a rã pulou para o seu colo e disse:

– Linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito.

Uma bruxa má lançou-me um encanto e eu transformei-me

nesta rã asquerosa. Um beijo teu, no entanto, há de me

transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar

e constituir um lar feliz no teu lindo castelo. A minha mãe

poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu

jantar, lavarias as minhas roupas, criarias os nossos filhos

e viveríamos felizes para sempre.

 

Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã à

milanesa, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e

de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria e pensava…

Nem fodendo!


quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Como as mulheres dominaram o mundo

Conversa entre pai e filho, por volta do ano de 2031 sobre como as mulheres dominaram o mundo.

 

- Foi assim que tudo aconteceu, meu filho...

 

Elas planejaram o negócio discretamente, para que não notássemos Primeiro elas pediram igualdade entre os sexos. Os homens, bobos, nem deram muita bola para isso na ocasião. Parecia brincadeira.

Pouco a pouco, elas conquistaram cargos estratégicos: Diretoras de Orçamento, Empresárias, Chefes de Gabinete, Gerentes disso ou daquilo.

 

- E aí, papai?

 

- Ah, os homens foram muito ingênuos. Enquanto elas conversavam ao telefone durante horas a fio, eles pensavam que o assunto fosse telenovela. Triste engano. De fato, era a rebelião se expandindo nos inocentes intervalos comerciais. "Oi querida!", por exemplo, era a senha que identificava as líderes. "Celulite", eram as células que formavam a organização. Quando queriam se referir aos maridos, diziam "O regime".

 

- E vocês? Não perceberam nada?

- Ficávamos jogando futebol no clube, despreocupados. E o que é pior:

Continuávamos a ajudá-las quando pediam. Carregar malas no aeroporto, consertar torneiras, abrir potes de azeitona, ceder a vez nos naufrágios. Essas coisas de homem.

 

- Aí, veio o golpe mundial?!?

- Sim o golpe. O estopim foi o episódio Hillary-Mônica. Uma farsa. Tudo armado para desmoralizar o homem mais poderoso do mundo. Pegaram-no pelo ponto fraco, coitado. Já lhe contei, né? A esposa e a amante, que na TV posavam de rivais eram, no fundo, cúmplices de uma trama diabólica. Pobre Presidente...

 

- Como era mesmo o nome dele?

- William, acho. Tinha um apelido, mas esqueci... Desculpe, filho, já faz tanto tempo...

- Tudo bem, papai. Não tem importância. Continue...

 

- Naquela manhã a Casa Branca apareceu pintada de cor-de-rosa. Era o sinal que as mulheres do mundo inteiro aguardavam. A rebelião tinha sido vitoriosa! Então elas assumiram o poder em todo o planeta. Aquela torre do relógio em Londres chamava-se Big-Ben, e não Big-Betty, como agora... Só os homens disputavam a Copa do Mundo, sabia? Dia de desfile de moda não era feriado. Essa Secretária Geral da ONU era uma simples cantora. Depois trocou o nome, de Madonna para Mandona...

 

- Pai, conta mais...

- Bem filho... O resto você já sabe.

Instituíram o Robô "Troca-Pneu" como equipamento obrigatório de todos os carros...

A Lei do Já-Prá-Casa, proibindo os homens de tomar cerveja depois do trabalho...


E, é claro, a famigerada semana da TPM, uma vez por mês...

 

- TPM???

- Sim, TPM... A Temporada Provável de Mísseis... E quando elas ficam irritadíssimas e o mundo corre perigo de confronto nuclear...

 

- Sinto um frio na barriga só de pensar, pai...

- Sssshhh! Escutei barulho de carro chegando. Disfarça e continua picando essas batatas...

 

(Luís Fernando Veríssimo)


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Brasil tende a ultrapassar as 100 mil mortes por Covid, diz infectologista

“Vamos viver nessa condição de um número médio acima de 1.000 ou 1.100 óbitos por muitas semanas, talvez por muitos meses"


Com vários estados flexibilizando a quarentena e sem nenhum plano nacional para controlar as cadeias de transmissão do novo coronavírus, o Brasil vai assistir, por várias semanas ainda, talvez por meses, o número de mortes ultrapassar a casa das 1 mil vítimas diariamente. Para Alexandre Naime, infectologista da Faculdade de Medicina da Unesp, o País provavelmente seguirá os passos dos Estados Unidos e terá muito mais que 100 mil mortes por Covid.

“As previsões de comportamento de curva de pico não se confirmaram e infelizmente o Brasil está vivendo a pior fase da pandemia, e paradoxalmente as políticas públicas e o próprio comportamento da população vão no sentido contrário, como se nós não estivéssemos vivendo uma tragédia diária”, afirmou o especialista.

“Vamos viver nessa condição de um número médio acima de 1.000 ou 1.100 óbitos por muitas semanas, talvez por muitos meses, o que vai levar a um número total de óbitos infelizmente trágico, provavelmente muito superior a 100 mil óbitos”, acrescentou em entrevista à Agência Reuters, divulgada na ultima terça (28).

O Brasil é hoje o segundo País mais afetado pela pandemia no mundo, com 2,4 milhões de casos e 87.618 mortes.

Para o pesquisador Christovam Barcellos, coordenador do Monitora Covid-19, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), as medidas adotadas por governadores e prefeitos não foram suficientes para fazer a curva da pandemia começar a cair. Não há “nenhum sinal de arrefecimento, de diminuição da transmissão, isso é muito preocupante”, disse. “Um cenário possível é repetir os Estados Unidos, que não é uma segunda onda, é uma onda em cima de outra onda. Subiu, estabilizou e subiu novamente. O cenário não é bom.”

O Brasil registrou, na semana passada, uma média de 45,6 mil novos casos de Covid por dia. Além disso, foram 1.096 óbitos por dia, na média. Já são seis semanas seguidas com mais de 1.000 mortes diárias em média.

Com informações da Reuters

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Dobra número de países com recorde diários de infecções por coronavírus na semana passada, provocando recuos nas quarentenas e restrições a viajantes de muitos países .


Por Cézar Xavier

Na sexta-feira (24), segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o mundo registrou quase 300 mil novos casos em um único dia, um recorde.

A alta foi puxada por Estados Unidos (67 mil), Índia (48 mil) e Brasil (48 mil), que responderam por quase a metade das novas infecções.

No mundo, já são mais de 16,6 milhões de casos confirmados de covid-19 e 655 mil mortes.


Há três semanas, países que relatam aumentos diários no coronavírus eram sete. Esse número subiu para 13 na semana seguinte, depois para 20 na semana passada e 37 nesta semana.

O número de casos vem aumentando em países como México, Austrália, Japão, Hong Kong, Bolívia, Sudão, Etiópia, Bulgária, Bélgica, Uzbequistão e Israel, entre outros.

No Brasil, o número de novas infecções por dia atingiu um pico de 45.665 no sábado, considerando a média dos sete dias anteriores. Na semana anterior, esse número era aproximadamente 30% menor, 33.573.

Muitos países, especialmente aqueles onde as autoridades flexibilizaram as regras de distanciamento social, estão enfrentando o que seria uma segunda onda de infecções, mais de um mês após registrar a primeira.

Subnotificação

Especialistas dizem acreditar que o número verdadeiro de casos confirmados e mortes é muito maior, principalmente devido à subnotificação.

No caso brasileiro, eles afirmam que a falta de testagem em massa impede que esses números sejam conhecidos, além de atrapalhar a formulação de políticas públicas.

Sem a realização de testes em larga escala, infectados que não tenham sintomas, os chamados “assintomáticos”, podem continuar espalhando o vírus, dificultando seu controle.

Os Estados Unidos continuam no topo da lista de casos. O país superou 4 milhões de casos e registrou mais de mil mortes por quatro dias consecutivos. O Brasil e a Índia – que , segundo epidemiologistas, ainda não atingiram o pico da doença – também já superaram 1 milhão de casos.

Apenas a América Latina responde agora por 45% das mortes por covid-19 em todo o mundo.

Em vários países, após a flexibilização da quarentena, com o aumento de casos, voltaram a enrijecer o confinamento e exigir uso de máscara. Outros passaram a restringir acesso de viajantes de outros países. O recuo é observado em cidades da Austrália e Alemanha.

Na Europa como um todo, a maior circulação de turistas por causa das férias de verão também acendeu o alerta entre as autoridades de saúde. Reconfinamentos e restrições estão ocorrendo em regiões praianas da Espanha. Restrições a viajantes que vêm de países onde a pandemia está descontrolada ocorrem no Reino Unido, Noruega, Bélgica, Itália e França.

Já a Alemanha informou que implementará testes obrigatórios para turistas que retornam de destinos de alto risco após as infecções atingirem um recorde em dois meses.

A maior preocupação é o contágio entre os jovens, uma vez que eles se reúnem à noite em grandes grupos nas cidades, em praias e casas noturnas.

Segundo a prefeita da Cidade do México, Claudia Sheinbaum, os níveis de hospitalização até outubro podem exceder os registrados em junho, o auge da pandemia.

O presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta, que anunciou a retomada dos voos internacionais em 1º de agosto, convocou autoridades para uma reunião de emergência nesta segunda-feira para discutir o aumento de casos.

No Oriente Médio, Omã impôs novas restrições que começaram no sábado, além de um confinamento de duas semanas que coincidirá com a festa sagrada de Eid al-Adha, depois de relatar um número recorde de casos.

Abaixo, tabela com os países que reúnem a maior parte dos casos diários de contágio, na última sexta-feira (24), com as pioras em vermelho, estabilidade em amarelo e quedas em verde:





segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Plano de “modernizar” SUS preocupa Conselho Nacional de Saúde

Nota ressalta que “modernizar” o sistema não pode ser pretexto para abrir as portas aos setores privados.


O Conselho Nacional de Saúde (CNS) divulgou nesta terça-feira (28) nota em que manifesta preocupação sobre o anúncio feito pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) de que um grupo de parlamentares vai preparar um texto pelo fortalecimento e pela modernização do Sistema Único de Saúde (SUS).

Maia deu a declaração na última sexta-feira (24), em entrevista à Rádio Eldorado. No comunicado, o conselho diz que é “inadmissível” qualquer proposta de mudanças no SUS sem participação do órgão, constitucionalmente a instância máxima de deliberação, monitoramento e fiscalização do sistema.

A nota ressalta também que “modernizar” o sistema “não pode ser um pretexto para abrir as portas aos setores privados, citados pelo presidente da Câmara como interlocutores da referida proposta, interessados na posse de bens públicos”.

O CNS questiona ainda a intenção de Maia em fazer avançar alterações no SUS em plena pandemia. “Vivemos hoje uma grave crise sanitária, social, política, humanitária e econômica. Será este o momento mais adequado para debater um projeto de lei do gênero, ainda mais alijando a participação social e popular e importantes setores do parlamento desse processo?”, diz a nota.

Confira a íntegra do documento:

Constitucionalmente, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) é a instância máxima de deliberação, monitoramento e fiscalização do Sistema Único de Saúde (SUS). Conforme rege a Lei nº 8.142/1990, somos responsáveis pela formulação de estratégias para a saúde pública e pelo controle da execução da política de saúde, inclusive nos aspectos econômicos e financeiros. Uma rede que envolve mais de cem mil conselheiras e conselheiros pelo país, eleitas e eleitos democraticamente. Nesse sentido, é inadmissível que qualquer proposta referente a mudanças no SUS, oriunda do Legislativo ou qualquer outro espaço, seja arquitetada sem participação do controle social na saúde.

O anúncio, na última semana, sobre uma suposta “modernização” no SUS, feito pelo presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia, nos preocupou. Ainda mais por não garantir o debate amplo com segmentos fundamentais no Congresso Nacional como a Comissão de Seguridade Social e Família, as Frentes Parlamentares da Saúde e a Comissão Externa sobre Coronavírus, espaços que podem enriquecer e aprimorar qualquer projeto de lei na área junto à sociedade civil e à comunidade científica.

As bases do SUS e do CNS estão consolidadas na Constituição Federal e nas legislações pertinentes. A relevância do controle social é inquestionável, sendo referendada na atuação dos Conselhos de Saúde nas três esferas da República e nas deliberações das Conferências de Saúde. A última, a 16ª Conferência Nacional de Saúde (8ª+8), realizada em agosto de 2019, construiu e aprovou 31 diretrizes e 329 propostas ao SUS, oriundas de todos os estados, em um dos maiores processos participativos que já existiram no Brasil.

O SUS é uma conquista histórica. Um patrimônio diretamente vinculado às lutas dos movimentos sociais e populares pela Saúde integral como direito inalienável a qualquer pessoa no país. “Modernizá-lo” não pode ser um pretexto para abrir as portas aos setores privados, citados pelo presidente da Câmara como interlocutores da referida proposta, interessados na posse de bens públicos. Vivemos hoje uma grave crise sanitária, social, política, humanitária e econômica. Será este o momento mais adequado para debater um projeto de lei do gênero, ainda mais alijando a participação social e popular e importantes setores do parlamento desse processo?

Temos mantido intenso diálogo com o Congresso Nacional através das lideranças de bancadas, Comissões e Frentes Parlamentares, participando de audiências públicas, seminários e debates, contribuindo com o aperfeiçoamento das políticas de saúde do país. Por isso, continuaremos firmes no propósito de defender e garantir o nosso sistema público, de acesso universal, com integralidade e equidade para todos e todas. A participação do CNS nos debates sobre os rumos do SUS e da saúde em nosso país deve ser considerada impreterivelmente, em qualquer hipótese, para o bem do Brasil e da nossa democracia. Estamos à disposição do Congresso Nacional e da sociedade brasileira para continuarmos a defender e a reafirmar a importância do SUS para o nosso país.

Conselho Nacional de Saúde.

sábado, 1 de agosto de 2020

Bolívia: golpe contra o país foi orquestrado pelos Estados Unidos

O ex-ministro das Relações Exteriores, David Choquehuanca denuncia que os Estados Unidos orquestraram o golpe que atingiu gravemente a saúde, a economia e a política da Bolívia.


David Choquehuanca, ex-ministro das Relações Exteriores da Bolívia e atual candidato à vice-presidência l Foto: MRE
Por Leonardo Wexell Severo

Nesta entrevista exclusiva, o líder camponês e indígena David Choquehuanca, candidato à vice-presidência da Bolívia pelo Movimento Ao Socialismo – Instrumento Político para a Soberania dos Povos (MAS-IPSP) denuncia “o assalto ao lítio, recurso natural estratégico do qual o país tem a maior reserva do planeta, como o que está por detrás da deposição do presidente Evo Morales”. Chanceler do país andino de 2006 até 2019, o dirigente assevera que a ação militar e a fraude com a participação da Organização dos Estados Americanos (OEA) são dois lados da mesma moeda do “golpe planificado, financiado e orquestrado pelos Estados Unidos, que pôs a saúde, a economia e a política da Bolívia em estado de coma”. Diante do desastre que será herdado após as eleições, Choquehuanca defende que “o próximo governo deve ser um governo de unidade nacional”, para se combater a descolonização e voltar “a industrializar os nossos recursos naturais, de lhes dar valor agregado e redistribuir seus benefícios ao nosso povo”.

Qual a sua avaliação da grave crise que atravessa a Bolívia, dirigida por um governo que tomou o poder de assalto em novembro do ano passado?

Os bolivianos e bolivianas estamos vivendo dias de tristeza, de pranto e perseguição. Desde o golpe de Estado nada está bem, tudo anda mal. Nossa saúde está em estado de coma, não somente pela crise sanitária, mas a saúde econômica, a saúde política, a saúde social.

Para enfrentar a crise sanitária nos disseram que iriam comprar 500 respiradores que nunca chegaram. Apareceram somente 170 respiradores que não servem, que não funcionam e ainda foram superfaturados. Nos informaram que cada um deles custaria US$ 8 mil (R$ 41.700) colocados na Bolívia, pelos quais pagaram US$ 28 mil (R$ 146 mil). É muita corrupção! Estamos falando de quase 70 casos de corrupção nestes poucos meses, e são inúmeros os exemplos. Máscaras que custam no mercado entre 9 e 13 bolivianos (R$ 6,50 e R$ 10,00) foram compradas por 80 bolivianos (R$ 60,00). Não há equipamentos de biossegurança nem testes suficientes, nem reativos para o coronavírus.

“A quarentena está sendo utilizada para desatar uma campanha de terror, de amedrontamento, para calar a liberdade de expressão e os líderes”

A quarentena está sendo utilizada para desatar uma campanha de terror, para desatar uma campanha de amedrontamento, para calar a liberdade de expressão, para perseguir os líderes, para meter medo. Há muita corrupção. Há muita improvisação.

E o que se pode fazer para combater esta pandemia que também ataca a democracia, como estás denunciando?

O que o povo está fazendo é se auto-organizar. Estamos nos organizando com a participação das associações comunitárias e dos movimentos sociais porque sabemos que não interessa ao governo atual a saúde, não interessa a democracia, os recursos naturais e o fortalecimento das nossas empresas estratégicas.

Diante disso, o que o povo boliviano está fazendo é se auto-organizar. Há um processo de despertar de consciência, de despertar dos bairros e das comunidades. Esta crise está permitindo o surgimento de novas lideranças, de novos atores e é bem importante que possam trabalhar junto, que tenham amor ao seu povo, que tenham amor à sua Pátria, que tenham compromisso com a justiça social, com a saúde do povo boliviano.

Acredito que este momento sombrio de incertezas e de corrupção também é uma oportunidade para refletir, gerar propostas, encarar esta crise conjuntamente, superando todos os erros que tenhamos cometidos no passado.

Em seu diálogo com os bolivianos está sempre presente a cultura da unidade contra a divisão praticada pelas elites, que servem aos interesses das transnacionais e do FMI. Como romper com a lógica da dependência?

Esta crise está sendo vivida não somente pelos bolivianos, mas por irmãos de todo o continente e de todo o mundo. Então é hora de trabalhar de forma conjunta problemas que são globais. Nenhum país tem a capacidade de enfrentar de forma isolada problemas gerados por este modelo de desenvolvimento capitalista ocidental. E hoje vivemos as consequências da sua aplicação: pobreza e crise.

“O colonialismo não se construiu somente na Bolívia e se fez para nos humilhar, marginalizar, esmagar, pisotear, dividir, para saquear nossos recursos naturais”

Quando chegamos ao poder começamos um processo de desmontagem deste Estado colonial que nos trouxe tanto mal. O colonialismo não se construiu somente na Bolívia e se fez para nos humilhar, marginalizar, esmagar, pisotear, dividir, para saquear nossos recursos naturais. Esse colonialismo foi construído durante 500 anos e nós decidimos desmontá-lo. Decidimos construir o que é nosso, com pensamento próprio, com pensamento descolonizador. Por isso falamos de processo de mudanças, porque queremos transformar, construir uma nova Bolívia, uma nova vida, uma nova sociedade. E construir novamente a integração, a unidade, a liberdade, fortalecer nossa soberania.

E quando estamos falando em construir a integração, a unidade e a irmandade, não me refiro somente aos seres humanos. Buscamos voltar a ser este ser humano integral, parte da natureza. Pensar não somente em nós mesmos, mas em tudo o que existe. Por isso dizemos que é bem importante voltar a ser Jiwasa, que frente à crise global do capitalismo, é preciso recolher outros valores e princípios, aos que resistiram durante 500 anos. Estamos falando de Jiwasa, que é um código, um princípio que nossos avós preservaram, que são as culturas milenares. Não sou eu, somos nós. Jiwasa é a morte do egocentrismo e do antropocentrismo, pensar na cultura da vida, da unidade, da paz, da irmandade e da harmonia.

O que estás defendendo se contrapõe frontalmente à declaração de Elon Musk, o CEO da Tesla, do “golpearemos a quem queiramos”, que assumiu sua intervenção recentemente na Bolívia. Como avalias isso?

Assim pensam eles. Todos os países que possuímos recursos naturais corremos o risco de receber a intervenção destas transnacionais. O mundo foi infectado pela cobiça, não só pelo coronavírus, mas pela ambição pessoal e pelo individualismo. Estas transnacionais não pensam na vida, não pensam em nossos povos.  As declarações deste senhor mostram que o golpe foi planificado, financiado e orquestrado pelos Estados Unidos. Este golpe não foi só contra a nossa democracia, mas contra todo o nosso continente, foi dirigido contra esse processo de mudanças que denominamos Revolução Cultural e Democrática. O golpe foi dirigido contra o processo de descolonização, contra a decisão de industrializar nós mesmos nossos recursos naturais, de lhes dar valor agregado, de redistribuir seus benefícios para toda a população. O golpe foi à luta contra a pobreza. Estávamos num processo de ataque sistemático para que não houvesse pobres, com resultados conhecidos pela comunidade internacional. Mas não só o senhor Elon Musk nos mostrou que este golpe foi financiado, também Richard Black [senador republicano] admitiu que Trump promoveu o golpe.

“Estão atrás dos nossos recursos. No caso do lítio, a Bolívia possui a maior reserva deste recurso estratégico energético do planeta. Para isso precisam nos esquartejar”

Ou seja, são interesses das transacionais que estão atrás dos nossos recursos. No caso do lítio, a Bolívia possui a maior parte deste recurso estratégico energético do planeta. Não querem que nossos povos manejem seus recursos estratégicos, e para isso precisam nos dividir e esquartejar. Utilizam para isso organismos internacionais e não faltam quem se preste a esses interesses obscuros, neste caso a esses interesses brancos.

O senhor Luis Almagro [secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA)], por exemplo, tem sido o principal operador do golpe. Ocorreram quase 40 mortes, há muitos presos e estamos vendo as consequências do golpe de Estado. Há muita fragilidade nas instituições e um processo de desinstitucionalização, mas o importante é que o povo boliviano saiba que este golpe veio de fora, não houve fraude. A fraude foi feita pela OEA, que danificou nossa democracia. Seguramente estes fatos não podem ficar impunes, temos que fazer algo.


E o que fazer agora para que ocorram eleições livres e limpas e que se respeitem os resultados? Como evitar que se cometa uma nova fraude como a realizada por Almagro, que atuou como agente desestabilizador?

É importante o acompanhamento da comunidade internacional e que nossos povos se organizem e construam a unidade; que a esquerda possa contribuir para a construção de uma só frente, da unidade com os movimentos sociais. É importante escutar os nossos povos, dialogar.

Os mineiros necessitam escutar os professores, os professores precisam escutar os médicos, os médicos precisam escutar os policiais, os policiais precisam escutar os artistas. As lideranças necessitam escutar suas comunidades e fazer o que nossos povos querem: a última palavra deve ser a dos nossos povos, que são sábios. Dizem que a voz do povo é a voz de Deus, é construir unidade, é construir compromisso com a comunidade. É deixar de lado os interesses pessoais ou setoriais, é deixar de lado inclusive os interesses partidários e nos colocar a serviço dos nossos povos.

É hora de pensar no país e tomar decisões não somente em função do poder político, econômico ou cultural. Temos que acreditar em nossos povos. Os líderes têm que acreditar no povo, escutar os seus povos. Só assim vamos superar qualquer crise, venha de onde vier. Não somente temos que nos organizar para participar das eleições. Os sujeitos da construção, da irmandade, do fortalecimento das nossas democracias, os sujeitos que queiram construir nossa democracia, proteger nossos recursos naturais, têm que ser o povo. Neste caso, os mineiros, os aimarás, os quéchuas, os operários, o povo trabalhador.

Não devemos deixar a condução de um país somente nas mãos de burocratas. As decisões políticas têm que ser adotadas com a participação de todos e todas, de todos os movimentos sociais, do povo. Logo virão os burocratas, mas para levar adiante as decisões que tenham sido tomadas com plena participação dos nossos povos.

Há muitas denúncias de que o governo de Jeanine Áñez tem instrumentalizado os meios de comunicação e silenciado os que não se submetem à sua política. O que está ocorrendo?

É importante fortalecer o direito de acesso à informação. Muitos dos meios de comunicação foram cúmplices do golpe de Estado, outros perseguidos, manipulados ou calados. É necessário que a mídia fale a verdade. Hoje os meios não informam, fazem publicidade, e isso é decepcionante e triste. Uns poucos resistem e jogam o seu papel, como a Telesul, que foram fechados no país. Porque este é um governo que persegue a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa. Querem prender e amedrontar. Em nosso código temos uma palavra que significa obrigação de dialogar, obrigação de comunicarmos, necessitamos ter um povo informado.

Com o Arce como ministro da economia, a Bolívia foi durante vários anos o país com maior crescimento do PIB da América Latina, baseado fundamentalmente no desenvolvimento do mercado interno. Como seu vice-presidente, o que fazer para seguir esse caminho e aprofundar o modelo de mais salário, empregos e direitos, tendo consciência de que vão herdar um país devastado e em meio a uma pandemia?

Primeiro precisamos nos organizar e ganhar as eleições. Depois governar sem revanchismo, convocando todos os bolivianos. O próximo governo deve ser um governo de unidade nacional, de reconciliação, de concertação. O país que vamos herdar estará um desastre, não somente pela situação interna, mas pela externa.

“Nosso governo deve ser um governo de unidade nacional, de reconciliação, de concertação, pois o país que vamos herdar estará um desastre, não somente pela situação interna como externa”

Dizem que a próxima pandemia se chamará “pandemia da fome” e os organismos internacionais responsáveis por esses dados falam que morrerão diariamente 300 mil pessoas devido à fome. Será um desafio não só para os bolivianos, mas para o mundo.

Juntos teremos que enfrentar qualquer situação de crise, somente assim poderemos recuperar a estabilidade econômica. Necessitamos um modelo de Estados fortes, como tem dito a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e afirmado vários outros organismos. Agora, mais do que nunca, precisamos de Estados fortes para enfrentar qualquer crise depois da pandemia.


O MAS-IPSP investiu recursos no fortalecimento do Estado, na formação e na capacitação, medidas que foram sendo desmanteladas pelo atual governo. Por onde recomeçar?

A Bolívia está estancada. Necessitamos colocar nosso Estado em movimento, colocar o nosso país e nossa nação em movimento, e para isso precisamos de um amplo acordo entre todos os bolivianos, priorizar e identificar ações conjuntas.

A agricultura é um ponto que necessita atenção, para garantir a alimentação da população. Em segundo lugar, precisamos de investimento na educação. Claro que vamos continuar construindo rodovias, investindo na infraestrutura, completando tudo o que já estava se fazendo para integrar o país. E também precisamos investir no comércio exterior. Tudo deve ser feito em função dos interesses dos bolivianos. Precisamos estar orientados fundamentalmente pela cultura da vida, da unidade e da integração. Necessitamos construir esperanças e certezas.

Uma mensagem a esses mais de 200 mil bolivianos que vivem no Brasil, 45 mil eleitores que garantiram mais de 70% dos votos no MAS nas últimas eleições.

Um dia os bolivianos e os brasileiros precisarão apagar nossas fronteiras. Um dia vamos ter que construir integração, unidade, para poder falar de igual para com a China, com a União Europeia ou qualquer um. Porque isolados não poderemos falar de igual para igual com outros continentes. Assim como necessitamos construir unidade na Bolívia, necessitamos construir irmandade no nosso continente. E lutar para garantir todos os direitos no continente, para nossos irmãos bolivianos que estão no Brasil e em outros lugares.

Tudo é para que possamos construir nossos sonhos, em nossa terra. Para que nós bolivianos possamos sair, entrar, decidir onde queremos viver. Porém em condições dignas, onde se respeitem nossos direitos trabalhistas, nossos direitos humanos. Por isso é importante a construção da unidade, da irmandade. E nós bolivianos vamos recuperar a nossa democracia, que hoje está em risco. Nossos recursos naturais, nossa educação, nossa saúde, nossas empresas  estão em risco.

Acredito que nós bolivianos, os que estão fora e os que estão aqui dentro, vamos recuperar o nosso caminho, retomar o processo de transformações e construir novamente a estabilidade e a irmandade. Um dia nossos povos e nós mesmos vamos nos governar. E nos governarmos é devolver às nossas organizações e às nossas comunidades a capacidade de resolver os problemas, e não esperar que outros os resolvam por nós.

Este processo é para despertar a energia comunal, para acreditar em nós mesmos, governar a nós mesmos, governar com leis feitas por nós mesmos, para defender o interesse da nossa pátria, da nossa nação. 

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