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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

FMI avalia que investimento público é crucial para enfrentar a crise

Organismo internacional argumenta que investimento privado está em baixa devido a incertezas e que governos devem tomar a dianteira.


Por Mariana Branco

No Portal Vermelho

O Fundo Monetário Internacional (FMI), organismo multilateral referência para as principais economias de mercado, defende que os governos precisam preparar a transição de suas economias para um mundo pós-Covid-19 e que os investimentos públicos terão um papel central nesse processo.

“Aumentar o investimento público em economias de mercado desenvolvidas e emergentes pode ajudar a reativar a atividade econômica após o mais intenso e profundo colapso da história contemporânea. Também pode criar milhões de empregos diretos no curto prazo e mais milhões indiretos em um período mais longo”, afirma texto publicado nesta quinta-feira (5) no blog do FMI, que faz referência a dados do Monitor Fiscal, relatório publicado na semana passada pelo órgão.

“Aumentar o investimento público o equivalente a 1% do PIB poderia fortalecer a confiança na retomada [econômica], aumentando o PIB em 2,7%, o investimento privado em 10% e o emprego em 1,2% caso os investimentos sejam de boa qualidade e o peso da dívida pública e privada não enfraqueçam a resposta do setor privado ao estímulo”, acrescenta o texto.

O FMI argumenta que, mesmo antes da pandemia, o investimento global estava enfraquecido há mais de uma década, “apesar das péssimas condições de estradas e pontes em algumas economias avançadas e de enormes necessidades de transporte, água potável, saneamento e outros na maioria das economias emergentes e em desenvolvimento”.

Agora, segundo o FMI, a necessidade de investimento é ainda maior e urgente em setores específicos. “O investimento é urgentemente necessário em setores críticos para controlar a pandemia, como saúde, escolas, construções e transportes seguros e infraestrutura digital”, defende o organismo internacional.

Segundo o órgão, as taxas de juros mais baixas em todo o mundo também indicam que é o momento certo de investir. O FMI ressalta, ainda, que como o investimento privado está em baixa devido às incertezas sobre a pandemia, cabe ao setor público exercer o papel de investir. Destaca também que isso pode ser feito com empréstimos de baixo custo.

“Há muita poupança, o setor privado está em modo de espera e muitas pessoas estão desempregadas e disponíveis para ocupar vagas de emprego criadas por meio de investimento público (…). Assim, em muitos países, esta é a hora certa para se comprometer com investimento público de alta qualidade em projetos prioritários, o que pode ser por meio de empréstimos a baixo custo.”

 

Segundo estimativa do FMI, o investimento público pode gerar de dois a oito empregos diretos para cada milhão de dólares gastos em infraestrutura tradicional. Tem potencial, ainda, para gerar de cinco a 14 empregos para cada milhão dispendido em pesquisa e desenvolvimento, energia verde e construções com eficiência energética.

Mas, de acordo com a avaliação do órgão, como a implementação de alguns projetos leva tempo, para garantir que empregos sejam gerados de imediato os países devem intensificar os investimentos em manutenção de infraestrutura, que dão um retorno mais rápido. “Este também é o momento de começar a revisar e reiniciar projetos promissores que sofreram atraso devido à crise”, afirma o FMI.

Países mais pobres

O organismo reconhece que, para alguns países, tomar empréstimo para investir pode ser “difícil” devido a condições financeiras “apertadas”. Mesmo nesses casos, afirma, o empréstimo pode compensar desde que os riscos de rolagem (riscos associados ao refinanciamento da dívida) e taxas de juros não aumentem muito e os governos escolham os projetos de investimento com sabedoria. Destaca, ainda, que os países mais pobres precisarão de suporte da comunidade internacional.

“O investimento em adaptação para a mudança climática é crítico, especialmente em países suscetíveis a enchentes e seca prolongada. Houve ajuda oficial disponível, mas os US$10 bilhões alocados em 2018 estão abaixo do investimento de US$ 25 bilhões necessários anualmente em economias de baixa renda, segundo as estimativas da equipe do FMI”, afirma o órgão.

Investimento público puxa o privado

Ainda de acordo com o FMI, o investimento público é importante porque sinaliza ao setor privado o compromisso do governo com o crescimento sustentável. Além disso, pode estimular o investimento privado de forma mais direta.

“Por exemplo, [no caso de] investimentos em comunicação digital, estrutura de transporte ou eletricidade, [isso] permite que novos negócios surjam. Da mesma forma, nossos resultados mostram que o investimento em saúde e outros serviços sociais estão associados a aumentos mensuráveis de investimento privado no horizonte de um ano”, diz o FMI.

No Brasil, não há plano claro para a retomada

No Brasil, não há um caminho claro nem pacote de estímulos robusto para a retomada econômica. O governo de Jair Bolsonaro chegou a lançar o Pró-Brasil, um programa para fomentar a economia por meio de investimentos públicos e privados.

No entanto, tem enfrentado dificuldades de encontrar recursos para financiá-lo, devido à rigidez do teto de gastos públicos. Na prática, o programa sofreu corte drástico de recursos – de R$ 150 bilhões iniciais para R$ 4 bilhões este ano – e o governo tem cortado o orçamento de outros ministérios para garantir o financiamento de obras. Na iniciativa mais recente, retirou R$ 1,4 bilhão do Ministério da Educação.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Uma onda de remarcação de preços está a caminho

 Quando se analisam as grandes categorias, o quadro é igualmente preocupante.  É possível que as quedas da renda e do emprego, apesar de substanciais, não segurem a onda de remarcações que vêm a caminho. O que poderá tornar mais complicado o quadro social.

Por Luis Nassif

No Jornal GGN

Pisei na bola, ao analisar a escalada dos preços a partir dos levantamentos do IPCA-15. Há um terremoto à frente, que aparece nítido no Índice de Preços ao Produtor, divulgado hoje pelo IBGE.

A escalada de preços já chegou aos fabricantes. Aqui no interior, conversei com fabricantes de panos de prato, que alertaram para uma explosão de preços do algodão e dos produtos finais por eles fabricados. Agora à tarde, uma conversa com vendedor de colchão confirmou o clima de alta generalizada.

Lembra um pouco a história do crack de 29 (guardadas as devidas proporções). Quando o clima chega na ponta, no pequeno vendedor, há que se prestar atenção ao processo.

Os dados do IBGE comprovam a alta de preços ao produtor de forma quase generalizada.

Aqui, o gráfico das maiores altas no índice de agosto, entre os grupos de produtos.

E, aqui, as elevações desde fevereiro de 2020.

Comparei com índices de exportação, mas não explica. Muitas dos produtos em alta não registraram aumentos expressivos nas exportações.

O que parece ocorrer é um impacto da desestruturação das cadeias produtivas, em alguns pontos os reflexos da alta do dólar, e um Ministro da Economia sem nenhuma noção de como administrar pressões inflacionárias.

Na Indústria de Transformação, as altas são generalizadas. Em agosto, o índice do setor subiu 3%. Mas a alta se disseminou por todos os setores.

De dezembro de 2019 para cá, apenas dois setores registraram queda de preços.

Em agosto houve alta nos 24 setores da indústria de transformação que entram na análise. De abril para cá, apenas 3 setores registraram queda – artefatos de couro, vestuário e fumo – contra 21 em alta.

Quando se analisam as grandes categorias, o quadro é igualmente preocupante.  É possível que as quedas da renda e do emprego, apesar de substanciais, não segurem a onda de remarcações que vêm a caminho. O que poderá tornar mais complicado o quadro social.

 

 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Deputados reafirmam compromisso com a democracia nos 32 anos da Constituição

Diante dos ataques do governo Bolsonaro à Carta Magna, deputados do PCdoB reforçam defesa dos direitos garantidos no texto de 1988.


Por Nathália Bignon

No Portal Vermelho

Nesta segunda-feira (5), dia em que a Constituição Brasileira completou 32 anos da sua promulgação, deputados do PCdoB reafirmaram seu compromisso com a democracia, com luta pela manutenção dos direitos da população.

Ao falar sobre os ataques do governo Bolsonaro ao texto constitucional, a líder da legenda, deputada Perpétua Almeida (AC), lembrou Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte de 1988. “O governo de plantão tenta desmontá-la, mas é nosso dever defendê-la. Como diria Ulysses Guimarães: “A democracia nos fez livres, a Constituição Federal consolidou isso. Quem trai a Constituição Federal trai a nação””, destacou a parlamentar em sua conta no Twitter.

O vice-líder da bancada, deputado Márcio Jerry (MA) reforçou a defesa da Carta Magna. “Temos lutado muito, Dr. Ulysses, para manter preservada e aperfeiçoada a nossa Constituição Cidadã. Tem uma gente aí querendo rasgá-la, mas não permitiremos”, afirmou parlamentar.

Vice-líder da Minoria, a deputa Alice Portugal (BA) lembrou que este é mais um dia de defesa da democracia e de luta contra “este governo fascista”. “A Constituição Federal é um marco histórico da redemocratização brasileira, ela se consolidou como um pacto pela democracia, pela reafirmação da soberania e pelos direitos do povo. Mas ela nunca foi tão atacada como tem sido neste governo. Bolsonaro, que defende a volta da ditadura, ataca todos os dias a democracia. Hoje é mais um dia de luta e resistência contra este presidente fascista e em defesa de um país livre, democrático e soberano”, afirmou.

O deputado Daniel Almeida (BA) também enfatizou a defesa da democracia. “O aniversário da promulgação da Constituição Federal é uma data de grande importância para aqueles que acreditam na democracia e lutam para defendê-la. Hoje celebramos essa data com a nossa luta em defesa dos direitos do povo e de um Estado cada vez mais democrático”, destacou.

Já o deputado Orlando Silva (SP) afirmou que defender a Constituição “é compromisso de luta contra o retrocesso civilizatório representado pelo governo Bolsonaro. Democracia e direitos, já!”, disse.

Conhecida como Constituição Cidadã, o documento rege todo o atual ordenamento jurídico brasileiro, sendo a sétima constituição do país e o sexto texto desde o estabelecimento da República. Marco para os direitos dos cidadãos brasileiros por garantir liberdades civis e os deveres do Estado, é também o principal símbolo da redemocratização.

 

Em 5 de outubro de 1988, sua promulgação foi marcada pelo discurso de Ulysses Guimarães: “A Constituição pretende ser a voz, a letra, a vontade política da sociedade rumo à mudança. Que a promulgação seja nosso grito: Muda para vencer! Muda, Brasil!”

Fonte: PCdoB na Câmara

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Centrais pedem a líderes no Congresso retorno do auxílio a R$ 600

 

Centrais sindicais entregaram documentos em defesa do auxílio no Congresso - Foto: André Oliveira

Sindicalistas entregaram manifesto em defesa do auxílio e documento do Dieese, indicando peso de mais de 90% na renda dos mais pobres.

Representantes das centrais sindicais estiveram no Congresso Nacional para pressionar pela votação da Medida Provisória (MP) 1000, com retorno do auxílio emergencial ao valor original, de R$ 600. A MP em questão foi enviada pelo governo federal com prorrogação do auxílio até dezembro de 2020, mas reduzindo o valor para R$ 300, a metade do original.

As centrais se reuniram e entregaram documento em defesa do auxílio de R$ 600 ao líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), ao líder do PP, Arthur Lira (AL), ao deputado Baleia Rossi (MDB-SP) e ao presidente em exercício da Casa, Marcos Pereira (Republicanos-SP).

Quando editada pelo Poder Executivo, uma medida provisória entra em vigor imediatamente e pode valer por até 120 dias, ou seja, quatro meses. Caso não seja votada pelo Congresso nesse prazo, caduca, perdendo o efeito. Para não enfrentar o desgaste da opinião pública pela redução do auxílio emergencial, a estratégia do governo Jair Bolsonaro e de aliados é trabalhar para que a MP não vá à votação. Assim, quando a medida caducar, na altura de dezembro, as parcelas já terão acabado.

No entanto, a oposição e outros grupos pressionam para que o Congresso discuta a matéria e vote a MP 1000, incluindo as centrais sindicais brasileiras, que lançaram campanha pelos R$ 600.

Na visita ao Congresso nesta terça (29), estiveram presentes integrantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT); da Força Sindical; da União Geral dos Trabalhadores (UGT); da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB); da Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST); da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), da Central Sindical e Popular Conlutas (CSP-Conlutas); da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB) e da Intersindical – Central da Classe Trabalhadora.

No documento entregue aos parlamentares (veja íntegra abaixo), as centrais argumentam que o corte do auxílio para R$ 300 “restringe ainda mais a capacidade de milhões de famílias enfrentarem as consequências da crise causada pela pandemia do coronavírus, em especial o desemprego e a perda de renda do trabalho. A redução do auxílio compromete gravemente a capacidade de as famílias garantirem alimentação, moradia, transporte e outros bens de consumo básicos”.

Peso superior a 90% no orçamento

O grupo também apresentou um documento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) com análise do cenário econômico para embasar a solicitação. Com bases em dados de julho da Pnad Covid, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Diesse argumenta que o auxílio de R$ 600 tinha peso superior a 90% nos orçamentos das faixas de renda de quem ganha até meio salário mínimo e até um salário mínimo.

“O valor atual do auxílio emergencial, defendido pelo movimento sindical e pelos movimentos sociais, é referenciado no custo da cesta básica nacional, pesquisada pelo Dieese e nos gastos básicos de um orçamento familiar, com taxas de água, luz, acesso à internet”, afirma a entidade.

Segundo o Dieese, a crise não terminou, e, para evitar o agravamento, são necessários tanto o auxílio no valor inicial, de R$ 600, quanto a manutenção do número de pessoas assistidas.

Adilson Araújo, presidente da CTB, uma das centrais presentes, defendeu que a população se junte à pressão para que o Congresso vote a MP 1000 e restaure o valor do auxílio emergencial. “Os efeitos sociais e econômicos do auxílio emergencial são notoriamente positivos, a crise seria muito mais profunda sem ele”, declarou.

Fonte – Portal Vermelho

sábado, 3 de outubro de 2020

Grilagem de terras indígenas se agrava no governo Bolsonaro, diz Cimi

 


Relatório evidencia alarmante aumento da violência contra povos indígenas no primeiro ano do governo fascista.

O Relatório “Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil – dados de 2019”, publicado anualmente pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário), reitera o retrato de uma realidade extremamente perversa e preocupante do Brasil indígena no primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro na Presidência do país. A intensificação das expropriações de terras indígenas, forjadas na invasão, na grilagem e no loteamento, consolida-se de forma rápida e agressiva em todo o território nacional, causando uma destruição inestimável.

Para além de materializar o reconhecimento de um direito originário, as terras indígenas são, comprovadamente, as áreas que mais protegem as matas e os seus ricos ecossistemas. Historicamente, a presença dos povos dentro de seus territórios faz com que eles funcionem como verdadeiras barreiras ao avanço do desmatamento e de outros processos de espoliação. No entanto, os dados de 2019 revelam que os povos e seus territórios tradicionais estão sendo, explicitamente, usurpados.

A “explosão” de incêndios criminosos que devastaram a Amazônia e o Cerrado em 2019, com ampla repercussão internacional, deve ser inserida nessa perspectiva mais ampla de esbulho dos territórios indígenas. Muitas vezes, as queimadas são parte essencial de um esquema criminoso de grilagem, em que a “limpeza” de extensas áreas de mata é feita para possibilitar a implantação de empreendimentos agropecuários, por exemplo. De modo resumido, assim funciona esta cadeia: os invasores desmatam, vendem as madeiras, tocam fogo na mata, iniciam as pastagens, cercam a área e, finalmente, com a área “limpa”, colocam gado e, posteriormente, plantam soja ou milho.

nfelizmente, as violências praticadas contra os povos indígenas fundamentam-se em um projeto de governo que pretende disponibilizar suas terras e os bens comuns nelas contidos aos empresários do agronegócio, da mineração e das madeireiras, dentre outros.

O Relatório aponta que, em 2019, houve o aumento de casos em 16 das 19 categorias de violência sistematizadas pela publicação. Chama especial atenção a intensificação de registros na categoria “invasões possessórias, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio” que, de 109 casos registrados em 2018, saltou para 256 casos em 2019.

Afinados com a realidade, esses dados explicitam uma tragédia sem precedentes no país: as terras indígenas estão sendo invadidas de modo ostensivo e pulverizado de Norte a Sul. Em alguns episódios descritos no Relatório, os próprios invasores mencionavam o nome do presidente da República, evidenciando que suas ações criminosas são incentivadas por aquele que deveria cumprir sua obrigação constitucional de proteger os territórios indígenas, patrimônio da União.

Também é lamentável notar que o aumento de casos quase dobrou, em comparação com 2018, em outras 5 categorias, para além de “invasões/exploração ilegal/danos”. É o que pode se constatar em: “conflitos territoriais”, que passou de 11 para 35 casos em 2019; “ameaça de morte”, que passou de 8 para 33; “ameaças várias”, que foi de 14 para 34 casos; lesões corporais dolosas”, que quase triplicou o número de registros, de 5 para 13; e “mortes por desassistência”, que de um total de 11, em 2018, foi para 31 casos, em 2019.

Violência contra o patrimônio

Em relação aos três tipos de “Violência contra o Patrimônio”, que formam o primeiro capítulo do Relatório, foram registrados os seguintes dados: omissão e morosidade na regularização de terras (829 casos); conflitos relativos a direitos territoriais (35 casos); e invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio (256 casos registrados); totalizando o registro de 1.120 casos de violências contra o patrimônio dos povos indígenas em 2019.

Cabe ressaltar que das 1.298 terras indígenas no Brasil, 829 (63%) apresentam alguma pendência do Estado para a finalização do seu processo demarcatório e o registro como território tradicional indígena na Secretaria do Patrimônio da União (SPU). Destas 829, um total de 536 terras (64%) não teve ainda nenhuma providência adotada pelo Estado.

Além de ter cumprido sua promessa de não demarcar um centímetro de terra indígena, o governo Bolsonaro, através do Ministério da Justiça, devolveu 27 processos de demarcação à Fundação Nacional do Índio (Funai), no primeiro semestre de 2019, para que fossem revistos. Esta ação, certamente, implica em maiores obstáculos, senão no próprio impedimento, ao cumprimento dos direitos constitucionais dos indígenas que reivindicam seus territórios ancestrais.

Como já mencionado, em 2019 houve o registro de 256 casos de “invasões possessórias, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio” em pelo menos 151 terras indígenas, de 143 povos, em 23 estados. Confirmando antecipação feita pelo Cimi, em setembro do ano passado, por ocasião do lançamento do seu relatório anterior, esses dados revelam uma realidade extremamente preocupante: somente no ano passado houve um aumento de 134,9% dos casos relacionados às invasões em comparação com os registrados em 2018. Isso representa mais que o dobro dos 109 casos registrados em 2018.

Uma análise mais minuciosa das fichas descritivas de cada um destes 256 casos revela que na maioria das situações de invasão/exploração/dano houve o registro de mais de um tipo de dano/conflito, totalizando 544 ocorrências.  Desse modo, é possível verificar um desdobramento dos 256 casos consolidados de acordo com as seguintes motivações:

208 para invasão;

89 para exploração ilegal de madeira/desmatamento;

39 para garimpo e exploração mineral;

37 para fazendas agropecuárias (gado, soja e milho);

31 para incêndios;

31 para pesca predatória;

30 para grilagem/loteamento ilegal;

25 para caça predatória;

25 para empreendimentos de infraestrutura (rodovia, ferrovia, energia elétrica);

14 para exploração ilegal de recursos (areia, mármore, piçarra, palmito);

7 para contaminação da água e/ou de alimentos por agrotóxicos;

5 para empreendimentos turísticos;

3 para rota para tráfico de drogas;

Cabe ainda ressaltar que estes 256 casos incluíram 107 ocorrências de danos ao meio ambiente (77) e danos ao patrimônio (30), denunciados pelos povos indígenas em suas terras.

Violência Contra a Pessoa

Invariavelmente, as violências praticadas contra os indígenas e suas comunidades estão associadas à disputa pela terra. Em relação ao segundo capítulo “Violência contra a Pessoa”, foram registrados os seguintes dados em 2019: abuso de poder (13); ameaça de morte (33); ameaças várias (34); assassinatos (113); homicídio culposo (20); lesões corporais dolosas (13); racismo e discriminação étnico cultural (16); tentativa de assassinato (24); e violência sexual (10); totalizando o registro de 276 casos de violência praticadas contra a pessoa indígena em 2019. Este total de registros é maior que o dobro do total registrado em 2018, que foi de 110.

O total de 113 registros de indígenas assassinados em 2019, de acordo com dados oficiais da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), é um pouco menor do que o total sistematizado em 2018, que foi de 135. Os dois estados que tiveram o maior número de assassinatos registrados foram Mato Grosso do Sul (40) e Roraima (26). Importante ressaltar que os dados fornecidos pela Sesai sobre “óbitos resultados de agressões” não permitem análises mais aprofundadas, porque não apresentam informações sobre a faixa etária e o povo das vítimas, e nem as circunstâncias destes assassinatos. Eles ainda estão sujeitos à revisão, o que significa que a quantidade de casos pode ser maior.

Infelizmente, constata-se que em 2019 a população indígena do Mato Grosso do Sul (2ª maior do país) continuou sendo alvo de constantes e violentos ataques, em que há até mesmo o registro de práticas de tortura, inclusive de crianças.

A enorme repercussão nacional e internacional do assassinato de Paulo Paulino Guajajara, a partir de uma emboscada feita por invasores na Terra Indígena Arariboia, no Maranhão, em novembro de 2019, expôs, mais uma vez, que a situação de tensão naquele estado atinge níveis alarmantes. Invadidos e saqueados há décadas, os territórios tradicionais do Maranhão refletem uma realidade que se espalha e se agrava em todo o país.

Violência por Omissão do Poder Público

Houve um aumento de registros em todas as categorias deste terceiro capítulo, sendo que o total registrado de casos de “violência por omissão do poder público” foi de 267 casos.

Com base na Lei de Acesso à Informação, o Cimi obteve da Sesai dados parciais de suicídio e mortalidade na infância indígena. Foram registrados 133 suicídios em todo o país em 2019; 32 a mais que os casos registrados em 2018. Os estados do Amazonas (59) e Mato Grosso do Sul (34) foram os que registraram as maiores quantidades de ocorrências.

Também houve aumento nos registros de “mortalidade na infância” (crianças de 0 a 5 anos), que saltaram de 591, em 2018, para 825 em 2019. Chamam atenção os registros de 248 casos no Amazonas, 133 em Roraima e 100 no Mato Grosso. Assim como os dados de assassinato, as informações da Sesai sobre os registros relativos a suicídio e mortalidade na infância são parciais e estão sujeitos a atualizações. Ou seja, estes dados podem vir a ser ainda mais graves.

Os registros nas outras categorias deste capítulo em 2019 foram: desassistência geral (65); desassistência na área de educação escolar indígena (66); desassistência na área de saúde (85); disseminação de bebida alcóolica e outras drogas (20); e morte por desassistência à saúde (31).

Plataforma Caci

A plataforma Caci, mapa digital que reúne as informações sobre os assassinatos de indígenas no Brasil, foi atualizada com os dados sistematizados pelo novo Relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil. A palavra Caci significa “dor” em Guarani e também serve de sigla para Cartografia de Ataques Contra Indígenas. Com a inclusão dos dados de 2019, a plataforma agora abrange informações georreferenciadas sobre 1.193 assassinatos de indígenas, reunindo casos compilados desde 1985.

Fonte: Cimi

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Candidaturas femininas crescem, mas ainda são 34% do total; candidaturas negras são maioria no País

 


O Norte é a região com maior percentual de mulheres negras concorrendo aos cargos, com 76%. Em seguida vem o Nordeste, com 68%

Por Jornal GGN

Por Flávia Bozza Martins, Maria Martha Bruno e Marília Ferrari*

Após o encerramento do prazo para a inscrição de candidatos nas eleições municipais de 2020, no sábado (26 de setembro), os números do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam um panorama pouco promissor em relação à igualdade de gênero: a quantidade de candidaturas de mulheres para as prefeituras aumentou apenas 0,1% em relação a 2016, ano das últimas eleições municipais. Em relação às candidaturas para as câmaras municipais, o aumento foi de apenas 1,3%. Elas são quase 180 mil candidatas e representam 34% do total de postulantes para ambos os cargos.

O estado com maior percentual de candidatas é Roraima (35,5%), onde também houve o maior aumento na quantidade de candidatas na comparação com 2016: 11%. Pernambuco é o estado com menor proporção de candidatas (32%) e na Paraíba foi onde a variação foi a menor, na comparação com as últimas eleições: um aumento de apenas 1,36% na quantidade de candidaturas de mulheres.

Os negros são 270 mil candidatos a prefeitos e vereadores, aumento de 2,08% em relação a 2016. Apesar da pequena variação, a quantidade de negros superou a de brancos: 50% versus 48%. Isso não aconteceu em 2016, quando brancos eram maioria (51,5%). O Norte é a região com maior percentual de mulheres negras concorrendo aos cargos, com 76%. Em seguida vem o Nordeste, com 68%.

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Quino, o criador da Mafalda, morreu

 

Quino e sua incomparável Mafalda

Um dos mais importantes artistas gráficos da história e criador de uma das personagens mais queridas das histórias em quadrinhos.

O artista gráfico Joaquín Salvador Lavado, universalmente conhecido como Quino , faleceu aos 88 anos . Alcançou a fama por seus quadrinhos e por sua personagem mundial mais conhecida: a pequena Mafalda .

“Quino morreu. Todas as pessoas boas do país e do mundo ficarão de luto por ele”, relatou o editor Daniel Divinsky, que estava à frente das Ediciones La Flor.

Filho de imigrantes andaluzes, Joaquín Salvador Lavado nasceu na cidade de Mendoza em 17 de julho (embora os registros oficiais indiquem que ele nasceu em 17 de agosto). Desde seu nascimento ele foi chamado de Quino para distingui-lo de seu tio Joaquín Tejón , pintor e designer gráfico.

Aos treze anos se matriculou na Escola de Belas Artes, mas em 1949 abandonou essa carreira “cansado de desenhar ânforas e gessos”. Desde então iniciou sua carreira como cartunista e humorista e aos 18 anos mudou-se para Buenos Aires. Em 1954 ele publicou sua primeira tira no semanário “This is”.

Em 1963 surge o seu primeiro livro de humor, “Mundo Quino” e em 1964 a revista Primera Plana apresenta a banda desenhada Mafalda na sociedade. A menina de ideias progressistas e seus amigos tornaram-se um símbolo dos anos 60 na Argentina e sua fama alcançou todo o mundo ibero-americano.

Ao longo de sua carreira, recebeu prêmios como a Ordem Oficial da Legião de Honra, a mais importante homenagem que o governo francês concede a um estrangeiro. Em 2014 recebeu na Espanha o Prêmio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades e inaugurou a 40ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires.

Em uma extensa entrevista que concedeu ao jornal Página12 em 2004, Quino explicou sobre o que são suas tiras e por que continuou desenhando: “Sobre a relação entre os fracos e os poderosos. Isso sempre me assombrou. Essa sensação de impotência que eles têm. os pobres contra os ricos, os recados contra os mestres, sei lá, às vezes acho que devia parar de desenhar um pouco, para não sentir angústia nem medo de me repetir. Mas quando penso que vou abrir o jornal e meus desenhos não vão mais lá, me dá mais angústia e eu continuo desenhando. Ele é como aquele chefe de estação que se aposenta, mas volta todos os dias para ver se os trens estão no horário. Não imagino ficar esperando os trens passarem. Além disso, na minha profissão não há trens. “

Fonte: Pagina12

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