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sábado, 8 de junho de 2019

Maria Thereza Goulart e a história brasileira: amor, perseguição, poder, justiça

Biografia da viúva do presidente João Goulart mostra aspectos menos conhecidos de um período turbulento da história do país, do ponto de vista de uma mulher discreta e determinada.

Maria Thereza, feliz, com os filhos João Vicente e Denize. E causando polêmica ao entrar na igreja com Avelar, no dia do casamento do motorista de Jango. "Queria fazer justiça", diz biógrafo, que trabalhou 12 anos no livro.
Publicado por Vitor Nuzzi, da RBA

São Paulo – Maria Thereza era uma adolescente criada na fazenda quando, em 11 de dezembro de 1950, recebeu a missão de entregar um envelope a um dos mais conhecidos moradores de São Borja: João Goulart, mais conhecido como Jango, 17 anos mais velho. “Simpático, sorridente e bonito”, contou às amigas, que esperavam pelo relato. Em um diário, guardou para si a impressão de ter visto também um menino mimado. Começa assim a narrativa de Uma Mulher Vestida de Silêncio – A Biografia de Maria Thereza Goulart (Record), escrita pelo jornalista Wagner William. Obra de quase 650 páginas que narra a trajetória de uma mulher que viveu de perto o poder e a perseguição, o amor e a solidão, em um dos períodos políticos mais turbulentos da história brasileira.

João e Maria casaram-se em abril de 1955. Ficaram juntos até 6 de dezembro de 1976, data da morte do ex-presidente, no interior de Argentina. Nesse intervalo de duas décadas, um golpe tirou Jango do poder e desestruturou a família. Em 1964, o casal tinha dois filhos: João Vicente, nascido em 1956, e Denize, que veio no ano seguinte. Tiveram de sair às pressas do Brasil. Maria Thereza e as crianças, ainda sem o pai, chegaram ao Uruguai em 3 de abril. A menina queria saber se lá tinha banana e o garoto, de que cor era aquele país. “Não sei, filho. Acho que é azul.”

Em apenas dois dias, ela saíra com os filhos de Brasília para Porto Alegre, da capital gaúcha para São Borja e de lá para o Uruguai, tendo como primeiro destino uma casa isolada em Solymar, uma cidade litorânea. Maria Thereza chegou a apelar para uma vizinha, que não conhecia, para pedir comida, que entregou biscoitos, doces e leite. Trazia apenas uma mala – e não 19, como se chegou a dizer, em uma das várias maledicências de que foi alvo. Com pesquisa, Wagner William encontrou reportagem do jornal uruguaio La Mañana, em 4 de abril de 1964, mostrando a chegada da família em um pequeno avião, que jamais comportaria tamanha bagagem.

Outra “notícia”, esta bem mais grave, punha a primeira-dama em suspeita da morte do marido, com suposto uso do letal gás sarin. “Quem checa?”, questiona o autor, que na última quarta-feira (29) participou de debate na sede Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, ao lado do psicanalista e escritor Jacob Pinheiro Goldberg, autor de um texto de apresentação do livro. Na plateia, Eugenia Zerbini, filha da advogada Therezinha, ativista de direitos humanos, e do general Euryale Zerbini, cassado por se opor ao golpe.

Sempre contextualizada, a obra é recheada de histórias íntimas do casal, mostrando, por exemplo, que Jango cochilou durante uma sessão do filme E o Vento Levou, para indignação de Maria Thereza, a quem alegou cansaço. Ou quando, já no Uruguai, ela se surpreendeu vendo o marido colocar terra na boca – ele procurava um lugar para plantar arroz e queria testar a acidez do terreno. No Vaticano, os pais ficaram constrangidos porque, em plena audiência com o Papa João XXIII, em 1959, o pequeno João Vicente precisou ir ao banheiro, levado com urgência pelo assessor de imprensa do então vice-presidente, Raul Ryff. Outra história saborosa é a do presente que Maria Thereza recebe de Frank Sinatra: uma carta e discos do cantor norte-americano. Ela não conteve o entusiasmo e acabou interrompendo uma reunião do presidente com alguns de seus ministros.

Renúncia e crises
Jango já tinha sido deputado, secretário estadual e ministro do Trabalho, sempre pelo PTB de Getúlio Vargas. Vice de Juscelino Kubitschek em 1955, foi reeleito vice em 1960, em uma época de votações separada para vice e para presidente – o eleito foi Jânio Quadros (PDC). Mas a relativa tranquilidade estava prestes a acabar. Em agosto de 1961, Jango cumpria visita oficial na China e Maria Thereza estava com as crianças na França, como hóspedes comuns. Até a manhã do dia 26, quando ela chegou para o café da manhã, de biquíni e saída de praia, e foi aplaudida ao entrar no restaurante. Só entendeu quando o dono do hotel a avisou que ela era a nova primeira-dama do Brasil. No dia anterior, Jânio havia renunciado. Mas Jango, mesmo sendo o vice constitucional, enfrentou um veto militar e só pôde assumir depois de uma improvisada “solução” parlamentarista.

O jornalista retrata vários momentos tensos do governo Jango, como o Comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março, a menos de um mês do golpe. O cardiologista Euryclides de Jesus Zerbini pediu a Jango que adiasse o evento, por causa de suas condições de saúde. O presidente disse que era “questão de honra” comparecer. Ali, ele anunciaria várias das reformas de base. Havia também boatos sobre um atentado. Tamanho clima fez Maria Thereza esquecer seu pânico da multidão e decidir comparecer, para ficar ao lado do marido no palanque, em imagem que ficaria para a posteridade e está na capa do livro. Às pressas, ela comprou um vestido azul-turquesa na loja My Fair. Mas avisou o estilista Dener, precursor da moda no Brasil, de quem foi amiga próxima. Ele só ficou tranquilo quando soube que não era marrom e, sem saber da escolha da primeira-dama, sugeriu justamente a cor azul-turquesa.

Durante o debate, Wagner William chama a atenção para esse momento, que considera simbólico: pela primeira vez, uma mulher está presente no palanque de um grande comício no país. Maria Thereza era uma mulher discreta, mas decidida. Dirigia muito bem e sabia atirar. Ela também ocupou a presidência da Legião Brasileira de Assistência (LBA), mas deixou o cargo por não querer ser apenas um “ornamento”.

A beleza de Maria Thereza sempre foi um prato cheio para a mídia. O autor da biografia conta que ela foi um foi um dos primeiros alvos da “onda paparazzi” no Brasil, retratada no filme A Doce Vida, de Federico Fellini. Também estampou capas de revista. Recebeu elogios além da conta do príncipe Philip, marido da rainha Elizabeth, e principalmente do presidente da extinta Iugoslávia Josip Broz, o Tito.

Longe das câmeras, havia uma mulher zelosa com a família e pés no chão – ao contrário do Jango, nunca contou com o retorno ao Brasil. Viveu momentos felizes e amargos no exílio. Foi presa algumas vezes, e em uma dessas ocasiões foi obrigada a tirar a roupa. O jornalista revela poemas escritos por Maria Thereza, reveladores de seu estado de espírito: “Ando buscando el amigo/ Porque estoy sola/ Y tengo ganas de llorar“.

Os capítulos do livro – resultado de um trabalho de 12 anos e mais de uma centena de entrevistas – fazem menção a canções da música popular brasileira. “Na época que Maria Thereza considera a mais feliz de sua vida, com dois filhos pequenos em Copacabana, a trilha sonora do Brasil era a Bossa Nova. Tom Jobim ‘ficava na minha orelha, cantando sem parar’ enquanto eu escrevia. Usei isso em um capítulo, conforme ia escrevendo e as épocas iam mudando, mudava também as ‘músicas que tocavam em minha cabeça’. Decidi então nomear quase todos os capítulos com trechos das dessas canções”, explica o autor. Um bom exercício é procurar trechos de música “escondidos” nas páginas de Uma Mulher Vestida de Silêncio, panorama da história do Brasil pela ótica de um mulher que, assim como seu marido, passou muito tempo excluída das narrativas oficiais.

Isso ajuda a entender a escolha de Wagner William, de 50 anos, por seus personagens – ele já havia publicado, em 2005, O Soldado Absoluto, sobre o marechal Henrique Teixeira Lott. “Eu queria fazer justiça ao Lott, queria fazer justiça à dona Maria Thereza. A principal motivação é fazer justiça.”

Você diz que um dos principais objetivos, com o livro, é fazer justiça. Maria Thereza, assim como Jango, ainda não têm seu devido lugar na História brasileira?
Acredito que eles estejam no lugar “errado” na História. Sobre Jango, repete-se a ladainha de presidente fraco e inepto. Mas qual foi o único presidente a assinar e seguir em frente com as reformas? É fácil explicar essa desvalorização do governo Jango: a ditadura precisava justificar sua chegada ao poder. Nada mais óbvio que desclassificar seu antecessor. Vinte anos depois, o que entregaram aos brasileiros?

Seu livro também faz críticas ao comportamento da imprensa, não apenas na ditadura. Há “fatos” que não resistiriam a uma checagem básica, como as tais 19 malas e o gás sarin. Por que isso não foi feito?
Não posso dizer exatamente por que essa checagem não foi feita, mas é  possível pensar numa “continuação” da tática da ditadura de desvalorizar o governo Jango. Quanto mais se atacar Jango ou pessoas ou políticos ligados a ele, melhor para o discurso histórico que se seguiu até recentemente, quando até grandes meios de comunicação do Brasil reconheceram que o apoio ao golpe foi um erro.

A introspecção parece ser uma característica de Maria Thereza. Você teve, pela informação contida no final do livro, 18 encontros com ela. Como foram esses contatos?
As entrevistas eram normais. Claro que, durante esse longo trajeto de 12 anos, houve alguns problemas e interrupções, algumas até propositais, quando, por exemplo, se fez o exame dos restos mortais do presidente. O resultado poderia mudar minha linha narrativa. (Em 2013, o corpo de Jango foi exumado e passou por análises para apurar um possível envenenamento por agentes a serviço da ditadura. O resultado da perícia foi inconclusivo. No mesmo ano, o Congresso anulou, simbolicamente, a sessão que depôs o então presidente em 1964.)

Ao decidir participar do comício da Central, em 13 de março de 1964, Maria Thereza rompeu paradigmas. Como você descreveu, era um local (o palanque) dominado por homens, assim como a política. Qual foi o peso simbólico desse momento?
Ali, pela primeira vez, há uma mulher no palanque de um grande comício no Brasil. Era o primeiro tabu quebrado. Por trás daquela foto histórica e daquele discurso que mudava o destino do país, havia um homem que sofrera um grave distúrbio cardíaco dias antes e uma esposa que estava preocupada, em primeiro lugar, com seu marido. Para acompanhá-lo, superou sua fobia de multidão e acompanhou todo discurso, tensa e com raros sorrisos, ao lado do presidente.

Maria Thereza teve de deixar o país às pressas, sem o marido e com dois filhos pequenos. Chegou ao Uruguai quase sem bagagem e na primeira noite pediu comida a uma vizinha para alimentar as crianças. Foi seu pior momento, entre tantos difíceis?
De maneira indireta, podemos dizer que sim. Essa afirmação subjetiva baseia-se apenas em um fato. Entre vários momentos tensos que narrou, essa passagem foi a única em que ela reconheceu para mim que não guardava lembranças exatas dos acontecimentos.

 Jango sempre sonhou com o retorno ao seu país. E ela?
Nunca. Maria Thereza encarou o golpe como uma escolha do Brasil. E repetia isso a Jango: “Se o Brasil não nos quis, não temos motivos para querer voltar”. Esse foi o ponto que foi minando, devagar e dolorosamente, a relação do casal. Enquanto ela queria fazer uma nova vida no Uruguai, Jango sonhava com o retorno a qualquer momento.

Acredita que Maria Thereza se reconciliou com seu país?

Não sei. Será que o Brasil, que consumia revistas e revistas com a admirada primeira-dama na capa, reconciliou-se com Maria Thereza?

O clima vivido atualmente no país despertou nela “fantasmas” que pareciam definitivamente adormecidos?
Acredito que qualquer pessoa que tenha passado por momentos traumáticos e violentos durante a ditadura esteja com certas “ressalvas”. Há vários momentos descritos no livro em que Maria Thereza reconhece que não conseguiu superar o medo e que suas bruxas estavam soltas para aterrorizá-la.


sexta-feira, 7 de junho de 2019

Curumins

Uma característica intrínseca da direita, em todo o mundo, é o distanciamento racional em relação ao outro, o que pode ser interpretado como falta de empatia, mas é algo ainda mais cruel.


Uma vez, eu disse a alguém muito próximo que para entender a pobreza, a dor da miséria, é preciso fazer, minimamente, um exercício de aproximação do outro. Veja bem: aproximar-se é menos que se colocar no lugar, mas já nos dá uma dimensão emocional bastante razoável da dor alheia. Falei: "Ande, ao menos, na periferia, uma vez na vida, para entender as diferenças".

Ele me respondeu: "Eu estudei para, justamente, não ter que frequentar a periferia".

Nem a periferia, nem a cozinha, nem o pátio da fábrica, muito menos uma tribo indígena onde crianças morrem por falta de médicos.

E não porque eles não existam, mas porque os que existiam de lá foram tirados, e os que ainda existem, para lá não querem ir.

O fato é que, sem que as pessoas boas percebessem, a maldade entrou nas escolas disfarçada de excelência em competição e fez delas antros de formação de líderes nas aulas de cada-um-por-si.

As crianças mortas no Xingu não são "indiozinhos", como informam esses tarefeiros de redação em tom complacente.

São brasileiros assassinados pela estupidez de um governo fascista apoiado, justamente, por essas pessoas motivadas por coaches e idiotas do mesmo calibre que acreditam ter estudado para não ter que se importar com ninguém, além de si mesmo.

Leandro Fortes, jornalista

quinta-feira, 6 de junho de 2019

China adverte EUA sobre provocações separatistas

Wei Fenghe, ministro da Defesa da China, anunciou que seu país está disposto a "lutar até o fim" para proteger seus interesses nacionais, tanto economicamente – em meio à guerra comercial com os EUA – como militarmente, se alguma força extrema se atrever a desafiar a política de uma China única e separar a Taiwan do continente.


O ministro chinês fez essas declarações no âmbito do fórum de segurança Diálogo de Shangri-La, um dia depois que seu homologo estadunidense Patrick Shanahan tentou reunir uma coalizão internacional contra o crescente poder da China no Indo-Pacífico. "Nenhuma tentativa de dividir a China será bem-sucedida. Qualquer interferência na questão de Taiwan está condenada ao fracasso", disse ele.

Wei enfatizou que Pequim não cederá "nem uma polegada" de sua "terra sagrada" e que o Exército de Libertação do Povo chinês serve "exclusivamente para fins de defesa própria", por isso só atacará se for atacado.

Se a que a ameaça de um conflito mais amplo se estende por todo o Pacífico, o ministro sublinhou que a China e os EUA estão conscientes que uma guerra poderia significar um "desastre" para ambos os países. Além disso, Wei afirmou que Pequim está firmemente comprometido com a paz e a estabilidade regional e nunca buscará políticas expansionistas.

Provocações

"Se os EUA quiserem falar, manteremos a porta aberta, se quiserem lutar, lutaremos até o fim", afirmou ele, citado pela agência de notícias Reuters. Entretanto, sublinhou, apesar das disputas com Washington, as relações bilaterais se desenvolveram significativamente nos últimos 40 anos. "A cooperação beneficia ambos, a confrontação é dolorosa para ambos", disse o ministro, destacando a importância da comunicação entre as partes.

A China tem denunciado repetidamente os EUA por provocações na região e alertou este país contra o envio de navios e aviões militares para perto das ilhas disputadas no mar do Sul da China. Washington envia com frequência navios de guerra para o mar do Sul da China, uma rota estratégica, como parte do que o regime da Casa Branca chama de "proteção da liberdade de navegação".

Com informações de agências e Sputnik News

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Presidente dos EUA ignora presidente mexicano

Trump volta a provocar o México.


Um dia depois de anunciar que aplicará tarifas sobre a importação de produtos mexicanos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a fazer várias críticas ao país vizinho e ignorou as tentativas de diálogo de Andrés Manuel López Obrador ao afirmar que o México é dominado por narcotraficantes.

"O México tem se aproveitado dos EUA. Por culpa dos democratas, nossas leis migratórias são ruins. O México faz uma fortuna à custa dos EUA e esse problema pode ser facilmente solucionado. Está na hora de fazer o que é necessário", escreveu Trump no Twitter.

A informação é da agência EFE
Via – Portal Vermelho

terça-feira, 4 de junho de 2019

Marco Antonio Villa: de vetor do neoconservadorismo brasileiro a corpo estranho

Já dizia o bom e velho Sartre que estamos condenados a escolher. Por evidente, toda escolha tem seu custo (aventuras aí incluídas). O historiador Marco Antonio Villa talvez só tenha se dado conta disso agora, posto que não aprendemos com os erros, mas com as consequências deles.


Dos muitos e variados meios de comunicação que se engajaram na tarefa de negar e corroer as bases do sistema político brasileiro elegendo os governos do PT como foco de “ todo o mal que aí está”, é provável que o Grupo Jovem Pan tenha sido o mais bem-sucedido. Astuta, velhaca, como é típico da mídia que persegue audiência a qualquer preço, a Jovem Pan captou o ânimo “anti-establishment” e anti-PT como ninguém. Surfou habilmente nessa onda, cresceu e, em época de vertiginosa preguiça cognitiva, ganhou proeminência sobre os concorrentes.

É aí que entra o Villa. Quer se goste dele ou não, trata-se de acadêmico com perfil, trajetória e produção. Ocorre que resolveu trocar tudo isso pela ribalta das personas célebres. Não se enganem: na ponta do lápis, pode até valer a pena. Mas o custo da aventura costuma ser bem alto.

Travestido de “jornalista”, Villa usou e abusou, por alguns anos, do proselitismo político. Quem ouvia ou assistia a seus comentários tinha a impressão de estar diante dos batidos faroestes italianos em que mocinhos e bandidos eram perfeita e nitidamente identificáveis. E dá-lhe surtos indignados contra “ladrões”, “incompetentes” e “corruptos”. Aliás, o professor fez das falas contra a corrupção sua cruzada pessoal.

Ambos, Jovem Pan e Villa, surfaram a onda conservadora e dela se fartaram. Villa concorreu obstinadamente para inflar o ventre da besta; para engordar a estrutura que lhe amplificava os brados de pretensa retidão e integridade. Na companhia de dois ou três garotos mal saídos das fraldas, digital influencers (seja lá o que isso signifique), fez amiúde o papel grotesco do intelectual orgânico da direita ressentida.

Não obstante, nunca é demais repetir, a escolha infeliz não veio sem custos. A agenda da Jovem Pan estava (e assim continua) assentada no obscurantismo, na ignorância, na apreciação rasa, ligeira, enfim, na ode ao lugar-comum. E Marco Antonio Villa, por mais, digamos, exótico que pareça, guarda da formação acadêmica um certo compromisso com a verdade e decência intelectuais. Em outras palavras, a brisa do Iluminismo não cessa de soprar mesmo para aqueles cujos holofotes são mais atrativos que a investigação da realidade social tal como ela se apresenta.

Villa não deu conta. Compatibilizar (alguma) honradez intelectual e condescendência com o governo Bolsonaro – e tudo aquilo que ele congrega e representa – foi demais até para ele. Coube ao Grupo Jovem Pan expurgar o (agora) corpo estranho. E dá-lhe sentimento de indignação e injustiça…

Paulo Emílio Douglas de Souza – Cientista político
No GGN

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Greve geral: após atos pela educação, ideia é "parar tudo" em 14 de junho

Para o secretário-geral da CUT-SP, mobilização das últimas semanas fortaleceram luta contra a reforma da Previdência.

Cerca de 300 mil pessoas se manifestaram nas ruas de São Paulo (SP) no 30M, contra os cortes na educação e contra a PEC da Previdência / Foto: Mídia Ninja.
Por Luciana Console

O sucesso das mobilizações pela educação, em todo o país, reforçou o chamamento para a greve geral contra a perda de direitos dos trabalhadores brasileiros, marcada para 14 de junho. O ponto-chave da greve é a defesa da Previdência pública e solidária que está sendo atacada pelo projeto de reforma do governo Bolsonaro.

"A reforma do Bolsonaro não é uma reforma, é uma destruição do sistema de seguridade social", explica o secretário-geral da CUT-SP, João Cayres, em entrevista ao Brasil de Fato. Leia abaixo os principais trechos:

Brasil de Fato: Qual a importância das mobilizações da educação para o chamamento da Greve Geral?

João Cayres: A greve geral já estava sendo discutida antes do movimento da educação. (…) Foi muito bom porque foi um sucesso (…), e neste momento todo a gente também está agregando à discussão da Previdência, da Seguridade Social, e já estamos agregando também para a Greve Geral a questão dos cortes na Educação (…).

Em relação à Previdência, as centrais divergem em alguns pontos. Gostaria que você falasse um pouco nesse sentido.

Nós estamos lidando muito bem, pela primeira vez na história nós conseguimos fazer um 1º de Maio unificado, com todas as centrais sindicais. Algo inédito, cada central sindical fazia o seu, falava com seu público específico, mas a gente conseguiu depois de muita conversa unificar. Do ponto de vista da reforma, o que tem claro pra nós é que a reforma do Bolsonaro não é uma reforma, é uma destruição do sistema de seguridade social. O que ele apresenta, que é o sistema de capitalização, não agrada nenhum tipo de central sindical. Pode ter uma ou outra pensando alguma coisa, em fazer algum tipo de reforma, mas nós da CUT entendemos que as reformas já foram feitas. A última foi em 2015 com a Dilma, com o fator 85/95, que já virou 86/95, que já resolve vários problemas. E a reforma de 2003, (…) que foi essa história de combate aos privilégios. O pessoal fala muito disso, que agora funcionário público não vai mais receber isso aquilo, isso é mentira, por que isso já foi resolvido. (…) Então essa discussão pra nós está tranquila. Nós unimos neste sentido, de que somos contra o sistema de capitalização porque dentro da reforma da Previdência tem também umas mudanças que aprofunda o desastre da Reforma Trabalhista. Que é o caso da chamada Carteira Verde Amarela.

Em relação a diálogo com governo, há espaço ou é inviável?

É só pegar a declaração do Ministro da Economia, que diz que se mexer uma vírgula ele vai embora do país. É um garoto mimado que não aceita nada e que se não tiver o que ele está pedindo ele vai morar fora. Ou seja, não tem conversa.

Faltando cerca de 15 dias para a Greve Geral, vão ser realizadas atividades de mobilização até lá?

O que a gente tem feito, falando pela CUT e as subsedes de várias regiões de São Paulo, estamos realizando plenárias nos sindicatos debatendo justamente a forma de fazer as atividades. Vamos fazer panfletagem, assembleias nos locais de trabalho, mobilizando e conscientizando, usando as redes sociais também. Estamos conversando com setor de transporte e a ideia é parar tudo, como aconteceu no dia 28 de abril de 2017.

Edição: João Paulo Soares

sábado, 1 de junho de 2019

STF proíbe empresas de submeterem trabalhadoras grávidas a funções insalubres

Por 10 a 1, corte derruba item da Reforma Trabalhista que permitia o uso de gestantes e lactantes em ambientes nocivos.

Plenário do Supremo Tribunal Federal / Carlos Moura | STF
Redação

Por 10 votos a 1, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quarta-feira (29) que é inconstitucional o item da “reforma” trabalhista que permite a trabalhadoras grávidas e lactantes atuarem em atividades consideradas insalubres. Esse foi um dos itens mais polêmicos do projeto aprovado em 2017, que se tornou a Lei 13.467.

Com a decisão, o plenário referendou liminar dada há um mês pelo relator da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5.938, ministro Alexandre de Moraes, que suspendia incisos do artigo 394 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) alterados pela “reforma”. Para Moraes, trata-se não só de “salvaguarda da mulher, mas também total proteção ao recém-nascido, possibilitando convivência com a mãe de maneira harmônica, sem os perigos do ambiente insalubre”.

A ação foi apresentada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos (CNTM), ligada à Força Sindical. Pela lei aprovada ainda na gestão Temer, trabalhadores podem exercer atividades insalubres em grau médio ou mínimo e lactantes, em qualquer grau, a não ser que apresentem atestado de saúde que recomende o afastamento. O único voto contrário foi o do ministro Marco Aurélio Mello.

Segundo a CNTM, “se trata de flagrante violação aos fundamentos da dignidade da pessoa humana e dos valores sociais do trabalho, princípios norteadores da República Federativa do Brasil, bem como o objetivo fundamental da república de erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais e regionais”. A entidade afirma que o ato representa uma inconstitucionalidade “cristalina”, além de ser um retrocesso social. “O STF corrigiu uma grande maldade da reforma trabalhista”, declarou o presidente da confederação e da Força, Miguel Torres. “Prevaleceu a justiça e o humanismo em proteção à maternidade, às mulheres e às crianças.”

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, já havia se manifestado pela procedência do pedido. “A (suposta) proteção – ou melhor, desproteção – que encerra não atende à urgência reclamada pela situação de vulnerabilidade da trabalhadora gestante ou lactante, nem condiz com a relevância dos bens jurídicos em questão (vida, saúde, maternidade, infância e trabalho digno e seguro)”, afirmou em parecer. “Registre-se, por fim, que a norma impugnada contraria também o princípio constitucional da isonomia.”

Edição: Rede Brasil Atual

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