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segunda-feira, 8 de julho de 2019

Em dia da Independência, Maduro e Guaidó falam em diálogo

Governo realizou desfile militar, em região central de Caracas, enquanto opositores marcharam na zona leste da capital.

Com pomposo desfile militar, governo comemora Dia da Independência / Prensa Presidencial
Fania Rodrigues
Caracas (Venezuela)

Um extenso desfile miltiar com tanques de guerra T-72, helicópteros Mi-17, baterias de misseis S-300 e o poderosos aviões de caça russos Sukhoi Su-30MK2V marcaram as comemorações do Dia da Independência da Venezuela, declarada há 208 anos. Além disso, a presença das principais autoridades do Estado foi uma mostra da unidade entre a Força Armada Nacional Bolivariana e o governo do presidente Nicolás Maduro. "Que ninguém se equivoque, porque a Venezuela tem exército e povo para defendê-la", disse Maduro em seu discurso.

O presidente pediu às Forças Armadas para seguir defendendo as autoridades legítimas."Vamos nos preparar para as batalhas que estamos tomando, não vamos ter um segundo de descanso. Estamos no lado certo da história e é hora certa para a batalha", declarou Maduro frente ao arsenal de defesa do país.

O presidente venezuelano voltou a falar em diálogo com a oposição como saída para resolver o conflito político do país. "Hoje, 5 de julho, dia da pátria, da República, dia da Venezuela faço um chamado à paz e à união nacional em todos os setores políticos, econômicos e culturais. Dentro da Venezuela cabemos todos", afirmou.

Nicolás Maduro ressaltou ainda que governo e oposição devem ceder para chegar a um acordo pacífico. "Devemos abrir mão de algo para chegar a um acordo", destacou. Ele também disse que "na próxima semana haverá boas notícias em relação ao diálogo. Sigo insistindo na instalação de uma mesa permanente de diálogo".

Guaidó confirma diálogo
No lado oposto de Caracas, opositores marcharam contra as políticas do governo. Diante de seus simpatizantes, o deputado e líder da oposição confirmou que retomou o diálogo com o governo. "Recorremos a esse espaço para enfrentá-los, para arrebatar, conseguir liberdade, conquistar espaço", ressaltou Guaidó. Um canal de notícias dos EUA mencionou que Guaidó igualmente havia confirmado o encontro a sua equipe de reportagem.

O líder da oposição pediu um voto de confiança aos seus apoiadores e anunciou que na segunda-feira (8) chegam na Venezuela alguns representantes do Grupo Internacional de Contato, formado por países europeus para mediar o diálogo entre opositores e chavistas.

Já o assessor de Segurança da Casa Branca, John Bolton, encarregado dos assuntos da Venezuela no governo de Donald Trump criticou a iniciativa de negociação. "Não pode haver um diálogo de boa fé com Maduro", escreveu Bolton em sua conta do Twitter.

Edição: Guilherme Henrique

sábado, 6 de julho de 2019

Mais trabalhadores terão que trabalhar aos domingos e feriados

Decisão do governo Bolsonaro amplia setores autorizados a convocar empregados.


Pedro Rafael Vilela

O secretário especial de Previdência e Trabalho do governo federal, Rogério Marinho, assinou no mês passado uma portaria que ampliou para 78 os setores da economia que tem autorização permanente para que funcionários trabalhem aos domingos e feriados. Até então, eram 72. Os novos segmentos que a portaria inclui são: indústria de extração de óleos vegetais e de biodiesel; indústria do vinho e de derivados de uva; indústria aeroespacial; comércio em geral; estabelecimentos destinados ao turismo em geral; e serviços de manutenção aeroespacial.

Na prática, o que o governo faz é ampliar as exceções à regra, já que o trabalho aos domingos e feriados é proibido na maioria das profissões. O trabalhador tem assegurado o direito de descanso semanal de 24 horas consecutivas, sendo que, com exceção “de conveniência pública ou necessidade imperiosa do serviço, deverá coincidir com o domingo, no todo ou em parte”, como estabelece o artigo 67 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

"Essa portaria amplia as categorias que podem trabalhar aos domingos. O mais importante é que torna de caráter permanente e não eventual. A maioria das convenções coletivas diziam que precisava de autorização [para o trabalho aos domingos e feriados] e agora não precisa mais dessa autorização", explica a advogada trabalhista Lariane Del-Vechio, do escritório Aith, Badari e Luchin Advogados. Para Lariane, os trabalhadores desses novos setores serão prejudicados pela mudança na regra.

"Agora, como fica autorizado o trabalho ao domingo, tornando esse um dia 'normal' para essas categorias, os trabalhadores não vão mais receber dobrado por trabalhar aos domingos, mas apenas a compensação de um dia de folga durante a semana", argumenta.

Na opinião de Graça Costa, que é secretária de Relações Trabalhistas da Central Única dos Trabalhadores (CUT), a portaria mostra um viés autoritário do governo. "A CLT determina a jornada de trabalho e os setores liberados para trabalho aos domingos e feriados. E agora o governo Bolsonaro vem com essa novidade de legislar por portaria. A gente considera a medida ilegal".

Um dos argumentos usados por Rogério Marinho no dia do anúncio da medida foi que ela geraria mais empregos, num país que amarga cerca de 13 milhões de desempregados. A previsão é contestada por Graça Costa. "Na nossa visão, a medida não gera emprego, não vai melhorar a questão do desenvolvimento do país, para tirar o Brasil do desemprego e vai aumentar a carga de trabalho desses que já estão trabalhando".

A advogada Lariane Del-Vechio também duvida dos efeitos positivos da portaria para a economia. "A gente precisa ver o reflexo disso na prática, porque a reforma trabalhista também tinha a ideia de criar mais empregos e a gente que viu que não gerou mais empregos", afirma.

Mesmo com autorização para que mais empregados trabalhem aos domingos e feriados, Lariane Del-Vechio destaca que, do ponto de vista jurídico, prevalece o disposto na CLT sobre descanso preferencial e mesmo esses novos setores deverão garantir pelo menos um domingo de folga por mês aos seus funcionários.

"A cada três domingos trabalhados, deve ter um domingo de folga. E a empresa deve fazer uma escala de revezamento".

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Com mercado de trabalho frágil, número de autônomos, subutilizados e desalentados é recorde

Taxa de desemprego fica estável, com 13 milhões fora do mercado. São 28,5 milhões de subutilizados, 24 milhões por conta própria e quase 5 milhões no desalento.


Publicado por Redação RBA

São Paulo – O mercado de trabalho segue acentuadamente frágil. A taxa de desemprego no país manteve-se alta no trimestre encerrado em maio, 12,3%, “estatisticamente estável” tanto em relação ao trimestre anteriores como a igual período de 2018, segundo informou hoje (28) o IBGE. O número de desempregados é estimado em 12,984 milhões, praticamente no mesmo nível, com menos 206 mil em um ano (-1,6%). Mas os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua mostraram alguns recordes negativos.

Em 12 meses, são 2,361 milhões de ocupados a mais (2,6%). A maior parte continua sendo de trabalhadores por conta própria, acréscimo de 1,170 milhão (5,1%), e de empregados sem carteira (372 mil), com crescimento de 3,4%. O ritmo de alta do emprego com carteira no setor privado é bem menor, de 1,6% (521 mil). Em relação ao trimestre encerrado em fevereiro, só o emprego sem carteira e autônomo cresceu. O total de trabalhadores por conta própria bateu recorde, atingindo 24,033 milhões.

A chamada subutilização da força de trabalho, que inclui pessoas que poderiam estar trabalhando mais, voltou a atingir o recorde de 25%. E o número de pessoas nessa situação agora soma 28,5 milhões, crescimento de 744 mil no trimestre e de 1,066 milhão em 12 meses.

Também é recorde o número de pessoas desalentadas: 4,9 milhões. A taxa de desalento é de 4,4%. Nos dois casos, houve estabilidade em relação a períodos anteriores.

Entre os setores pesquisados, agricultura, indústria e administração pública cresceram no trimestre. Em 12 meses, a pesquisa mostra alta em setores ligados a serviços e estabilidade nos demais.

Estimado em R$ 2.289, o rendimento médio caiu 1,5% no trimestre e ficou estável em relação a igual período de 2018. Já a massa de rendimentos (R$ 207,5 bilhões) ficou estável no primeiro período e cresceu 2,4% em 12 meses, devido ao aumento da ocupação.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

A nossa vida é só um segundo, mas vale lutar em cada fração dele

Como temos pressa nesta nossa guerra! Tal e qual quem viveu o nazismo, queremos, os sofredores com discernimento, que o fascismo non-sense de Bolsonaro acabe já. Também queremos ser donos do tempo.


Por Eugenio Aragão
No GGN

"Mas se você achar

Que eu tô derrotado

Saiba que ainda estão rolando os dados

Porque o tempo, o tempo não para

Dias sim, dias não

Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos

Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para"

(Cazuza, O Tempo não Pára)

Um dia desses recebi um “Tweet” de um raivoso bolsominion (eita, expressão pleonástica!) em que debochava porque eu falava de “varrer do poder” essa turma de insensatos. Dizia, ele, que poderia “botar a barba de molho” porque jamais voltaríamos, nós, a esquerda, governar este país.


Causou-me reflexão. Logo pensei: quanta arrogância! Também Hitler falava no seu império de mil anos e “só” durou doze de intenso sofrimento para a humanidade. Por que quem ganha o poder na base da truculência e da mentira acha que é dono do tempo?

Para começar, o que chamo de “só” doze anos de duração do Terceiro Reich foi, para quem nele viveu ou experimentou seus atrozes impactos, esses doze anos foram uma eternidade. Para alguns, foi uma vida inteira; para muitos outros, foi o fim da vida e o fim dos tempos.

Volto ao Brasil. Como temos pressa nesta nossa guerra! Tal e qual quem viveu o nazismo, queremos, os sofredores com discernimento, que o fascismo non-sense de Bolsonaro acabe já. Também queremos ser donos do tempo.

Mas o tempo não pára. E somos todos inexoravelmente escravos dele.

Lula está há mais de um ano encarcerado. Acreditamos ou queremos acreditar que vá sair hoje ou amanhã. Mais de um ano preso é injusto! Um tempo muito injusto. Mas ele segue inabalável. E o quanto mais passa, mais injusto o sentimos, a ponto de exigir o amanhã que encubra o hoje de tantos lamentos!

Se somos escravos do tempo, qual a atitude que devemos ter diante dele? Conformarmo-nos? Cinismo ou resignação? Talvez um pouco de conformação num caldo de cinismo. Explico.

Conformação não é resignação. Enquanto a primeira é atitude ativa, a segunda é passiva. Conformar-se é tornar-se “com a forma” da realidade do momento. Assimilar o contexto em que se vive para sofrer menos e compreender mais. É adequar-se. Para quem luta, é fundamental reconhecer e adaptar-se ao terreno em que a guerra se trava: na guerra é como na guerra e não como na paz! Certos tipos de conduta nossa, de denunciar, de apontar e de publicizar são próprias de uma guerra em que se falam um tom mais alto do que na paz.

Um diplomata alemão uma vez me fez a pergunta, logo após a consumação do golpe parlamentar contra a Presidenta Dilma: “O Sr. não acha que está usando um tom excessivamente eloquente?”. Referia-se metaforicamente ao tom indignado de denuncia que adotara nos meus artigos. Respondi-lhe: “Krieg ist Krieg” – guerra é guerra. Havia me conformado, coisa muito distinta de resignar-se.

Resigna-se quem cansa, quem joga a toalha, pendura as chuteiras. É uma atitude de desespero. Muito humana, mas disfuncional num tempo em que resistir é preciso, ainda que sem a ilusão de domar o tempo.

Precisamos, também, com nossa conformação, uma boa dose de cinismo. É o que nos faz grandes diante do inimigo. Não podemos nos perder na vitimização e na autocomiseração. Temos valiosos companheiros que caíram e não têm, ao menos para o momento, a oportunidade de lutar em campo aberto. Encontrarão seu meio de lutar no círculo fechado, porque, parafraseando Bertolt Brecht, só é excelente quem luta a vida inteira. Mas, para nós, caíram. Estão em desvantagem.

Nosso cinismo deve estar na consciência de que em toda guerra muitos caem. Todas as quedas são injustas, mas quem caiu, era soldado e sabia que estava numa guerra e que cair faz parte dela. E levantemos a cabeça e continuemos a lutar.

Lula está preso. Caiu. Foi uma queda injusta. Temos que denunciar essa injustiça ao mundo e desmascarar aqueles que contribuíram para seu encarceramento na base da mentira, da conspiração e da perfídia. Juízes pérfidos merecem ser expostos e não podemos parar um só segundo nesse esforço de expô-los. A guerra é também comunicação. Tal qual o tempo, no tempo de guerra, a comunicação não pára, não pode parar.

Lula estar preso não justifica ficarmos que nem barata-tonta pirandelliana, como personagens à busca de um autor. Somos todos autores de nosso destino, ainda que não domamos o tempo. E não adianta choramingar porque está demorando muito. Para quem sofre, tudo demora. Mas temos que ver que o Terceiro Reich durou “só” doze anos. E doze anos, para quem enxerga longe, é pouco, por mais impactantes que sejam.

O tempo não para, mas cabe a nós determinar o que vamos fazer dentro dele. E, para os bolsominions ativos, fica o recado: vocês passarão com o tempo, mas não passão no julgamento da história. Seus mil anos serão vergonhosos segundos da pior experiência republicana brasileira. Feito o Terceiro Reich, é o que vai sobrar de vocês. E nós voltaremos, para limpar a honra do Brasil, apeando-os do poder, sim! E continuaremos a lutar. Por um Brasil melhor.



quarta-feira, 3 de julho de 2019

Liberais vs. Conservadores: uma história muito recente

A aparente cisão entre liberais e conservadores talvez tenha uma história muito mais recente do que se costuma admitir. Existem diferenças de grau mas não de natureza entre o atual liberalismo e o conservadorismo e, da mesma forma, entre o neoliberalismo e o fascismo.

Clintons e Cheneys no enterro de John McCain: a oposição nominal é uma forma de manter conflitos aparentes, enquanto trabalham juntos no mesmo projeto político.

Por Rogério Mattos
No GGN

Ideias fora do lugar?

Existe no Brasil um estranho debate a respeito da recepção e implantação das ideias liberais por aqui. Num ensaio antigo e famoso, As ideias fora do lugar, Roberto Schwarz parece ter pautado pela primeira vez o problema de maneira mais ampla. Existe uma outra menção sobre essa “ideia fora do lugar”, isto é, da aplicação do liberalismo num país de tradição iliberal, que é uma menção feita por Celso Furtado em sua Formação Econômica do Brasil sobre o barão de Cairu: o liberalismo no Brasil seria resumido pela postura desse político conservador, ao mesmo tempo liberal e escravocrata.

Por outro lado, se olharmos do ponto de vista da história dos EUA ou a do Partido Democrata do século XIX, não só de Thomas Jefferson, mas também de Andrew Jackson e Aaron Burr, eles construíram o que popularmente se chamou de “democracia jeffersoniana”, ou seja, livre-mercado mais escravidão. Nesse caso, o Partido Republicano, do Hamilton, Carey e Lincoln, não era conservador, como também não era pró-escravidão nem livre-mercadista. Pelo contrário, estava muito mais próximo do que se chama hoje de “progressismo”.

O conservadorismo estava com a facção britânica, pró-mercado. O império britânico no século XIX, sendo comandado por um Tory ou Whig, é o lugar de difusão do livre-mercado e, ideologicamente, do liberalismo. O cinismo da política britânica, como é sabido, chegava ao ponto de afundar navios negreiros para “combater a escravidão”.

A aparente cisão entre liberais e conservadores talvez tenha uma história muito mais recente do que se costuma admitir. Existem diferenças de grau mas não de natureza entre o atual liberalismo e o conservadorismo e, da mesma forma, entre o neoliberalismo e o fascismo. É o que podemos ver em alguns poucos, mas relevantes exemplos, do século XIX ao atual.

A recente oposição entre “conservadores” e “liberais”
A dicotomia conservador-liberal aparece com força no pós-guerra, principalmente depois da década de 1970, com o avanço da desregulamentação financeira em todo o mundo [aqui]. Os setores não conservadores, cada vez menos dispostos a se voltar contra a hegemonia neoliberal, e muito menos propor políticas efetivas não só de controle fiscal (taxações), mas de crédito, passam a se identificar com o liberalismo a partir da pauta de costumes.

Quando o Estado nacional ou o executivo perde sua capacidade de gerar crédito em larga escala para o investimento na economia física, o discurso anti-liberalista (não conservador, talvez “progressista”) perde espaço. Assim, conservador e liberal atuam em áreas meramente ideológicas e no discurso das ações individuais, ou seja, a pauta dos costumes, como exemplifica bem a suposta oposição entre um Dick Cheney e uma Hilary Clinton, ou desta com McCain, sempre aliados em prol da “democracia”. Hillary foi parceira de McCain

É uma mescla interessante, com certeza. Dick Cheney, o presidente de fato dos EUA durante a era Bush Jr., é representativo da palavra considerada palavrão para muitos, o “liberal-fascismo”. Com a atual ascensão da extrema-direita como quinta coluna de um liberalismo em descrédito, a história se repete de novo. Parece que esqueceram um dos eventos fundadores da aliança perversa, quando a City de Londres articulou para perdoar as dívidas de guerra da Alemanha e ajudar no êxito do recém alçado ao pode, Adolf Hitler.

Atualmente se dá a mesma coisa: com todo o alarido a respeito do protecionismo do Trump, ele não é capaz de tomar nenhuma medida minimamente eficiente para contornar o colapso econômico dos EUA. Com todo seu conservadorismo, ele comemora como um grande feito o crescimento do índice Dow Jones logo depois de retirar taxação dos mais ricos. Em linhas gerais, a política de Trump, na economia, é a mesma de Obama em seu segundo mandato: procurar por meios heterodoxos reverter a necessidade de manter os mercados funcionando através da flexibilização quantitativa, das taxas negativas de juros, porém sem vislumbrar uma solução efetiva para se sair dessa espiral do caos.

Fundamentalmente, todo esse debate a respeito de um “identitarismo” pós-moderno, pós-democrático, etc., e liberal, contra o conservadorismo tradicional dos políticos republicanos, revela a incapacidade, também sentida na Europa sobre outras bases, de se formular uma agenda anti-liberal e não conservadora. Conservadores e liberais se revezam no poder tanto na Europa quanto nos EUA e nada de relevante acontece além de variações do mesmo sistema de livre-mercado. Para acabar com essa dicotomia meramente identitária, teria que se falar em política de crédito barato e em largo prazo para o desenvolvimento científico e tecnológico e da infraestrutura de cada país. Isso, pelo menos no Ocidente, não é realidade pelo menos desde o Plano Marshall ou o Projeto Apollo.

Porque não existiu a antítese “liberal” x “conservador” no século XIX
Uma primeira informação relevante é o assassinato do último presidente dos EUA filiado à facção política de Abrahan Lincoln, William McKinley:

A Comissão Intercontinental de Ferrovias, iniciada pelo Secretário de Estado estadunidense James Blaine, empregou engenheiros das Forças Armadas para a pesquisa e elaboração do projeto das linhas unindo os Estados Unidos com o Brasil e Argentina, apresentando o mapa completo com as rotas projetadas, ao presidente William McKinley, em 1898. McKinley, extremamente a favor do Sistema Americano, comemorou os planos de Blaine como o futuro da humanidade, em seu discurso de 1901 na Exposição Pan-Americana, em Buffalo – onde foi assassinado numa operação dirigida pelos britânicos.

Dennis Small, A Ponte Terrestre Mundial: Redescobrindo a América

A partir daí o Partido Republicano foi completamente desbaratado a partir de suas premissas originais, ou seja, em seus objetivos em harmonia com os princípios da Independência dos Estados Unidos. Tanto o primeiro Banco Nacional desse país, dirigido por Alexander Hamilton, quanto o segundo (reerguido depois de sua destruição pela facção “democrática” jeffersoniana), o de Nicolas Biddle, tinham como premissas:

O protecionismo econômico, não limitado apenas à proteção da indústria nacional através do aumento das taxas aduaneiras, como também taxações nas exportações para impedir a preponderância de moeda estrangeira no país, em especial, o ouro, na época amplamente utilizado pelo Império Britânico.
O intuito do “duplo protecionismo” não era por mera valorização da moeda nacional, mas para a manutenção do sistema de crédito. Ao contrário dos pagamentos em ouro, que deveriam ser liquidados em curto termo, as cartas de créditos e os greenbacks mantinham um sistema complexo de investimento na economia física. Seu objetivo era a quitação em médio e longo prazo, priorizando os investimentos produtivos.
Assim, não se pode compreender o protecionismo econômico nos EUA do século XIX como desvinculado do sistema de crédito público. Caso consultado os documentos da época, em especial os produzidos pelo secretário do Tesouro Nicolas Biddle, os relatórios de Alexander Hamilton e os trabalhos de Henry Carey, a disputa se dava não entre “conservadores” e “liberais”, mas entre facções nacionalistas e as associadas ao imperialismo britânico. Conservadores e liberais, tanto no EUA quanto no Reino Unido, estavam unidos em torno da mesma política de livre-comércio e ao sistema de plantations dos estados escravistas do sul.
Com o assassinato de McKinley em 1901, todo o sistema político-partidário americano passa por um completa reconfiguração. As bandeiras de soberania nacional, crédito público e investimento produtivo irão reaparecer décadas depois na plataforma de governo do democrata Franklin Roosevelt. Desde sua presidência até a de John Kennedy, quando o último grande projeto norte-americano, o Apollo, é colocado na pauta do dia, o Partido Democrata cumpre o papel que no século XIX coube aos republicanos.

A partir principalmente da década de 1970 começa o surgimento de oposições parlamentares meramente nominais. A famosa oposição entre “conservadores” (filiados ao Partido Republicano) e “liberais” (filiados ao Partido Democrata), começa a aparecer com mais força como sinônimo de democracia à americana.. Seria uma afronta à história do primeiro ser considerado meramente “conservador” e um total desvio político quando o partido de Roosevelt passa a se identificar com o liberalismo.
Com um vocabulário pobre, dificilmente se consegue ver a história recente de um modo mais amplo.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Por que os psicopatas chegaram ao poder

Há uma dimensão pouco examinada no avanço das lógicas neoliberais. Um sistema que estimula competição, disputa e rivalismo produzirá “líderes” brutais e sem empatia. Eleger gente generosa e sensível requer uma nova democracia.

Sigmund Freud afirmou que “os grupos assumem a personalidade do líder”.
Por George Monbiot*

Quem, em seu juízo perfeito, poderia desejar esse trabalho? É quase certo que acabará, como descobriu Theresa May, em fracasso e execração pública. Procurar ser primeiro-ministro britânico, hoje, sugere ou confiança imprudente ou fome insaciável de poder. Talvez necessitemos de uma ironia como a de Groucho Marx: alguém louco o suficiente para candidatar-se a essa função deveria ser desqualificado para concorrer.

Alguns anos atrás, a psicóloga Michelle Roya Rad listou as características de uma boa liderança. Entre elas figuravam justiça e objetividade, desejo de servir à sociedade e não a si mesmo, falta de interesse em ser famoso e ocupar o centro das atenções, resistência à tentação de esconder a verdade ou fazer promessas impossíveis. Por outro lado, um artigo publicado no Journal of Public Management & Social Policy (Jornal de Gestão Pública e Política Social) listou as características de líderes com personalidade psicopata, narcisista ou maquiavélica. Elas incluem: tendência à manipulação dos outros, disposição em mentir e enganar para alcançar seus objetivos, falta de remorso e sensibilidade, desejo de admiração, atenção, prestígio e status. Quais dessas características descrevem melhor as pessoas que estão competindo para ser “governantes” no mundo contemporâneo?

Na política, vê-se em todo lado o que parece ser a externalização de déficits ou feridas psíquicas. Sigmund Freud afirmou que “os grupos assumem a personalidade do líder”. Penso que seria mais preciso dizer que as tragédias privadas dos poderosos tornam-se as tragédias públicas daqueles que eles dominam.

Para algumas pessoas, é mais fácil comandar uma nação, mandar milhares para a morte em guerras desnecessárias, separar crianças de suas famílias e infligir sofrimentos terríveis do que processar sua própria dor e trauma. Aparentemente, o que vemos na política, em todos os cantos, é uma manifestação pública de profunda angústia privada.

Essa talvez seja uma força particularmente forte na política britânica. O psicoterapeuta Nich Duffell escreveu sobre “líderes feridos”, que foram separados da família na primeira infância para ser enviados ao colégio interno. Eles desenvolveram uma “personalidade de sobrevivente”, aprendendo a reprimir seus sentimentos e projetar um falso eu, caracterizado pela demonstração pública de competência e autoconfiança. Sob essa persona está uma profunda insegurança, que pode gerar necessidade insaciável de poder, prestígio e atenção. O resultado disso é um sistema que “sempre revela pessoas que parecem muito mais competentes do que realmente são”.

O problema não está confinado a estas paragens. Donald Trump ocupa a cadeira mais poderosa do planeta, e ainda assim parece roer-se de inveja e ressentimento. “Se o presidente Obama tivesse feito os acordos que fiz”, afirmou há pouco, “a mídia corrupta os consideraria incríveis… Para mim, apesar do nosso recorde em economia e tudo o que fiz, não há crédito!”. Nenhuma riqueza ou poder parece capaz de satisfazer sua necessidade de afirmação e segurança.

Penso que deveria ser necessário a qualquer um que quisesse participar de uma eleição nacional passar por uma formação em psicoterapia. A conclusão do curso seria a qualificação para o cargo. Isso não mudaria o comportamento de psicopatas, mas poderia evitar que, ao exercer o poder, certas pessoas impusessem sobre os outros suas próprias feridas profundas. Fiz dois cursos: um influenciado por Freud e Donald Winnicott, outro cuja abordagem tinha foco na compaixão de Paul Gilbert. Considero os dois extremamente úteis. Penso que quase todo mundo se beneficiaria desses tratamentos.

A psicoterapia não iria garantir uma política mais gentil. A abertura admirável de Alastair Campbell ao falar sobre sua terapia e saúde mental não o impediu de comportar-se – quando desempenhou as funções de assessor político e porta-voz de Tony Blair – como um valentão desbocado, que intimidava as pessoas a apoiar uma guerra ilegal, em que centenas de milhares de pessoas morreram. Tanto quanto sei, não demonstrou remorso por seu papel nessa guerra agressiva, que cabe na definição de “crime internacional supremo” do tribunal de Nuremberg.

O problema, na verdade, é o sistema no qual essas pessoas competem. Personalidades tóxicas prosperam em ambientes tóxicos. Aqueles que deveriam ser menos confiáveis para assumir o poder são justamente os que mais provavelmente vencerão. Um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology sugere que o grupo de traços psicóticos conhecido como “domínio sem medo” está associado a comportamentos amplamente valorizados nos líderes, tais como tomar decisões ousadas e sobressair-se no cenário mundial. Se assim for, nós, por certo, valorizamos as características erradas. Se para alcançar o sucesso no sistema é necessário ter traços psicopatas, há algo errado com o sistema.

Para pensar uma política eficiente, talvez fosse útil trabalhar de trás para frente: primeiro decidir que tipo de gente gostaríamos que nos representassem e depois criar um sistema que as levasse ao primeiro plano. Quero ser representado por pessoas ponderadas, conscientes de si e colaborativas. Como seria um sistema que promovesse essas pessoas?

Não seria uma democracia puramente representativa. Esse tipo de democracia funciona com o princípio do consenso presumido: você me elegeu há três anos, então presumo que consentiu com a política que estou para implementar, não importa se na época eu a mencionei ou não. Ela recompensa os líderes “fortes e determinados” que tão frequentemente levam suas nações à catástrofe. Um sistema que fortaleça a democracia representativa com democracia participativa – assembleias de cidadãos, orçamento participativo, co-criação de políticas públicas – tem mais possibilidades de recompensar os políticos sensíveis e atenciosos. A representação proporcional, que impede governos com apoio minoritário de dominar a nação, é outra salvaguarda potencial (embora não seja garantia).

Ao repensar a política, é preciso desenvolver sistemas que incentivem gentileza, empatia e inteligência emocional. É preciso nos desvencilhar de sistemas que encorajem as pessoas a esconder sua dor e dominar os outros.

*Jornalista, escritor, acadêmico e ambientalista do Reino Unido.
Publicado no site Outras Palavras
Tradução: Inês Castilho.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

O mais importante militante negro de quem você nunca ouviu falar

Hubert Harrison foi um dos primeiros socialistas negros nos EUA, um forte defensor da igualdade racial e um pioneiro da análise de como os capitalistas usam o racismo para dividir a classe trabalhadora. Ele merece ser lembrado.

Hubert Harrison, sentado à esquerda, e Elizabeth Gurley Flynn, líder do International Workers of the World (IWW) , e Bill Haywood, sentados à direita, organizaram a Paterson Silk Strike, em 1913. (American Labor Museum).
Por Paul Heideman*

Hubert Henry Harrison é o mais importante militante negro do qual você talvez nunca tenha ouvido falar. Enquanto outras figuras importantes do movimento negro, de W. E. B. Du Bois a Ella Baker e Malcolm X, são homenageadas, desde nomes de rua a selos postais, Harrison permanece nas sombras, em grande parte desconhecido, exceto por especialistas em história negra. Em seu tempo, no entanto, foi uma figura que estava ao lado de gigantes como Marcus Garvey, Ida B. Wells e A. Philip Randolph.

Foi também um dos primeiros socialistas negros nos EUA. E desenvolveu, no Partido Socialista, uma análise de como o capitalismo produz a desigualdade racial, e pressionou o movimento dos trabalhadores a lutar diretamente contra ela. Membro da ala esquerda do partido, Harrison foi expulso durante as lutas de facção antes da Primeira Grande Guerra. Criou então seu próprio jornal e liderou o movimento negro no Harlem após a guerra.

Ao longo de sua breve vida, Harrison insistiu em ligar a luta contra a opressão racial à luta contra o capitalismo. O trabalho de sua vida inspira hoje aqueles que tentam se juntar a essas duas lutas.

Harrison nasceu em Saint Croix, uma pequena ilha do Caribe, em 1883. Aos sete anos de idade, trabalhava como empregado doméstico. Quando sua mãe morreu em 1898, ele imigrou para Nova York, onde terminou o ensino médio e conseguiu um emprego nos correios. Logo se tornou um líder intelectual, organizando grupos de discussão política entre seus colegas de trabalho e se lançando na cena de palestras e debates de rua em Nova York.

Um forte defensor da igualdade racial, Harrison logo entrou em conflito com a figura política negra mais importante de sua geração, o acomodacionista Booker T. Washington. Harrison escreveu uma carta ao jornal New York Sun criticando a afirmação de Washington de que "os estados do Sul oferecem aos negros chances melhores do que quase qualquer outro país do mundo".

Harrison criticou Washington por seu silêncio sobre os ultrajes do racismo e o acusou de manter sua posição como líder da raça "pela graça dos brancos que escolhem os líderes das pessoas de cor".

Washington nunca se dignou a responder através da imprensa; em vez disso respondeu usando sua posição como distribuidor de empregos para negros, mandou demitirem Harrison dos correios.

Mas o plano de Washington fracassou - menos de um mês depois de perder seu emprego, Harrison foi contratado como palestrante e organizador do Partido Socialista, que era uma grande organização, particularmente em Nova York, ao qual Harrison se filiou em 1911. Em todo o país, os socialistas ganhavam eleições para câmara municipais e assembléias estaduais; em Wisconsin, o líder socialista Victor Berger conseguiu uma vaga naCâmara Federal. Mas o partido não ia bem entre os trabalhadores negros apesar do forte debate, desde sua fundação, sobre a “questão racial”.

A tarefa de Harrison foi mudar isso. Tendo sido contratado como organizador durante a campanha municipal de 1911, a missão do jovem intelectual era aumentar o apoio ao partido entre os eleitores negros. Ele se mostrou extremamente eficaz, sendo pioneiro no uso de materiais de campanha socialistas dirigidos aos negros. O resultado foi bom; o partido teve seis mil votos a mais desde a última eleição, impulsionado em parte pelo aumento do apoio entre os eleitores negros. O partido, claramente impressionado com a perspicácia de Harrison, o contratou como palestrante e organizador em tempo integral "com o propósito de estabelecer um núcleo de uma organização entre as pessoas de cor".

Harrison logo começou a trabalhar, ajudando a montar um “Colored Socialist Club” (Clube Socialista de Pessoas de Cor) em Nova York e escrevendo uma série de artigos sobre “O Negro e o Socialismo” em "New York Call". A série de cinco partes apresentava uma análise da opressão racial nos EUA que era mais sofisticada do que qualquer coisa até então produzida pelos socialistas locais. Era uma compreensão materialista do racismo, sustentando que não resultava nem do preconceito racial “natural”, nem das más ideias dos brancos, mas da “falácia do medo econômico”, através da qual “a concorrência econômica cria preconceito racial." Era do interesse dos capitalistas, escreveu ,"preservar o status econômico inferior da raça de cor, porque eles sempre podem usá-la na concorrência contra os outros trabalhadores".

E era do interesse do Partido Socialista (SP) lutar contra essas idéias racistas. O partido, Harrison argumentou, teve que assumir a causa de "toda da humanidade oprimida" e rejeitar a política suicida de excluir os trabalhadores negros (como na época fizeram muitos sindicatos na American Federation of Labor - AFL; em português, Federação Americana do Trabalho). Para Harrison, socialistas e negros precisavam um do outro:

"Se a derrubada do atual sistema deveria elevar uma nova classe ao poder; uma classe à qual o negro pertence; uma classe que nada tem a ganhar com a degradação de qualquer parte de si mesma; essa classe removerá a razão econômica da degradação do negro. Essa é a promessa do socialismo, o movimento da classe trabalhadora. No triunfo final desse movimento está a única esperança de salvação desta segunda escravidão; de negros e brancos."

Infelizmente, quando Harrison divulgava sua análise pioneira do racismo, havia no partido quem trabalhasse contra ele e suas ideias. A luta de facção entre as alas esquerda e direita chegava ao auge, em grande parte devido às atitudes em relação aos sindicalistas revolucionários do Industrial Workers of the World (IWW - Trabalhadores Industriais do Mundo), que abraçou o sindicalismo de luta de classes e desprezou tanto a cooperação com os patrões quanto o sindicalismo “puro e simples” da AFL. Crucialmente para Harrison, o IWW também organizou ativamente trabalhadores negros. Enquanto isso, a ala direita do partido priorizou a aliança com os sindicatos da AFL, temendo o IWW como revolucionário. Em 1912, a ala direita afastou do partido o líder da IWW, Big Bill Haywood, que também era membro do comitê executivo do SP; em consequência, muitos esquerdistas saíram com ele.

A ligação de Harrison com a esquerda do partido o colocou em uma posição precária em Nova York, desde que um dos principais adversários de Haywood, Morris Hillquit, passou a dirigir o SP.

E começou a restringir o trabalho de Harrison, proibindo-o até como palestrante. Harrison, que nunca desistiu da luta, enviou uma nota curta para o comitê executivo dizendo que, se minha cor tiver algo a ver com isso, eu deveria agradecer-lhes por me avisar.

Harrison foi acusado de desrespeito ao comitê executivo e teve sua filiação suspensa por três meses. Quando a punição foi suspensa, Harrison havia deixado o Partido Socialista, e se tornado um militante independente, abrindo seu próprio caminho na esquerda de Nova Iorque. Deu palestras sobre temas que iam do ateísmo ao controle da natalidade, e se tornou um dos oradores de rua mais respeitados da cidade.

Quando a Primeira Grande Guerra estourou, Harrison viu uma nova oportunidade para o avanço negro. Ao se opor à guerra, repetiu argumentos de W. E. B. Du Bois e Vladimir Lênin, que encaaravam o conflito como uma disputa entre as potências européias para dominar o mundo. Ele esperava que, ao final, lavada por seu batismo de sangue, a raça branca seria menos capaz de se impor às outras raças. Enquanto os imperialistas lutavam entre si, os colonizados deviam se erguer. A Rebelião da Páscoa de 1916 na Irlanda foi o exemplo do tipo de ação que Harrison esperava ver espalhada pelo mundo colonial. "O povo negro dos EUA nunca chegaria a nada politicamente até que achasse conveniente imitar os irlandeses da Grã-Bretanha", escreveu.

Harrison tomou a iniciativa de começar essa imitação. Na véspera de Natal de 1916, fez uma palestra intitulada “Quando o negro desperta: uma palestra sobre o movimento de homens entre os negros dos EUA”, que analisou e catalisou uma nova militância negra. Na esteira do sucesso da palestra, Harrison fundou a Liberty League (Liga da Liberdade), uma organização dedicada à luta negra contra a supremacia branca, e o primeiro grupo identificado com o nascente "New Negro Movement" (Novo Movimento Negro). Obteve fundos para criar um jornal, o Voice, editado por ele, que enfocou, em particular, a autodefesa armada contra os linchamentos de negros que se espalhavam à medida em que a economia de guerra atraía trabalhadores afro-americanos para fora do Sul rural.

A Voice decolou rapidamente, freqüentemente alcançando a circulação de dez mil exemplares por edição. Também chamou a atenção dos concorrentes políticos de Harrison. Fred Moore, um dos apoiadores de Booker T. Washington, rejeitou a Voice alegando que “os negros não aprovam explosões socialistas radicais, como apelar para se defenderem contra os brancos”.

Como no caso do Partido Socialista, entretanto, elementos mais conservadores trabalharam para minar a atividade política de Harrison. Seus concorrentes pressionaram os impressores, interferindo na capacidade do jornal de sair em tempo hábil. Harrison também se recusou, por motivos de orgulho racial, a receber dinheiro publicitário da grande indústria de alisadores de cabelo e branqueadores de pele que davam financiamento crucial para outros jornais negros. Seu comportamento pessoal também não ajudou - sempre desinteressado em questões financeiras, Harrison lidou mal com o dinheiro. Em novembro de 1917, a Voice fechou, apenas cinco meses depois de seu aparecimento.

Harrison também logo enfrentou uma concorrência formidável pela liderança dos cidadãos negros politicamente inquietos do Harlem. Marcus Garvey, um impressor nascido na Jamaica, veio para os EUA em 1916 e começou a construir sua organização nacionalista negra, a United Negro Improvement Association (UNIA;em tradução livre, União dos Negros para a Melhoria).

Recrutando muitos dos primeiros apoiadores de Harrison, a UNIA se transformou em uma organização de massa, e chegou rapidamente a dezenas de milhares de filiados. Em 1920, o próprio Harrison aceitou um emprego como editor do jornal de Garvey, "The Black World" (O Mundo Negro).

Harrison morreu numa operação de apendicite em 1927 com a idade de quarenta e quatro anos. Sua morte não foi amplamente notada, apesar de sua proeminência na década anterior. E de, nos anos que se seguiram a 1920, ter contribuido para a cultura política militante de Nova York, embora nunca com a influência que teve como membro do Partido Socialista ou como líder do Novo Movimento Negro.

Quase um século depois, os contemporâneos de Harrison, como Garvey e A. Philip continuam mais conhecidos que ele, embora Harrison estivesse muito mais estabelecido na política de esquerda do Harlem muito antes de qualquer um deles. A obscuridade de Harrison - heroicamente combatida nos últimos anos pelo estudioso Jeffrey Perry - pode ser resultado de sua falta de sucesso na construção institucional. Enquanto o jornal de Randolph, o "Messenger", e a UNI de Garvey, colocaram sua marca em uma geração de política negra, os esforços de Harrison naão tiveram fôlego. Como resultado, sua considerável influência e originalidade não receberam o devido reconhecimento.

No entanto, sua contribuição continua vital. Particularmente no Partido Socialista, Harrison articulou uma visão clara do papel do racismo na divisão do movimento dos trabalhadores e na necessidade dos socialistas atacarem a opressão racial onde quer que ela ocorra. E enquanto Harrison se desiludiu com o SP, particularmente seu conservadorismo em torno de questões de raça e trabalho, ele nunca abandonou sua crença de que somente o socialismo traria libertação aos americanos negros.

Hoje, o trabalho de Harrison permanece inacabado. Realizar os ideais de igualdade e democracia que o guiavam ainda requer, em suas palavras, “uma revolução. . . surpreendente até pensar nela".

*Paul Heideman é PhD em estudos americanos pela Rutgers University-Newark.
Fonte: Jacobin | Tradução: José Carlos Ruy (Portal Vermelho)

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