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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

"Grito dos excluídos" e "Tsunami da Educação" levam milhares às ruas contra Bolsonaro

Todos os estados registraram atos em defesa da Amazônia, da soberania nacional e da educação pública.



Milhares de pessoas foram às ruas de todos os estados neste sábado (7) contra os retrocessos promovidos por Jair Bolsonaro (PSL). A 25ª edição do "Grito dos Excluídos" criticou as ações do atual governo contra a educação pública e a soberania nacional e denunciou o desmatamento na Amazônia. Entidades estudantis como a União Nacional dos Estudantes (UNE) se somaram aos atos na maior parte das capitais, em mais uma edição do chamado "Tsunami da Educação".
Segundo a Central dos Movimentos Populares (CMP), 132 cidades participaram do "Grito". O lema das mobilizações deste ano é "Este sistema não vale: lutamos por justiça, direitos e liberdade".
Para além das denúnicas tradicionais, como a desigualdade social, o desemprego e a restrição de direitos à maioria da população brasileira, as manifestações deste ano ganharam o apoio dos estudantes contra os desmontes educacionais promovidos por Jair Bolsonaro (PSL) e seu ministro da educação, Abraham Weintraub.
O MEC divulgou esta semana que, em 2020, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior (Capes) só terá metade do orçamento de 2019. Na proposta de orçamento para o ano que vem, a perda prevista para a pasta é de 9%. "O Estado precisa de ciência e de desenvolvimento para que toda sua população esteja bem, com dignidade", disse a pesquisadora Thamiris Oliveira, da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG).



Thamiris Oliveira foi ao ato em Brasília e criticou a gestão Weintraub. (Foto: Cristiane Sampaio)
Nicolas Nascimento, de 20 anos, participou do Grito dos Excluídos pela primeira vez. Para ele, as manifestações precisam barrar a retirada de direitos em curso no país. “Este 7 de setembro é um marco pra eles, que defendem tanto a bandeira do Brasil, mas, na verdade, só querem entregar as riquezas nacionais. O mais importante é, neste momento, a gente se mobilizar contra o governo, que está tirando cada vez mais direitos”, afirmou.

Nicolas Nascimento ressaltou a necessidade da luta pela soberania. (Foto: Cristiane Sampaio)
Outro assunto abordado na mobilização desse ano foi o desmatamento da Amazônia. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o número de queimadas na região triplicou em relação a agosto do ano passado, passando de 10.421 em 2018 para 30.901 em 2019.
“Há 25 anos denunciamos a desigualdade social, o desemprego e a falta de políticas públicas ataques à educação, com o congelamento de quase R$ 6 bilhões de reais, a perseguição contra reitores e entidades estudantis. Além disso, há o meio ambiente e a destruição da floresta amazônica”, explicou Raimundo Bonfim, coordenador nacional da CMP.

A defesa da Amazônia e o combate ao desmatamento fizeram parte da Grito dos Excluídos neste ano. (Foto: MAB)
Região Sudeste
Em São Paulo (SP), o ato começou às 9h na praça Osvaldo Cruz, região central. Entre os manifestantes, havia centenas de estudantes vestindo camisetas pretas - em sinal de "luto" – com o rosto pintado de verde-amarelo.
A medida é uma provocação ao presidente Jair Bolsonaro (PSL), que pediu que a população saísse às ruas vestindo verde-amarelo. Os jovens entoaram cantos como “Ô, cara pintada voltou!”, e “Quero estudar, para ser inteligente, porque de burro já basta o presidente”. O ato, que segundo os organizadores reuniu 15 mil pessoas, teve como destino final o Monumento às Bandeiras, no Parque do Ibirapuera.

 Ato em São Paulo terminou no Monumento às Bandeiras, no Parque do Ibirapuera (Foto: Elineudo Meira) 
"Força, Brasil! Coragem. Vai passar", disse o escritor português Valter Hugo Mãe, que participou do ato em São Paulo. Ele afirmou que se solidariza com "a luta de todas as pessoas que estão a ser discriminadas pelo regime no Brasil", e ressaltou: "Todas as minorias juntas são, afinal, a maioria".
Em Campinas (SP), as mobilizações tiveram a participação de assentados do acampamento Marielle Vive, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Cidades como Rio Claro, Mogi das Cruzes, São José do Rio Preto  e Sorocaba também registraram atos.
Em Vitória (ES) e Rio de Janeiro (RJ) também houve manifestações contra Bolsonaro e em defesa da soberania nacional e popular.
Em Minas Gerais, protestos aconteceram em Belo Horizonte e Montes Claros. Na capital, a concentração foi realizada no viaduto Santa Teresa. Estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) estiveram no local, assim como Adilia Sozzi, do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras por Direitos (MTD), que prometeu: “O número de ocupações vai aumentar, porque o povo brasileiro vai resistir e lutar pelo direito à moradia”.

Protestos em Minas Gerais pediram "respeito à vida". (Foto: Brasil de Fato MG)
Em Montes Claros, manifestantes criticaram a empresa Vale, responsável pelo crime de Brumadinho (MG), no início do ano, quando houve o rompimento da barragem no Córrego do Feijão. “O lucro não vale a vida”, dizia um dos cartazes
Centro-Oeste
A maior mobilização da região ocorreu em Brasília (DF). Paralelamente ao desfile oficial de 7 de Setembro, realizado todos os anos pelo governo federal e as Forças Armadas na Esplanada dos Ministérios por ocasião do Dia da Independência, manifestantes se concentraram na Torre de TV, a poucos quilômetros dali, para bradar por direitos sociais, garantias trabalhistas, liberdade e soberania nacional.
As atividades envolveram oficinas e um ato político-cultural, com a participação de representantes de mais de 50 segmentos, entre religiosos, sindicatos, movimentos populares, associações de moradores e coletivos.
A indignação das ruas lembrou pautas como o movimento “Lula Livre”, o combate à militarização nas escolas, a defesa da Amazônia e dos diferentes ecossistemas, além da crítica à reforma da Previdência e à política fiscal do presidente Jair Bolsonaro (PSL).



A luta pela liberdade de Lula também foi lembrada no "Grito". (Foto: Cristiane Sampaio)

Os participantes condenaram o gasto de R$ 971 mil do governo com o desfile oficial deste ano, que abocanhou 15% a mais da verba utilizada no evento no ano passado. “Não pago esse mico. Esse desfile é pão e circo”, bradou um grupo de percussionistas que energizou e mobilizou os manifestantes no local.
Para a secretária-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Thaisa Daiane, a confluência de forças observada nos protestos que ocorreram neste sábado pelo país demonstrou que há um movimento expressivo de oposição ao governo Bolsonaro.
“Eu considero como satisfatório porque a gente conseguiu mobilizar e reivindicar. A gente está se fortalecendo. Quanto mais unidos, a gente tem mais força. A gente não pode perder a esperança”, acrescenta.
Região Nordeste
No Recife, os pernambucanos se concentraram logo cedo, às 8h da manhã, na praça do Derby. A manifestação foi organizada por setores da Igreja Católica, movimentos populares, organizações não-governamentais, estudantes e partidos de esquerda.
Em seu pronunciamento, Dom Fernando Saburido, arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife, afirmou que “o 'Grito dos Excluídos' é para sermos as vozes daqueles que precisam conquistar seus direitos, por isso estamos aqui como Igreja, presente, cumprindo nosso papel junto às pessoas mais pobres”.

Levante Popular da Juventude foi um dos movimentos presentes no Recife. (Foto: Marcos Barbosa | Brasil de Fato)

Em Fortaleza (CE), a concentração começou às 8h, na Praia do Futuro. A caminhada seguiu até a praça Dom Hélder Câmara, com distância aproximada de 4km.



Caminhada e batucada contra Bolsonaro no Ceará. (Foto: Comunicação | MTD)

 
Ainda no Ceará, em Juazeiro do Norte, a Paróquia Nossa Senhora das Candeias, pastorais sociais e o Movimento das Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD) marcharam na sexta-feira (6). Também na sexta, a capital João Pessoa, na Paraíba, também reuniu Movimentos sociais, estudantes, trabalhadores e trabalhadoras na prévia do "Grito dos Excluídos".
No Rio Grande do Norte, os atos aconteceram na cidade de Mossoró. Educação, Amazônia e soberania nacional estiveram na pauta dos manifestantes.
Em Salvador (BA), os atos aconteceram no centro da capital, após o desfile cívico. Houve um protesto pacífico, na Praça Campo Grande.
Região Sul
Em Porto Alegre (RS), no Parque da Redenção, mesmo com o adiamento do ato dos estudantes para o dia 13 por conta do mal tempo, milhares se reuniram em protesto. Protestos também ocorreram em cidades do interior, como Caxias do Sul (RS).


 

Concentração no parque da Redenção, na capital gaúcha. (Foto: Marcelo Ferreira)
Também em Porto Alegre, chargistas mostraram obras censuradas. As obras sobre "Independência em risco" foram expostas na Câmara dos Vereadores, mas acabaram recolhidas em menos de 24 horas por ordem da presidenta da casa, a vereadora Mônica Leal (PP).



Chargistas mostram obras censuradas. (Foto: Marcelo Ferreira)
Em Santa Catarina, três cidades protestos na manhã deste sábado (7): Florianópolis, Chapecó e Joinville.
Em Curitiba (PR), os manifestantes se concentraram no final da tarde em frente ao prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), na praça Santos Andrade. Soberania nacional, defesa da educação pública e da liberdade do ex-presidente Lula (PT) foram as principais pautas do dia.
Região Norte
Mais de 5 mil pessoas levaram faixas e cartazes para a avenida Nazaré, em Belém (PA). A caminhada, iniciada às 10h, seguiu pela avenida Presidente Vargas.



Manifestação contra o "Future-se". (Foto: Viviane Brigida | MST)
Nos demais estados da região, o "Grito dos Excluídos" teve como pauta principal o fim do desmatamento e das queimadas na Amazônia, que atingiram nível recorde no governo Bolsonaro.
Além da CMP, participam dos atos a UNE, UEE, Marcha Mundial das Mulheres, UMM, FLM, CUT, entre outras entidades.
 Edição: Guilherme Henrique

sábado, 7 de setembro de 2019

Governo mira movimento estudantil e propõe acabar com carteirinha da UNE, UBES e APG

Não está claro se o direito à meia-entrada está ameaçado; carteirinhas são a principal fonte de renda das entidades.

Mulher segura placa de protesto durante o Tsunami pela Educação, dia 15 de maio / Foto: Nelson Almeida/AFP.
Marcos Hermanson

O presidente Jair Bolsonaro deve assinar nesta sexta-feira (06) uma medida provisória acabando com as carteirinhas estudantis emitidas pela UNE, UBES e APG. Batizada de “MP da Liberdade Estudantil”, a medida instituirá uma nova carteirinha estudantil digital.

Ainda não está claro como o novo documento funcionará ou se a Lei 12.933/2013 – que regulamenta o direito da meia-entrada e os repasses para entidades estudantis – será revogada. 

A receita gerada pela emissão das carteirinhas é a principal fonte de renda das entidades estudantis, que durante este ano protagonizaram alguns dos maiores enfrentamentos ao governo Bolsonaro.

A mudança vinha sendo ensaiada desde o início do mandato, mas encontrou resistência no corpo técnico e jurídico do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), encarregado pelo Ministério da Educação de elaborar o novo cartão.

Questionado, o presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), Pedro Gorki, explica que com as verbas do documento estudantil as entidades organizam eventos, encontros de mulheres, de estudantes de escolas técnicas, de entidades estaduais e municipais; bienais culturais e festivais. "E a própria organização da luta política cotidianamente, como os atos em defesa da educação", explica.

Ele afirma que, mais do que o temor pelo esgotamento financeiro, as direções estudantis temem o fim da meia-entrada: "Sobretudo, a gente se preocupa com o direito dos estudantes à meia-entrada, porque a gente não sabe qual é o texto dessa MP. Temos muito medo de que ela possa ferir a constituição, que possa ferir a lei nacional da meia-entrada".

O estudante de jornalismo Lucas Reinehr, que integra a diretoria plena da União Nacional dos Estudantes (UNE), argumenta que a MP “é um ataque direto à autonomia financeira da entidade e uma tentativa de desmobilizar o movimento estudantil”. Na sua avaliação, com a mudança as entidades terão “menos condições de garantir as mobilizações, os fóruns de discussão e o deslocamento dos diretores e diretoras que vão para as universidades organizar o movimento estudantil”.

Um ano de ataques à educação pública

Em abril deste ano, o governo Bolsonaro anunciou o congelamento de 30% das verbas de todas as universidades e institutos federais do país. A medida acabou gerando a maior onda de manifestações contra o mandatário registradas em seu curto mandato, com centenas de milhares indo às ruas nos dias 15 e 30 de maio, e depois novamente no dia 13 de agosto.

Em julho, foi anunciado o programa Future-se, que prevê a entrada de empresas privadas no financiamento e administração das universidades federais do país. O presidente também têm ignorado as eleições de reitores realizadas dentro das instituições de ensino e nomeado figuras alinhadas para ocupar os cargos máximos de direção nessas instituições.

Apresentado pelo governo ao Congresso Nacional na última sexta-feira (31), o Projeto de Lei Orçamentária (PLOA) prevê corte de R$ 21 bilhões, ou 17%, no orçamento do MEC para o ano que vêm.

Nesta segunda (02) a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) anunciou o corte de 5.613 bolsas de fomento à pesquisa, aumentando para 11.811 o número de auxílios cortados apenas neste ano. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por sua vez, anunciou que não terá dinheiro para pagar 84 mil bolsistas a partir deste mês.

Mobilização

A UNE, UBES e APG estão convocando um novo dia de mobilizações contra o desmonte da educação pública e em defesa da Amazônia para este sábado, dia 07 de setembro. "Não vai ser nenhum ataque do governo Bolsonaro - seja jurídico, financeiro ou político - que vai fazer com que a gente deixe de lutar pela educação e pelo Brasil", diz o presidente da UBES.

Edição: Rodrigo Chagas

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Estudantes irão às ruas no dia 7 com roupas pretas e caras pintadas de verde-amarelo

A ideia é manifestar luto em relação às políticas de Bolsonaro sem abandonar as cores da bandeira nacional.

Manifestações de maio levaram mais de um milhão às ruas contra Bolsonaro / Mídia Ninja

Roupas pretas e rostos pintados de verde-amarelo. Assim estarão os estudantes que irão às ruas no próximo sábado (7) para protestar contra o desmonte da educação pública no governo Bolsonaro (PSL) e contra a destruição da Amazônia. Segundo a União Nacional dos Estudantes (UNE), a ideia é manifestar “luto” em relação às políticas de Bolsonaro, sem abandonar as cores da bandeira nacional.

“Bolsonaro soltou uma declaração convocando os brasileiros e brasileiras a irem às ruas no dia 7 de camisa verde amarela. Nós já estávamos convocando o ato do dia 7 como mais um dia em defesa da educação e em defesa da Amazônia, contra as queimadas, que vai se somar ao Grito dos Excluídos. Com essa declaração do Bolsonaro, a gente revive um pouco do que aconteceu na época em que o [ex-presidente Fernando] Collor fez a mesma convocação, e os estudantes foram às ruas de caras pintadas”, explica Julia Aguiar, diretora de políticas educacionais da UNE no Rio de Janeiro.

A estudante se refere às manifestações de rua de 1992 que precederam o impeachment do então presidente da República.

“A ideia de ir de camisa preta é pelo luto em relação à forma como o governo tem tratado a população brasileira, mas resgatando os símbolos nacionais com as nossas caras pintadas de verde e amarelo. Para nós, é um erro que o símbolo nacional fique nas mãos daqueles que querem entregar a Amazônia e a educação”, completa Aguiar.

Esta é a quarta manifestação nacional contra as políticas do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e seu ministro da Educação, Abrahan Weintraub, para o setor. As anteriores, em 15 de maio, 30 de maio e 13 de agosto, levaram milhões de pessoas às ruas de todo o país.

Estão confirmados atos em pelo menos 19 estados. Confira a lista completa:

Rio Grande do Sul: Porto Alegre, às 15h, no Parque Farroupilha, Redenção.

Santa Catarina: Florianópolis, 8h30, na Catedral.

Paraná: Curitiba, às 11h, na praça Santos Andrade.

São Paulo: São Paulo, às 10h, na praça Oswaldo Cruz. Em Campinas, às 14h, no Largo do Rosário.

Minas Gerais: Belo Horizonte, às 9h, no viaduto Santa Tereza. Em Uberlândia, às 8h30, no Terminal Central.

Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, horário a definir, na Candelária.

Espírito Santo: Vitória, às 8h, na Praça de Porto de Santana.

Goiás: Goiânia, às 8h30, na Catedral de Goiânia.

Brasília: Plano Piloto, às 15h, na praça dos Três Poderes.

Mato Grosso: Cuiabá, às 15h, na praça Cultural do CPA II.

Amazonas: Manaus, às 15h, na praça da Saudade.

Pará: Belém, às 8h, no Terminal Rodoviário São Brás. Em Santarém, às 8h, na Praça São Sebastião.

Bahia: Salvador, às 8h, praça Campo Grande.

Pernambuco: Recife, às 8h, na praça do Derby.

Ceará: Fortaleza, às 8h, na avenida Dioguinho; e às 15h, na praia de Iracema.

Rio Grande do Norte: Natal, às 8h, na praça Heróis dos Pescadores

Maranhão: São Luís, às 10h, na Areinha

Paraíba: João Pessoa, às 14h, na igreja de Nossa Senhora das Neves. Em Campina Grande, às 8h30, na Catedral.

Alagoas: Maceió, às 9h, na praça Sinimbu.

Edição: Daniel Giovanaz

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Doña Bárbara, o maior clássico da literatura venezuelana completa 90 anos

O escritor Rómulo Gallego é comparado ao brasileiro Machado de Assis e teve 15 indicações ao Prêmio Nobel de Literatura.

Depois de nove décadas Doña Bárbara continua fazendo parte do imaginário venezuelano / Foto: Fania Rodrigues.
Fania Rodrigues

A Venezuela também é um celeiro da literatura latino-americana. O mais clássico dos romances venezuelanos, o livro "Doña Bárbara", de Rómulo Gallego, completou 90 anos em 2019. Sua primeira edição foi publicada em 1929. Desde então foi traduzido em 12 idiomas e reeditado mais de 20 vezes na Venezuela.

A obra chegou a ser considerada como "possivelmente o romance latino-americano mais conhecido", pela Hispanic Review, revista estadunidense dedicada à publicação de pesquisas e obras literárias hispânicas.

Gallego está para a literatura venezuelana, como Machado de Assis está para a brasileira. Doña Bárbara retrata a Venezuela rural dos anos 1920, a disputa pela terra, o poder do latifúndio, o classismo, mas também a reconciliação racial, assim como os vícios e virtudes do homem e da mulher venezuelanos.

O autor também fez carreira política, chegando a governar o país por nove meses, e trabalha alguns aspectos da construção cultural da sociedade venezuelana.

O petróleo e o êxodo rural

“Gallego retrata nesse livro a parte mais nobre dos homens e das mulheres venezuelanos, mas também a mais miserável”, afirma o escritor venezuelano Nelson Guzman, doutor em filosofia e professor de Ciências Sociais da Universidade Central da Venezuela.

Escritor Nelso Guzman fala sobre os 90 anos do livro de Rómulo Gallego (Foto: Fania Rodrigues).
A história se passa no estado de Apure, na planície venezuelana, na época em que começou o êxodo do campo para a cidade.

A Venezuela é o país com a menor população rural da América Latina. Justamente na década de 1920, o país passou a exportar petróleo e deu um giro na sua economia. Em 1928, a Venezuela era o segundo maior produtor e exportador de petróleo do mundo, com 275 mil barris por dia. Foi o petróleo venezuelano que possibilitou a etapa estadunidense da segunda Revolução Industrial.

Esse processo de industrialização com base no petróleo acelerou a migração interna. Foi nessa efervescência econômica e a transição entre o rural e o urbano que sugiram os personagens de Rómulo Gallego, um autor que terminou influenciando várias gerações de escritores latino-americanos.

Reza a lenda que o romance teria sido escrito em tão somente 27 dias, em algum mês do ano de 1927, segundo o escritor venezuelano Nelson Guzman (Foto: Fania Rodrigues).
O sexto dos 17 livros escritos por Gallego, Doña Barbara é considerado sua obra-prima. Apesar de ter ganhado o Nobel, o trabalho do escritor venezuelano recebeu quinze indicações ao Prêmio Nobel de Literatura, de acordo com a Academia Sueca.

Um certo Evaristo Luzardo, forasteiro rico que decidiu se instalar na zona e fundou por lá sua fazenda: Altamira. Quanto Evaristo morre começa a etapa mais intensa da trama, pois a longa extensão de terra passa a ser o centro das disputas. O herdeiro de Evaristo, o jovem Santos Luzardo, havia mudado para a capital, Caracas, ainda adolescente, onde estudou e se tornou “doutor” (advogado).

Nesse meio tempo, a fazenda esteve abandonada nas mãos de administradores de reputação duvidosa. O descuido que permitiu a ascensão da personagem que dá título ao livro: Doña Bárbara, que toma as rédeas da administração da fazenda, que nesse momento já tinha mudado de nome e passou chamar Barcareña.

O autor descreve a personagem principal, Doña Bárbaba, como uma mulher de origem indígena de beleza única: ela é quem tem o controle da situação. Bárbara é uma sobrevivente da violência do campo e do machismo, que mais tarde fez uso da violência em benefício próprio.

Quando o herdeiro, Santos Luzardo, decide vender a fazenda para mudar-se para o exterior, ele volta ao lugar e se dá conta do abandono e do descuido. Doña Barbara, por sua vez, tinha tornado-se violenta, astuta e severa.

Doña Bárbara representava então a barbárie típica do campo nessa época. Suas formas contraditórias são o produto de sua herança mestiça e refletem o comportamento selvagem de seu ambiente. Seu comportamento é uma reação ao trauma que sofreu em sua infância, tendo sido vítima de estupro.

Já o advogado Santos Luzardo é caracterizado pelos modos típicos da "civilização e do progresso", um homem com "grande profundidade psicológica e é essencialmente uma boa pessoa".

Santos apaixona-se por Bárbara.

Para o crítico de arte Alejandro Carrillo, o personagem Santos Luzardo tinha algo de Hamlet. “Ele levanta questões muito simples mas esclarecedoras sobre a incerteza que o rodeia, as intrigas do palácio, o envenenamento do pai, a traição. ‘Algo fede no reino da Dinamarca’, disse o príncipe dinamarquês. Algo cheirava mal na atmosfera da terra natal do jovem advogado apressado, quando percebeu que em sua fazenda tinha algumas coisas que não iam bem”.

Também escritor e professor de Música da Universidade Central da Venezuela, Alejandro Bruzual, concorda que Gallegos discute grandes dilemas. “O personagem Maricela, filha de Doña Bárbara, questiona o conceito de educação, pois ‘educação não é apenas ler e escrever’, diz a personagem. E tem esse conflito entre civilização e barbárie que a novela não resolve”, destaca.

Escritor e professor Alejandro Bruzual destaca particularidades de Doña Bárbara (Foto: Fania Rodrigues).
O escritor explica ainda que o livro possui várias metáforas. “O livro é permeado pela violência. A força da violência da nação. Vemos duas metáforas principais, uma delas é o cavalo selvagem, que representa a planície selvagem venezuelana. É o símbolo da força indomável da Venezuela do século 20, o espírito rebelde que está presente na cultura. E o segundo é a conciliação racial, apresentado pelos personagens Maricela e Nelson. É uma novela absolutamente otimista”, diz Alejandro Bruzual.

Portanto, esse romance, considerado um clássico da literatura, parece ter sido construído por Rómulo Gallego como uma peça sinfônica, com ritmo da boa pluma, algumas pausas e muitos pontos de tensão, onde estão presentes os dilemas e sentimentos universais.

Edição: Rodrigo Chagas e Daniela Stefano

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Odair José: “A democracia está mutilada no Brasil”

O cantor e compositor se apresentou na noite deste sábado (31) durante a 18ª Jornada de Agroecologia, em Curitiba.

Para Odair, em momentos de retrocesso a arte não pode permanecer omissa / Foto: Wellington Lenon.

Lu Sudré

“Sou a favor da reforma agrária, da agroecologia, da agricultura familiar e de tudo que se faz aqui”, disse Odair José minutos antes de entrar no palco e se apresentar para centenas de participantes da 18ª Jornada de Agroecologia. O evento acontece em Curitiba entre os dias 29 de agosto e 1º de setembro e reúne agricultores de todo país em defesa de outro modelo de agricultura.

Durante o show na Praça Santos Andrade, no centro da capital paranaense, o cantor e compositor apresentou suas músicas mais conhecidas e as faixas de seu novo disco “'Hibernar na casa das moças ouvindo rádio”, lançado este ano. Ao longo da apresentação, Odair se manifestou em defesa da democracia e da diversidade.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o cantor afirmou que o país está enfrentando um de seus piores momentos.

“A democracia está mutilada no Brasil. Ela vinha tão bem… começamos a ter governos democráticos. Mas veja o que aconteceu com o presidente Lula. Isso é uma injustiça, um golpe, um preconceito. No momento não existe democracia no Brasil”, ressaltou.

Para Odair, em momentos de retrocesso a arte não pode permanecer omissa. “Não se pode fazer perseguições políticas, usar julgamentos parciais para chegar ao poder. Para mim foi o que aconteceu”, disse, em referência à prisão do ex-presidente.

“Se depender de mim, que é pouca coisa, vou falar isso por aí. Quero ser o despertador na mente dessas pessoas que estão sendo manipuladas por alguns setores da mídia e da sociedade”.

Odair José fez show durante a 18ª Jornada de Agroecologia e se posicionou a favor da liberdade de Lula (Foto: Ton Cabano).
Confira a entrevista na íntegra.

Brasil de Fato - O que te motiva a estar aqui nesta noite, participando da 18ª Jornada da Agroecologia? Para o senhor, qual a relevância desse espaço?

Odair José - Esse evento é de maior importância. Estou feliz em participar. É a primeira vez que participo cantando mas sempre acompanho. Eu acompanho a reforma agrária no Brasil desde a época do João Goulart, sou a favor da reforma agrária, da agroecologia, da agricultura familiar e de tudo que se faz aqui. Sou a favor do produto limpo, isso é o melhor para a humanidade. Acho uma sacanagem tentarem brecar isso. Eu venho na esperança de estar ajudando um pouco.

O Brasil passa por um cenário político conturbado, com a retirada de muitos direitos sociais, e, inclusive com a paralisação da reforma agrária. Qual o papel da arte em um contexto como esse?

Evidentemente cada pessoa tem o direito de não fazer nada ou de fazer aquilo que acha que tem que fazer. Mas eu vejo que a arte não pode ser omissa. Não podemos ficar em uma zona de conforto achando que está em um arco-íris.

Se quem faz arte não sabe, tem que saber. A arte tem que participar das coisas do seu tempo. Eu sou um compositor e não posso, nesse momento, escrever algo como se estivesse tudo bem. Eu não me sinto bem fazendo isso. Eu procuro fazer música, subir no palco, de uma forma que o meu trabalho tenha relevância para o momento pelo qual meu país passa. E esse momento é péssimo. A arte tem obrigação de saber fazer essa leitura.

Quais são os principais problemas que enxerga nessa conjuntura, com o governo Bolsonaro?

Olha, tenho 71 anos de idade. Vi o que aconteceu em 1964. Morei no Rio de Janeiro em 1968, participei de muita coisa ligada à resistência naquele momento.

Acho que estamos vivendo uma época muito difícil, muito triste. Na minha opinião, sem querer ser pessimista, talvez seja uma das piore épocas que já vi.

A democracia está mutilada no Brasil. Ela vinha tão bem… começamos a ter governos democráticos. Mas veja o que aconteceu com o presidente Lula. Isso é uma injustiça, um golpe, um preconceito. No momento não existe democracia no Brasil.

A alternância de poder é necessária. O que não se pode é existir perseguição política, usar julgamentos parciais para chegar ao poder. Para mim foi o que aconteceu. Se depender de mim, que é pouca coisa, vou falar isso por aí. Quero ser o despertador na mente dessas pessoas que estão sendo manipuladas por alguns setores da mídia e da sociedade.

Qual a perspectiva para os próximo período, tanto para a arte quanto para a política?

Estamos vivendo um grande retrocesso no mundo… Por conta de Donald Trump, Boris Johnson. Não sei porque o Brasil resolveu seguir isso. Não vai ser bom.

As pessoas têm que entender o seguinte: Se o povo estiver bem, não tem como a elite estar. A elite só vai ser uma classe privilegiada se a outra ponta estiver mal.

Durante a Jornada, houve a apresentação de muitos artistas populares. Eles identificam que o lugar da arte é no front da resistência. Além dos agricultores, quilombolas e indígenas, outro grupo que esse governo odeia muito são os artistas. É um momento de se aproximar aos movimentos populares?

Eu estou aqui hoje com o MST, na Jornada de Agroecologia, porque acredito que temos que nos misturar com esse tipo de comunidade. Você citou que o governo atual também é contra arte… ainda bem! Tudo que eles metem a mão, atrapalham mais ainda.

Edição: Daniela Stefano

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Presidente alemão pede perdão aos poloneses 80 anos após o início da II Guerra Mundial

Há 80 anos, começava a Segunda Guerra Mundial. Mais de seis milhões de poloneses morreram – metade deles eram judeus.

FOTO: AFP
O presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, pediu neste domingo 01 perdão às vítimas da agressão alemã de 1939, durante uma cerimônia em Wielun, pequena cidade da Polônia que foi alvo das primeiras bombas da Segunda Guerra Mundial.
“Me inclino diante das vítimas do ataque de Wielun. Me inclino diante das vítimas polonesas da tirania alemã. E peço perdão”, afirmou Steinmeier, em alemão e polonês, na presença, entre outros, do presidente da Polônia, Andrzej Duda.

A Polônia foi duramente afetada pelos horrores da Segunda Guerra Mundial, quando perdeu seis milhões de habitantes, metade deles judeus.

“Foram os alemães que cometeram um crime contra a humanidade na Polônia. Quem quiser fingir que acabou, que o reinado do terror nacional-socialista sobre a Europa é um acontecimento marginal da história alemã, julga a si mesmo”, destacou Steinmeier.

O chefe de Estado parecia fazer referência à extrema-direita alemã. Um dos líderes do movimento, Alexander Gauland, afirmou recentemente que os anos do Terceiro Reich foram apenas um “excremento de ave” em um milênio alemão glorioso.

“Não vamos esquecer. Queremos lembrar e vamos lembrar”, acrescentou Steinmeier.

O presidente polonês Andrzej Duda afirmou que o fatídico ataque que iniciou a Segunda Guerra Mundial em Wielun no dia 1 de setembro de 1939 foi um “ato de barbárie e um crime de guerra”.

Duda também agradeceu a presença de Steinmeier em Wielun: “Estou convencido de que esta cerimônia entrará para a história da amizade polonesa-alemã”.

Fumaça, barulho, explosões
Após a cerimônia, os chefes de Estado deveriam visitar o museu de Wielun e se reunir com sobreviventes do ataque alemão em 1939.

“Vi mortos, feridos… Fumaça, barulho, explosões. Tudo queimava”, recordou uma testemunha do bombardeio, Tadeusz Sierandt, hoje com 88 anos, entrevistado pela AFP há poucos dias.

A agressão alemã começou com os bombardeios navais à guarnição de Westerplatte, na costa del Báltico, e aéreos à pequena cidade de Wielun. O ataque aconteceu uma semana depois da assinatura de um pacto secreto, o chamado acordo Ribbentrop-Molotov, entre a Alemanha nazista e a União Soviética para dividir a Europa entre ambas.

A Segunda Guerra Mundial deixaria entre 40 e 60 milhões de mortos, incluindo seis milhões de judeus, a maioria vítimas do Holocausto cometido pelos nazistas alemães.

No horário da cerimônia entre Duda e Steinmeier, o primeiro-ministro polonês Mateusz Morawiecki e o vice-presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans, estiveram em Westerplatte para recordar o combate desesperado de um pequeno grupo de poloneses na cidade de Gdansk, bombardeada por um navio de guerra alemão.

Timmermans ressaltou a necessidade de demonstrar gratidão por aqueles que lutaram pela liberdade e insistiu que “trabalhar pela tolerância é algo bom”.

Durante a tarde, precedido por Duda e Steinmeier, está previsto um discurso do vice-presidente americano Mike Pence na praça Pilsudski, em Varsóvia, diante da estátua do soldado desconhecido.

Reparações de guerra
A Alemanha é atualmente aliada da Polônia na Otan e na União Europeia, assim como o principal sócio econômico do país, mas para o governo conservador nacionalista de Varsóvia alguns problemas herdados do passado ainda esperam uma solução definitiva, mais concretamente as reparações de guerra.

Uma comissão parlamentar trabalha atualmente em uma nova estimativa das perdas sofridas pela Polônia, que o Executivo de Varsóvia deseja apresentar a Berlim. Para o governo alemão, no entanto, a questão está encerrada há muito tempo.

“Temos que falar sobre estas perdas, exigir a verdade e a compensação”, destacou Morawiecki neste domingo.

A chanceler Angela Merkel deve comparecer à cerimônia em Varsóvia, ao contrário do presidente francês Emmanuel Macron e do primeiro-ministro britânico Boris Johnson. O presidente russo Vladimir Putin não foi convidado em consequência da anexação da Crimeia e do conflito separatista na Ucrânia.

Uma comissão parlamentar trabalha atualmente em uma nova estimativa das perdas sofridas pela Polônia, que o Executivo de Varsóvia deseja apresentar a Berlim. Para o governo alemão, no entanto, a questão está encerrada há muito tempo.
“Temos que falar sobre estas perdas, exigir a verdade e a compensação”, destacou Morawiecki neste domingo.
A chanceler Angela Merkel deve comparecer à cerimônia em Varsóvia, ao contrário do presidente francês Emmanuel Macron e do primeiro-ministro britânico Boris Johnson. O presidente russo Vladimir Putin não foi convidado em consequência da anexação da Crimeia e do conflito separatista na Ucrânia.




segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Há 78 anos iniciou-se a 2ª guerra, a maior tragédia da humanidade

Em 1º de setembro de 1939 teria começado a maior guerra da humanidade, a Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha de Adolf Hitler invadiu a Polônia. Na verdade, ela começou antes, com a agressão do Japão à China.


Por Osvaldo Bertolino

Discursando em uma gigantesca manifestação da campanha do Partido Comunista do Brasil (então com a sigla PCB) pela Assembleia Nacional Constituinte, que seria instalada em 1946, em 21 de agosto de 1945, em frente à estátua de Rio Branco, na Esplanada do Castelo, o histórico dirigente comunista Maurício Grabois afirmou que aquele comício era, antes de tudo, uma festa de todos os povos livres, amantes da paz e da liberdade, dos comunistas do mundo inteiro que contribuíram decisivamente para o esmagamento militar do nazi-nipo-fascismo.

Grabois saudou os soldados que lutaram em todos os fronts, em especial o Exército Vermelho, “e, para glória nossa, os bravos rapazes da Força Expedicionária Brasileira, heróis de Monte Castelo”. “Mas esta festa, que é do povo e do proletariado, significa que pesa sobre nossos ombros de comunistas novas e maiores responsabilidades. Porque, na verdade, o nazi-nipo-fascismo foi esmagado militarmente, mas é preciso que nós liquidemos, para sempre, o fascismo, moral e politicamente”, conclamou.

E prosseguiu: “Para isso, no período de desenvolvimento pacífico que se abre diante de nós, temos que unir, concentrar todas as nossas forças a fim de que não se abatam sobre os povos, em todo o mundo, novas catástrofes como as que foram desencadeadas pelas forças do obscurantismo e da opressão.”

Política de Munique

No Japão, descrito por Maurício Grabois como “o último baluarte do fascismo”, os derradeiros lances da guerra mostraram o peso das armas soviéticas. “Na verdade, a contribuição da URSS foi decisiva: em onze dias, o Japão caiu de joelhos diante das forças aliadas. Isto é, aliás, significativo, principalmente para nós, porque o Japão foi o primeiro a iniciar esta guerra contra os povos livres do mundo, atacando de surpresa e monstruosamente o povo chinês, desarmado e pacífico. Esta guerra, portanto, não começou em 1939: começou muito antes, até que se transformou, sob o ponto de vista das democracias, numa guerra patriótica, de libertação e independência de todos os povos amantes da paz e da liberdade”, afirmou.

Segundo Maurício Grabois, desde o início do conflito os comunistas estiveram ao lado do povo chinês e de todos os povos. A voz dos comunistas, em todo o mundo, constituiu uma tremenda advertência. “Com efeito, os apetites do imperialismo nipônico não foram enfrentados e novas catástrofes se abateram sobre o mundo. Hitler e Mussolini, como era natural, iniciaram sua infame obra de divisão dos povos para com a quinta-coluna e seus exércitos escravizá-los. Contra o divisionismo do nazi-fascismo, os comunistas em todo o mundo levantaram ainda mais alto a bandeira da unidade dos povos, das democracias. Os comunistas enfrentaram o perigo, sacrificaram suas vidas em todo o mundo, em luta de morte contra Hitler e seus asseclas”, enfatizou.

No Brasil, disse Maurício Grabois, ainda estavam na lembrança de todos o heroísmo e o patriotismo com que os comunistas enfrentaram o nazi-integralismo. “Mas, infelizmente, nossa voz não foi ouvida. Os traidores quebrantavam o ânimo de todos os verdadeiros democratas. Litvinov (Maxim Maximovich Litvinov, ministro das Relações Exteriores soviético), na Liga das Nações, batalhava pela paz indivisível, pela união de todos os antifascistas contra Hitler. Mas, como sabemos, veio a política do capitulacionismo, de concessões, a política de Munique, que entregou, através de Chamberlain (primeiro-ministro britânico) e Daladier (primeiro-ministro da França), as democracias aos seus piores inimigos, aos seus algozes. Apesar de todas as provocações, os comunistas não traíram a causa da liberdade: lutaram contra Hitler e seus sequazes”, afirmou.

Quando os nazistas atacaram a URSS, lembrou Maurício Grabois, os povos soviéticos, sob a liderança dos comunistas, sabiam e souberam enfrentar e derrotar o hitlerismo. “Deram um exemplo de como se luta realmente pela liberdade. A guerra, a essa altura, se transformou numa guerra patriótica, pela independência e libertação dos povos”, destacou.

Organização da FEB

O Partido Comunista do Brasil se empenhou com tenacidade na luta anti-fascista e propôs a organização da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que lutaria em Nápoles, Itália. Com essa finalidade, o Partido abriu duas frentes de trabalho — reforçou a União Nacional dos Estudantes (UNE) e relançou a Liga da Defesa Nacional, entidade fundada em 1916 no Rio de Janeiro pelos intelectuais Olavo Bilac, Pedro Lessa e Miguel Calmon, sob a presidência de Rui Barbosa.

No dia 28 de novembro de 1943, o governo decidiu organizar a FEB. “Fomos os primeiros a reivindicar a participação militar do Brasil e o fizemos de maneira consequente”, segundo o histórico dirigente comunista João Amazonas. As Comissões de Ajuda, criadas às centenas em todo o território nacional, angariaram donativos, realizaram conferências e promoveram comícios populares. Todo esse trabalho foi coroado com a organização da FEB.

O desembarque do primeiro escalão da FEB em Nápoles, Itália, em 17 de julho de 1944, coroou o trabalho abnegado daqueles brasileiros que olhavam para o futuro e imaginavam o país livre da ditadura do Estado Novo e das ameaças nazi-fascistas. O Partido Comunista do Brasil mobilizou forças e organizou grandes ações em favor desse objetivo. E, após o término da guerra, enfrentaria seus efeitos.

No dia 9 de outubro de 1946, maurício Grabois, já como líder da bancada do Partido Comunista do Brasil na Câmara dos Deputados, ocupou a tribuna para denunciar o perigo que a guerra ainda representava. Ele reagiu, indignado, às palavras de Gilberto Freyre (UDN-PE) que, “em nome da consciência universal cristã”, protestou contra a pena de morte imposta aos criminosos nazista julgados em Nuremberg. Grabois disse: “A clemência para com esses bandidos nazistas em Nuremberg poderá significar, para o futuro, a morte de milhões de homens livres.”

O líder da bancada comunista também denunciou a proibição da entrada de judeus no Brasil pelo governo do general Dutra. “Ainda ressoa o eco das bombas da última conflagração e os mesmos preconceitos, as mesmas perseguições, ainda persistem no cenário mundial”, disse Grabois. “Hoje, após a derrota do nazi-fascismo, vemos se levantar as tentativas dos imperialistas norte-americanos e seus aliados para reacender a fogueira ateada por Hitler”, afirmou.

Nascimento da “Guerra Fria”

A guerra mostrou ser um negócio lucrativo. Durante os anos da Primeira Guerra Mundial, estima-se que os monopólios americanos obtiveram um lucro líquido de US$ 38 bilhões. Durante a Segunda Guerra Mundial, o lucro líquido foi de US$ 53 bilhões. Logo, uma violenta tempestade se formaria debaixo da calma aparente do pós-Segunda Guerra Mundial. Enormes áreas coloniais e semicoloniais do globo, agitadas com as novas esperanças de liberdade pelo exemplo da vigorosa vitória das forças democráticas, estavam despertando e ameaçando subverter a pesada estrutura do imperialismo. A revolução socialista cintilaria na China e começava a irromper na Coreia.

Eram acontecimentos anunciados como o fim dos tempos, obras de uma “conspiração moscovita”. O mundo capitalista, que se debatia nas garras da crise antes do início da Segunda Guerra Mundial enquanto a União Soviética embarcava em uma era de progresso, armava-se febrilmente para impedir o avanço do socialismo. O mito-propaganda da “ameaça comunista” trazia de volta o rame-rame dos velhos chavões que inundaram o mundo pelas ações do nazi-fascismo no entreguerras. Era o surgimento da nova face do anticomunismo, a “Guerra Fria”.

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