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sexta-feira, 11 de março de 2022

Combustíveis da Petrobrás dão novo salto: desde janeiro de 2021, preços da gasolina sobem 13 vezes e o do diesel, 11

General Joaquim Silva Luna, presidente da Petrobras. Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Escalada dos preços - Gasolina e diesel da Petrobrás têm maior alta desde janeiro de 2021

Por Alessandra Martins*

No Viomundo

O aumento de 18,7% da gasolina e de 24,9% do diesel S-10, anunciado hoje (10/03) pela Petrobrás, é o maior reajuste promovido pela estatal desde janeiro de 2021, quando teve início a escalada dos preços dos combustíveis no país.

É a segunda vez neste ano que a Petrobrás sobe o valor da gasolina e do diesel vendidos em suas refinarias.

O primeiro reajuste foi em 12 de janeiro, com alta de 4,9% no preço da gasolina e de 8,1% no litro do diesel S-10.

Com esse novo aumento, a gasolina deverá ultrapassar os R$ 7 na média nacional e o diesel poderá chegar ao valor médio de R$ 6,46 nos postos de abastecimento.

Levantamento do Observatório Social da Petrobrás (OSP), organização ligada à Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), aponta que desde janeiro do ano passado o maior aumento havia sido registrado em 19 de fevereiro de 2021.

Na época, a gasolina ficou 10,2% mais cara e o diesel, 15,2%.

Nesse período, incluindo a alta de hoje, a Petrobrás já aumentou 13 vezes o preço da gasolina e 11 vezes o do diesel.

Apesar do novo reajuste, a Refinaria de Mataripe, na Bahia, privatizada em dezembro do ano passado, continua com os preços acima da média da estatal.

A Acelen, gestora de Mataripe, vende o litro da gasolina 6,8% e do diesel 2,8% acima da média da Petrobrás. Em relação à gasolina, é o maior preço entre todas as refinarias do país.

“Os combustíveis já foram responsáveis por praticamente metade da inflação do ano passado. Em 2021 a Petrobrás vendeu petróleo e produtos derivados pelos maiores preços de sua história, como apontam os demonstrativos financeiros da companhia, inclusive gerando lucro acima dos R$ 100 bilhões. Temos muito petróleo e um grande parque de refino e não precisamos ser reféns dos preços internacionais. A Petrobrás tem condições de segurar os preços em prol da população brasileira, sem que isso lhe gere prejuízo”, afirma Eric Gil Dantas, economista do OSP e do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps).

*Alessandra Martins é jornalista, assessora de Imprensa do Observatório Social da Petrobrás (OSP).

quinta-feira, 10 de março de 2022

Indicador de emprego cai ao pior nível desde agosto de 2020

 


De acordo com o FGV Ibre, o pior desempenho foi do indicador de Situação Atual dos Negócios da Indústria.

Por Mariana Mainenti

No Portal Vermelho

O Indicador Antecedente de Emprego (IAEmp) do FGV IBRE piorou pelo quarto mês consecutivo, cedendo 1,4 ponto em fevereiro, para 75,1 pontos, menor nível desde agosto de 2020 (74,8 pontos). Em médias móveis trimestrais, o IAEmp também caiu, desta vez, 2,6 pontos, para 77,8 pontos, informou nesta terça-feira (8), o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre).

“O IAEmp voltou a cair em fevereiro, seguindo a tendência negativa dos últimos meses. Os últimos resultados sugerem que a recuperação do mercado de trabalho deve ser mais lenta do que a ocorrida em 2021, para o mercado de trabalho. O ambiente macroeconômico difícil e potenciais riscos de aumento da incerteza global, não permitem vislumbrar uma mudança na trajetória do indicador no curto prazo”, afirmou Rodolpho Tobler, economista do FGV IBRE, em comunicado da fundação.


De acordo com o FGV Ibre, no mês de fevereiro, todos os componentes do IAEmp contribuíram negativamente para o resultado, exceto o indicador que mede a Situação Atual dos Negócios no setor de Serviços, cuja contribuição foi de 0,5 ponto. O principal destaque negativo foi o indicador de Situação Atual dos Negócios da Indústria, que reduziu 1,0 ponto a variação do IAEmp no mês. Além disso, os indicadores que medem a Tendência dos Negócios nos próximos seis meses e as intenções de contratação nos próximos três meses (Emprego Previsto), ambos no setor de Serviços, contribuíram-0,3 e -0,3 ponto, respectivamente para a variação do indicador.



Com informações do portal da FGV Ibre

quarta-feira, 9 de março de 2022

Luciana Rafagnin: Todo dia é dia de barrar a violência contra as mulheres

Rafagnin: "Temos inúmeras possibilidades de quebrar com esse fluxo de violência e de desigualdades estruturais". Foto: Divulgação

”Temos de incorporar às nossas ambições de evolução da sociedade o compromisso de homens para barrar os retrocessos e o avanço desenfreado e reativo da violência contra as mulheres”, aponta Rafagnin.

PT Nacional

Incorporamos no calendário de lutas e de organização das mulheres, em seus diferentes espaços de atuação, as reflexões e mobilizações do 8 de março, dia internacional da mulher, que são necessárias e importantes para a conscientização coletiva e para a transformação da realidade, muito a partir do resgate histórico do ativismo de tantas e tantas mulheres, antes de nós, que construíram com resistente bravura as bases dos direitos, das conquistas e dos avanços sociais que temos hoje.

Isso precisa continuar, sem dúvida, no sentido de aumentar a visibilidade e o protagonismo das mulheres, só que temos de incorporar também às nossas metas e ambições de evolução da sociedade a conscientização e o compromisso de homens para barrar os retrocessos e o avanço desenfreado e reativo da violência contra as mulheres.

É papel também nosso e daqueles companheiros conscientes e comprometidos com a erradicação de todas as formas de violência de gênero e de violência contra as mulheres a chamada de atenção para a violação de direitos humanos, o aconselhamento, a denúncia e a responsabilização de quem ainda insiste em reproduzir as relações desiguais, discriminatórias e misóginas da cultura machista e do patriarcado.

Essa reprodução bate indistintamente na porta de todos e precisamos lembrar os companheiros homens que são pais, filhos, irmãos, amigos, colegas de trabalho, maridos e namorados de outras mulheres os riscos embutidos na perpetuação desse mal e desse atraso bárbaro do desrespeito e das violências.

Uma das formas mais cruéis e invisíveis é pela banalização, que, por sua vez, se sustenta na impunidade e na omissão.

Não se trata apenas de denunciar, mas de assumir a responsabilidade de estancar a semente dessa violência no momento em que o melhor amigo, parente, conhecido faz aquela piadinha

ou comentário nojento, quando julga ou ofende uma mulher pelo que ela veste, como se apresenta, quando se acha no direito de importunar, quando critica ou interrompe uma colega de trabalho pelos mesmos motivos que não calaria ou questionaria um colega homem ou ainda quando ouve o vizinho, familiar, desconhecido na rua ofender e até desrespeitar e agredir a companheira, sem se incomodar com isso.

Temos inúmeras possibilidades de quebrar com esse fluxo de violência e de desigualdades estruturais e não é vergonha se manifestar quando a oportunidade se impõe à nossa frente, muito pelo contrário.

A banalização ou ostentação chegou ao ponto de uma figura pública, na última semana, se referir às mulheres ucranianas, vítimas e refugiadas da guerra em seu país, como “fáceis” de serem violadas por serem “pobres”.

O fato do noticiário repercutir essa postura abominável, por se tratar de algo que aconteceu, não choca tanto quanto imaginar a aceitação desse pensamento nefasto por inúmeras pessoas que comentam aberta ou anonimamente nas redes sociais em defesa desse crime, aumentando sua espetacularização.

Pior, trata-se de um candidato a cargo público de grande responsabilidade institucional, que pretende ter nas mãos o comando das políticas, inclusive as de segurança pública, do seu estado.

Nesta pandemia, ficou evidente o perigo de a sociedade permitir que pessoas com tamanha perversidade detenham o poder público de ditar comportamentos sociais.

Milhares de pessoas tiveram suas vidas ceifadas pelo descaso, pela ignorância, irresponsabilidade e pela confusão instaurados.

As mulheres, em 2018, lideraram uma grande mobilização para protestar diante do iminente perigo. Muitos homens também se somaram nessa corrente, mas não foi o suficiente.

Neste último final de semana, como se repete no país todo, mais uma mulher foi morta em episódio hediondo de violência doméstica e familiar em Francisco Beltrão.

O crime ainda é objeto de apuração das autoridades, mas já engrossa as estatísticas que colocam o Brasil no vergonhoso 5° lugar no ranking de feminicídios no mundo.

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, em 2020, houve um aumento de 22% nesses crimes e, no primeiro semestre do ano passado, o Brasil atingiu o maior patamar desde 2017, com cerca de quatro feminicídios por dia em média.

Temos, portanto, uma figura pública que encontra na pobreza o ambiente permissivo e facilitado para a prática do crime sexual e, isso, num país em que 20 milhões de pessoas passam fome e 117 milhões sofrem algum tipo de insegurança alimentar.

Vamos precisar de toda reação possível diante da banalização desse discurso, somar todos os esforços e consciências de homens e de mulheres, que buscam mudar a seguinte realidade: uma mulher é vítima de estupro a cada dez minutos, cerca de 100 feminicídios ocorrem por mês no país, uma travesti ou mulher trans é assassinada a cada dois dias no Brasil e em que 30 mulheres sofrem agressão física por hora.

Por isso, precisamos juntar forças com todas as pessoas cientes da sua responsabilidade de respeitar e de ensinar o respeito às mulheres para ampliar essa conversa, essa luta e essa conscientização.

Vamos fazer uma onda transformadora que começa no menor gesto e na grande ação individual de manifestar simplesmente: “Basta! Isso acaba aqui”!

* Luciana Rafagnin é agricultora familiar, cientista política e deputada estadual pelo PT do Paraná.

Via - Viomundo

terça-feira, 8 de março de 2022

Vivaldo Barbosa: Lembrem-se da crise dos mísseis em Cuba que quase gerou uma guerra nuclear

 

A guerra só foi evitada, porque alguns líderes se comportaram como estadistas, entre os quais Nikita Kruschev, da então União Soviética, e John Kennedy, presidente dos EUA


No Viomundo

Quando, em 1962, a humanidade tremeu diante da crise que se criou acerca dos mísseis que se instalavam em Cuba, com a possibilidade de uma guerra nuclear mundial, o mundo foi salvo pelas atitudes de alguns dirigentes que se portaram como estadistas.

Agora, sofremos com o cenário de guerra na Ucrânia, assistimos a alguns horrores de guerra, embora limitada, e o pior: estamos sem estadistas.

Quando o Governo Kennedy descobriu que mísseis estavam sendo instalados em Cuba pelos russos, a poucas milhas do território americano, reagiu de forma enérgica, assumindo as últimas consequências. Com muita justificativa.

Por outro lado, Cuba e Fidel precisavam se garantir contra outra invasão da Ilha, como aquela na Baía do Porcos, arranjada pela administração anterior de Eisenhower.

Ele era grande figura daqueles tempos, a começar pelo fato de ter comandado as forças que derrotaram Hitler até ter sido o Presidente americano que cobrou o imposto de renda mais elevado dos ricos. Mas deixou passar os que adoravam fazer guerras.

Kennedy manteve a firmeza, mas soube negociar.

Kruschev, o líder russo, soube tirar proveito da situação e obteve compromisso do próprio irmão de Kennedy e de seu Ministro da Justiça em negociação direta: Cuba não seria invadida e os americanos retirariam seus mísseis da Turquia e de outras áreas, que era certamente o que os russos queriam quando estavam instalando seus mísseis em Cuba.

Os mísseis voltaram para casa e o mundo respirou em paz. Com estadistas, mesmo com muitos defeitos de cada lado, é outra coisa.

Agora, a OTAN, aliança militar que não deveria existir para o bem da paz, sob o comando americano, instala bases e se implanta em diversos países ao redor da Rússia, assentada em governos pequenos e medíocres, eleitos em processos confusos a partir do fim da União Soviética.

A Rússia, já machucada pela extinção de um sistema político que ela comandava desde 1917, que havia gerado a segunda economia do mundo, grande população, imenso território, tecnologia avançada, vê-se cercada mais de perto na Ucrânia, com inimigos declarados que poderiam até usar armas nucleares, parte para o horror da guerra. Guerra que a humanidade já não mais imagina vivenciar.

Pela ausência de estadistas, a humanidade já havia amargado guerras estúpidas, idiotas, desde a Coreia e a cruel Guerra do Vietnã até mais recentes na Iugoslávia, Kosovo, Iraque, Líbia, Afeganistão e a pobre gente que sofre no Iêmen sob as armas sauditas/americanas.

Paira outro mal sobre todas as nossas cabeças: o aumento do fascismo nas áreas acobertadas pela OTAN, como se evidenciam nos grupos neonazistas na Ucrânia, com conexões malévolas até no Brasil,

Falta um estadista na Europa, à semelhança de De Gaulle, que se imponha diante do poder dos Estados Unidos para dizer aos americanos e aos russos que é preciso ter polos de equilíbrio no mundo, que se respeitam e dialogam para o bem da humanidade, e que nenhum país pode ser encurralado.

Acima de tudo, que seja capaz de conter essas áreas fascistas que se avolumam, se espalham e ganham poder armado.

A Europa teria este grande papel, mas está subjugada, sem estratégia própria à altura da sua história, sua economia e valor do seu povo.

Nos faz lembrar novamente Eisenhower: todos submetidos aos interesses da indústria armamentista, agora de braços dados com o sistema financeiro.


*Vivaldo Barbosa foi deputado federal Constituinte e secretário da Justiça do governo Leonel Brizola, no RJ. É advogado e professor aposentado da UNIRIO.

segunda-feira, 7 de março de 2022

Lenda do futebol egípcio à Fifa: A decisão de excluir a Rússia de torneios internacionais deve ser aplicada também a Israel

 


O ex-jogador e hoje comentarista esportivo Mohammed Aboutrika, lenda do futebol egípcio, sugeriu que, pelos critérios adotados, a FIFA deveria impor às equipes israelenses as mesmas sanções que foram impostas às equipes russas – ou seja, a exclusão de qualquer competição internacional.

É a velha história de dois pesos e duas medidas.

Os horrores da guerra são injustificáveis em qualquer canto, mas mesmo as maiores crises humanitárias não passam de moedas de troca nas mãos das grandes potências ocidentais e de suas organizações.

Não é à toa que alguns jogadores árabes estão se recusando em campo a prestar aquela solidariedade cênica, imposta pela cartolagem, à Ucrânia.

Isso está bem longe de ser uma falta de empatia ou de solidariedade.

É coerência, consciência; uma manifestação legítima de indignação e revolta por toda uma história de marginalização e indiferença dos organismos internacionais em relação à violência cometida pelo Ocidente contra os povos do Oriente Médio, da África e de outros tantos lugares que foram destroçados e já nem geram mais comoção.

No fim das contas, o que o povo ucraniano tem de diferente do povo palestino?

Via - Viomundo

quinta-feira, 3 de março de 2022

Poeta Romano da mãe Dágua


 No Catingueira Notícia

ANTÔNIO ROMANO Caluetê, 1840–1891, é o mesmo Romano da Mãe D’Água, porque nascera e residia no Saco da Mãe D’Água, no município de Teixeira, Paraíba. Era irmão do cangaceiro-cantador Veríssimo do Teixeira e pai de Josué Romano, cantador famosíssimo. Chamavam-no também de Romano do Teixeira, o Grande Romano. Foi o mais célebre cantador do seu tempo. Ficaram memoráveis nos fastos da cantoria o desafio e Romano com Manuel Carneiro, em Pindoba, Pernambuco, e o combate com Inácio da Catingueira, no mercado-público de Patos, Paraíba, e que durou oito dias, segundo Rodrigues de Carvalho. Faleceu a 1º de março de 1891, repentinamente, trabalhando no seu roçado num domingo.

Num embate de Josué Romano com Manuel Serrador, o filho do cantador afamado assim apregoou as glórias paternas:

Eu me chamo Josué, Filho do Grande Romano, O cantador mais temido Que houve no gênero humano: Tinha a ciência da abelha, Tinha a força do oceano!...

Romano conhecia as ciências populares e delas tirava efeito seguro. Seus versos estão deturpados e dissolvidos nas gestas de outros cantadores. Raros serão os verdadeiros, entre os muitos apontados como autênticos pela tradição.

Um fato curioso de sua vida foi a visita que fez ao irmão Veríssimo na cadeia de Teixeira. Veríssimo era cangaceiro da quadrilha de Viriato. Condenado a sete anos de prisão, passou-os tocando viola e cantando desafio com ele mesmo. Romano foi visitá-lo e o comandante do destacamento, sertanejo autêntico, permitiu um encontro dos dois, de viola em punho, dentro da cadeia. E cantaram juntos, como se estivessem num pátio de fazenda, em noite de lua, sob aplausos.

INÁCIO DA CATINGUEIRA, negro escravo do fazendeiro Manuel Luiz, cantador lendário e citado orgulhosamente por todos os improvisadores do sertão. Seus dotes de espírito, a rapidez fulminante das respostas, a graças dos remoques, a fertilidade dos recursos poéticos, a espantosa resistêcia vocal, ficaram celebrados perpetuamente. Sendo negro e analfabeto não trepidou enfrentar os maiores cantadores do seu tempo, debatendo-se heroicamente e vencendo quase todos. Foi o único homem que conseguiu derrubar Romano da Mãe D’Água, depois de cantarem juntos oito dias em Patos, luta que é a página mais falada nos anais da cantoria sertaneja. O Grande Negro nasceu no dia de santo Inácio Loiola, 31 de julho, na fazenda e povoação de Catingueira, perto de Teixeira, Ribeira do Piancó, Paraiba, e faleceu aí, sexagenário, em fins de 1879.

(Extraído de CASCUDO, Luís da Câmara. Vaqueiros e Cantadores, p. 169, 170, 256-258)

Nenenzin Pereira.

terça-feira, 1 de março de 2022

Inácio da Catingueira

 


Sem sobrenome por ser filho de pai desconhecido, o maior fenômeno da cultura popular de Catingueira, nasceu aos 31 de julho, dia em que a igreja homenageia o Santo Inácio de Loiola, do ano de 1845. Sua Mãe, uma negra africana de nome Catarina, só foi batizada em 1902, pelo Bispo Dom Adauto, época em que já contava 118 anos de idade. Seu genitor, segundo alguns indicativos, era um homem branco, residente na região. Por esse motivo, há quem discorde das informações de que Inácio da Catingueira era puramente negro e sim mestiço, de cor escura mas de pele fina, cabelos corridos, conservando um pequeno cavanhaque e um bigodinho acanhado. Afirmam, que era simpático, de estatura satisfatória, olhos pretos e dispondo de uma voz forte e agradável. Seu instrumento era um pandeiro, que até hoje prevalece nas emboladas de coco, enfeitado com um laço de fita, guizos de prata de dois mil réis e tampo de couro cru, retinindo a cadência de seus versos quentes e empolgantes.

O nome em destaque nasceu no Sítio Marrecas, como escravo de Manoel Luiz de Abreu, mas, também, foi cativo por herança de Francisco Fidié Rodrigues de Sousa, genro do mesmo. No inventário, Inácio da Catingueira, constou como bem, em valor de valor de 1.200$000 (um conto e duzentos mil réis). Tal partilha foi procedida na residência do senhor Nicolau Lopes da Silva, filho da viúva Ana Joaquina da Silva, em 13 de fevereiro de 1875, oportunidade em que Inácio da Catingueira já contava 30 anos de idade e era considerado um imenso bem humano. No dia 22 de março, em seguida à partilha, o inventário foi homologado pelo Juiz, Dr. João Tavares de Melo Cavalcante Filho. O Histórico documento encerrou-se com distribuição das custas aos serventuários da justiça, em 21 de abril do mesmo ano.

Inácio da Catingueira, que analfabeto, teve como grande trunfo para conseguir a liberdade, o talento poético, com o qual sensibilizou o seu senhor. Não chegava a ser impedido de se ausentar da morada para qualquer viagem, por mais que demorasse e, ainda por cima, era dono de tudo o que conseguia como humilde artista.

O acontecimento que o tornou conhecido é tido também, como a maior peleja entre dois cantores já ocorrida na região. O desafiante seria outro poeta, não escravo e já afamado, conhecido por Romano da Mãe D água e tal embate se daria na cidade de Patos. Contudo, a primeira vez que se deparou, com aquele que seria um parceiro por muito tempo, registrou-se na casa de Firmino Aires, oportunidade em que se fazia acompanhar de um grupo proveniente de sua terra. O objetivo era apenas conhecer, o homem tido como grande mestre. Levando para a presença do Rei dos Cantores, empunhando o seu pandeiro, o negro saiu -se com essa:

 Senhores que aqui estão

Me tirem de um engano

Me apontem com o dedo

Quem é Francisco Romano

Pois eu ando no seu piso

Já não sei a quantos anos

Surpreendido, Romano devolveu-lhe o seguinte verso:

 Senhor me diga o seu nome

Que eu quero ser sabedor

Se é solteiro ou casado

Aonde é morador

Se acaso for cativo,

diga quem é seu senhor

 

Sem qualquer rodeio Inácio finalizou:

 Seu Romano eu sou cativo

Do senhor Mane Luiz

Sou solteiro, de palavra

Que só sustenta o que diz

Inácio da Catingueira

Sou um escravo feliz.

 O célebre desafio entre os dois cantadores e que sagrou Inácio o campeão inconteste, durou oito dias, garantindo público, em Praça Pública de Patos, nas redondezas da tradicional feira, nas proximidades da Igreja da Conceição. A partir daí, por onde passava a dupla arregimentava verdadeiras multidões.

 Inácio da Catingueira veio a falecer acometido de Pneumonia, em conseqüência de trabalhos no campo, época da queima de brocas, com pouco mais de trinta e três anos de idade. Seu corpo não foi sepultado na Fazenda, como de praxe faziam com os escravos. Repousa em uma Praça, no centro da cidade, a qual leva o seu nome, tendo, inclusive, uma estátua em sua homenagem. Em vida já manifestava o temor da certeza de que um dia deixaria a sua terra querida, a dedicou quase todos os temas dos seus improvisos, antecipando o espírito saudoso, em versos como este:

 Tenho pena de deixar

A Serra da Catingueira

A Fazenda Bela Vista

A maior dessa ribeira

O Riacho do Poção,

As quebradas do Teixeira.

São lições como esta que conseguem ampliar, cada vez mais, a genialidade de Catingueira, mostrando que é a humildade a maior das virtudes. Passaram-se quase 123 anos da morte do fenômeno e a poeira do tempo não conseguiu sequer embaçar, na memória do povo, a lembrança de Inácio, sempre atrelada ao nome de sua terra. Foi um grande exemplo que resistiu a todas as intempéries para mostrar que a grandiosidade não está contida no que se tem, mas naquilo que se consegue como conquista do esforço próprio. Pitadas de sofrimento, determinação e coragem, como ingredientes da maior culinária humana.

Via - Poesia de Cordel

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