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sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Como foi o primeiro 'Lula livre' em 1980

Em abril de 1980, Lula liderava uma greve de metalúrgicos que já durava 17 dias em fábricas da região de São Bernardo do Campo. Na ocasião, foi preso pela Polícia Militar. Mas como Lula foi parar nos calabouços da ditadura militar? O que a prisão significou para o período e para o futuro presidente da República? Como foi o momento em que ele foi solto? Para entender essas questões, a BBC News Brasil consultou depoimentos, conversou com ex-companheiros de Lula e com pessoas que participaram das mobilizações do período.


Por Leandro Machado, da BBC Brasil

"Foi Marisa, sua mulher, quem viu, deu grito avisando que ele vinha a pé. O motorista da Veraneio do Dops ficou com medo quando viu aquela multidão perto da casa do Lula e o deixou no meio do caminho. E o líder metalúrgico, recém-saído da cadeia, chegou a sua casa a pé, carregando uma pequena mala. Mas, antes, a peãozada que invadiu sua casa e as ruas vizinhas, assim que deu a notícia no rádio, ergueu Lula nos braços, estouraram rojões e voltou-se a ouvir em São Bernardo do Campo: 'Luuuuula, Luuuuuula, Luuuuuula'."

Foi assim que, no dia 21 de maio de 1980, o jornalista Ricardo Kotscho iniciou a descrição, em reportagem no jornal Folha de S.Paulo, da chegada de Luiz Inácio Lula da Silva a sua casa depois de 31 dias de prisão.

O então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC havia sido detido no dia 19 de abril por policiais do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), órgão de repressão da ditadura militar que governava o país.

Os motivos do encarceramento de Lula eram bem diferentes da recente detenção, que foi encerrada com a decisão do Supremo Tribunal Federal (SFT) de suspender prisões após condenações apenas em segunda instância. O órgão decidiu que os processos precisam transitar em julgado em todas as instâncias para que o réu seja preso. Nesta sexta-feira (08/11), a Justiça Federal de Curitiba determinou sua soltura com base na decisão do Supremo.

Dessa vez, Lula passou por um processo criminal e foi condenado à prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no âmbito da Operação Lava Jato — ele nega todos os crimes. Nos anos 80, o então sindicalista foi detido sem mandado judicial, apenas com base na Lei de Segurança Nacional.

Em abril de 1980, Lula liderava uma greve de metalúrgicos que já durava 17 dias em fábricas da região de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, área industrial na Grande São Paulo.

A paralisação vinha na esteira de outras mobilizações em anos anteriores, e a ditadura temia que ela se prolongasse demais. Ou seja, a esperança dos militares era de que a prisão de Lula e de outros líderes sindicais desmobilizasse greve.

Isso não aconteceu, no entanto. A detenção do proeminente sindicalista fortaleceu o movimento e estimulou a opinião pública a tomar partido de suas demandas.

Mas como Lula foi parar nos calabouços da ditadura militar? O que a prisão significou para o período e para o futuro presidente da República? Como foi o momento em que ele foi solto? Para entender essas questões, a BBC News Brasil consultou depoimentos, conversou com ex-companheiros de Lula e com pessoas que participaram das mobilizações do período.

As greves antes da prisão

As grandes greves dos metalúrgicos do ABC começaram em 1978, na montadora Scania. Depois, elas se espalharam para outras empresas da região — o setor tinha cerca de 140 mil funcionários no ABC paulista, região fabril que englobava originalmente as cidades de Santo André, São Bernardo e São Caetano (posteriormente, Diadema também passou a fazer parte do "cinturão").

Mas o descontentamento dos trabalhadores vinha de antes. Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV), que investigou crimes cometidos pela ditadura, Lula lembrou que arrochos salariais e perdas de benefícios começaram ainda no final dos anos 1960.

"Até então, cada metalúrgico da indústria automobilística recebia todo santo mês um aumento de salário. Se você pegar a carteira de um trabalhador da Volkswagen em 1967, vai ver que ele recebia aumento em janeiro, fevereiro, março. Em abril tinha antecipação do dissídio coletivo... Em 1968, as empresas passaram a diminuir esses aumentos e acabar com alguns privilégios que a gente tinha. Fomos sendo sufocados... Isso criou um clima de animosidade [entre companhias e trabalhadores]."

Posse de Lula na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em 1978, dois anos antes da prisão

Segundo Francisco Macedo, doutor em história pela USP e professor do Instituto Federal de Minas Gerais, as primeiras greves de 1978 foram realizadas dentro das fábricas. "Os trabalhadores entravam na fábrica e cruzavam os braços, porque, na ditadura, não havia espaço para expressão fora desse ambiente", conta Macedo, cuja dissertação de mestrado foi sobre o sindicalismo do ABC.

Os operários saíram vitoriosos naquele ano, conseguindo um aumento substancial de salários e outras melhorias.

No ano seguinte, 1979, as companhias decidiram expulsar da linha de montagem quem parasse dentro da empresa — uma maneira de separar grevistas de quem continuava trabalhando. Isso levou os sindicalistas para o portão e às manifestações nas ruas.

"Nesse período, houve forte repressão do aparato estatal. Houve uma intervenção no sindicato, afastando Lula e outros dirigentes da direção, o que enfraqueceu a greve", conta Macedo.

A contragosto, os trabalhadores aceitaram uma proposta das empresas, encerrando a paralisação naquele ano. Lula conta que saiu da assembleia "xingado de traidor" por ter aceitado negociar com os patrões enquanto boa parte dos companheiros queria continuar parada.

Greve preparada

Depois do fim da intervenção no sindicato, em julho de 1979, Lula e os colegas começaram a se preparar para a campanha salarial do ano seguinte. "Começamos as mobilizações mais de seis meses antes da data-base do dissídio, que era 1º de abril", lembra Djalma Bom, de 80 anos, tesoureiro do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC na época.

Djalma conta uma história curiosa sobre a criação do fundo de greve, uma arrecadação de dinheiro e alimentos que teve grande importância para que o movimento de 1980 se prolongasse por 41 dias.

"Em uma das assembleias, um companheiro me indicou a leitura de Germinal, do Émile Zola. No romance, os trabalhadores da indústria mineral da França criam uma arrecadação para que eles consigam sobreviver durante a greve. Tive a ideia de fazer o mesmo."

Nos meses anteriores, o sindicato e a Igreja Católica, que apoiava os trabalhadores, abriram as portas de templos do ABC e da Zona Leste de São Paulo para angariar recursos. A ideia era suprir as necessidades dos grevistas que não receberiam salários durante a paralisação. "Na greve, o fundo ajudou 32 mil famílias, distribuímos 480 tonelada de alimentos", diz Djalma.

Para o historiador Francisco Macedo, a preparação para 1980 teve outra inovação: membros do sindicato visitaram a casa dos funcionários para conversar sobre o movimento com as famílias. "A ideia era explicar para os parentes a importância da paralisação e de sua continuidade, porque, no momento da greve, os trabalhadores poderiam sofrer pressão dos familiares para retornar ao trabalho."

Djalma se lembra de outro aspecto importante para fomentar os trabalhadores e a opinião pública. "O Lula teve uma compreensão de que nossa luta não era apenas por melhores condições de salário e de trabalho, mas sim pelo restabelecimento da democracia no Brasil. A luta deveria ser mais política", diz.

Macedo concorda com essa análise. "Os trabalhadores perceberam que todo o aparato repressivo do Estado estava contra eles, e não apenas as empresas. A luta passou a ser não apenas pelo aumento salarial, mas pela democracia também. Eles perceberam que sem democracia a luta nunca chegaria a um resultado."

A greve começou no dia 1º de abril, mas, nos dias seguintes, as empresas se recusaram a negociar melhorias. No entanto, como havia uma sensação de derrota em relação ao ano anterior, o sindicato acreditava que deveria "ir até as últimas consequências", segundo Macedo.

Por outro lado, nos dias seguintes, boa parte trabalhadores se desmobilizou: eles queriam voltar a receber salários depois de dias sem nenhum avanço tangível nas negociações.

Nesse sentido, Djalma conta uma conversa que teve com Lula antes de uma assembleia no estádio municipal da Vila Euclides: "Lula me falou: 'Djalma, para a greve continuar, para os trabalhadores continuarem mobilizados, precisa acontecer alguma coisa extraordinária'".

Lula não imaginava, mas esse fato "extraordinário" iria ocorrer no dia 19 de abril.

A prisão dos sindicalistas

Lula fichado pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), onde ficou preso por 31 dias em 1980
Por volta das 6h30, oito homens armados com metralhadoras cercaram a casa de Lula, no bairro de Ferrazópolis, em São Bernardo. "Na minha casa estava o Geraldo Siqueira Filho (então deputado estadual) e o Frei Betto."

"Quando eles (militares) bateram na porta, o Frei Betto falou: 'a polícia tá aí'. Eu não tinha nem lavado o rosto ainda. Falei para eles: 'espera que vou me trocar'. Eles disseram: 'não, não pode esperar'. Voltei para dentro de casa e fui me trocar", contou Lula, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade.

Vários sindicalistas do ABC foram presos no mesmo momento. Entre eles, o próprio Djalma Bom e Isaias Urbano da Cunha, hoje com 79 anos. "Abri a porta de casa, e era o pessoal da Polícia Federal. Me deram socos e me algemaram com as mãos para trás. Meu filho tinha oito anos e saiu correndo pela casa, assustado. Me levaram preso de pijamas, descalço", diz Isaias, que na época era dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André.

O advogado José Carlos Dias, que defendia presos políticos do regime militar, também foi detido no mesmo dia. "Soube que o Lula tinha sido preso. Decidi sair de casa, mas logo me disseram que havia vários homens de terno e gravata na rua. Achei que havia algo grave acontecendo, e peguei meu passaporte. Falei para minha mulher: 'se eu não ligar em 20 minutos é porque fui preso'."

Na praça Panamericana, Zona Oeste de São Paulo, ele foi detido por "homens com metralhadoras". "Havia umas 15 pessoas presas no Dops, entre elas vários clientes meus. Não há nada pior que você ser advogado e acabar preso com seus próprios clientes", conta Dias, que foi solto no mesmo dia e, anos depois, viraria ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Na época, o chefe do Dops era o delegado Romeu Tuma (1931-2010), que depois se tornaria senador por São Paulo. Ao contrário de outros presos políticos, que foram torturados e até mortos nos porões da repressão, Lula conta que foi bem tratado pelo então policial. "O Tuma me tratou dignamente, com humanidade. Minha mãe estava com câncer. Ele me deixou sair algumas vezes à noite para vê-la", contou.

Eurídice Ferreira de Melo, conhecida Dona Lindu, morreu de câncer no dia 12 de maio, enquanto o filho estava preso. Djalma Bom se lembra do momento em que Lula soube da morte. "Ele foi chamado na direção do Dops. Quando voltou para a cela, tinha lágrimas nos olhos e disse: 'Djalma, minha mãe faleceu'."

O sindicalista foi autorizado por Tuma a ir ao velório. Coincidentemente, anos depois, dois parentes do ex-presidente morreram enquanto ele estava preso em Curitiba: um irmão e um neto — no primeiro caso, a Justiça Federal não autorizou sua ida ao velório.

O efeito da cadeia

Em 1980, a prisão de Lula e outros sindicalistas acabou tendo o efeito contrário do que pretendia a ditadura militar: a greve se fortaleceu.

"Os militares cometeram a burrice de me prender com 17 dias de greve. O que aconteceu depois? Foi um motivo a mais para greve continuar. Houve passeatas e mobilização [contra as prisões], até com o [poeta] Vinicius de Moraes", disse Lula.

Em 22 de abril, por exemplo, um operário da Volkswagen, uma das fábricas mais afetadas, contou como a detenção de Lula foi vista por seus companheiros e até pela família: "Um vizinho meu, fura-greve, só parou (de trabalhar) por causa da prisão do Lula. Ele me falou: 'isso não pode acontecer'. Até meu sogro e minha sogra que eram a favor do governo, agora viraram contra", disse o operário à Folha de S.Paulo.

Dentro da cadeia, o clima era de incerteza: os sindicalistas chegaram a fazer uma greve de fome por quatro dias.

Isaias, que ficou 28 dias preso, relata uma conversa que teve com Lula na cela. "Lula me disse que não sabia se a gente sairia vivo ou morto, mas que entraríamos para a história. Ele disse que nossos netos ou bisnetos chegariam no governo um dia. Ele não disse que ele seria o governo, o presidente, mas sim os nossos netos."

Para o historiador Francisco Macedo, as mobilizações dos metalúrgicos tiveram outros componentes favoráveis: a cobertura massiva da mídia e uma certa abertura do regime militar com ações como a anistia e o fim do bipartidarismo. "Esse contexto fez com que Lula surgisse como um líder bastante popular, iniciando as conversas para a criação do Partido dos Trabalhadores."

Com o aumento da repressão e uma pressão interna pelo retorno às fábricas, os trabalhadores encerraram a greve sem que suas demandas fossem atendidas pelos empresários.

Para Macedo, no entanto, os metalúrgicos tiveram vitórias simbólicas nos anos seguintes à paralisação de 80, como a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do PT, além da retomada da democracia em 1985. "O principal legado da greve de 1980 é simbólico: a ideia de que os trabalhadores são sujeitos ativos, que se organizam e lutam por suas reinvindicações no espaço público", diz.

Para a indústria, o efeito foi um prejuízo material: 75 mil veículos deixaram ser produzidos no período, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

'Nas mãos dos metalúrgicos'

Militantes e sindicalistas foram até sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC
para acompanhar Lula antes de sua prisão, em abril de 2018
Lula foi liberado do Dops por volta das 20h naquele 20 de maio. O juiz Nelson da Silva Machado Guimarães considerou que não era mais necessário manter a prisão dos sindicalistas depois do fim da greve. "A ordem pública não se acha mais perturbada", afirmou o magistrado.

Uma multidão esperava Lula em São Bernardo com fogos de artifício e cachaça para comemorar a soltura do líder. Ao chegar, ele deu uma entrevista ao jornalista Ricardo Kotscho em cima dos ombros dos companheiros. "Esse é um dos momentos mais felizes da minha vida", disse. Kotscho depois viraria secretário de imprensa do governo Lula no início do primeiro mandato do petista.

No dia, Lula afirmou não ter medo de ser detido novamente. "Se eu tiver de ser preso pelos mesmos motivos, por representar os anseios da minha categoria, eles podem me prender mais 500 vezes."

Embora as discussões sobre a criação do PT já estivessem em curso, o sindicalista foi lacônico sobre seu futuro: "Sou um homem que nunca fez planos para o futuro. Meu destino sempre foi traçado pela categoria, está nas mãos dos metalúrgicos".

Por coincidência, foi também das mãos dos metalúrgicos que Lula saiu para ser preso novamente pela Polícia Federal, mas 38 anos depois, em 7 de abril de 2018, dessa vez condenado em terceira instância pelo caso do tríplex do Guarujá. Uma imagem do ex-presidente sendo carregado pela multidão em frente ao sindicato virou um símbolo daquele momento.

Hoje, seus companheiros de ativismo sindical têm visões conflitantes sobre as duas prisões.

Para Isaias, por exemplo, elas não têm nenhuma relação. "A diferença é grande: em 1980 ele foi um preso político. Dessa vez, não: foi preso por desfalques, por desvios de dinheiro, e não conseguiu provar sua inocência. Ele foi preso como um criminoso, naquela época ele era um herói", afirma.

Já Djalma pensa diferente: "Para mim, Lula continua sendo a mesma pessoa. Ele foi o preso político mais importante do mundo. A prisão foi uma armação para que ele não pudesse concorrer à Presidência no ano passado", afirma.

'Junto a Lula'

Preso ou não, Lula continua sendo um assunto importante mesmo para ex-companheiros que deixaram o ABC paulista e o sindicalismo para sempre.

José Alves Bezerra, de 71 anos, por exemplo, conheceu o petista no final dos anos 1970, em São Bernardo. Junto ao líder, participou de assembleias e greves no ABC, o que lhe rendeu um casamento (ele a conheceu a esposa no sindicato) e uma demissão da Volkswagen, onde trabalhava.

Mas depois Bezerra se aposentou em outra empresa e voltou para a terra natal, a cidade de Várzea Alegre, no interior do Ceará. De lá, acompanhou a trajetória recente do ídolo: do popular presidente da República a presidiário em Curitiba. "Nunca mais o vi pessoalmente, só pela TV. Acho que ele deveria ser inocentado, mas quem sou eu para falar alguma coisa, né?", diz, por telefone.

A admiração pelo político passou do ex-metalúgico para seu filho, um professor de história de 26 anos. "No 1º de maio, meu filho foi até Curitiba para ficar na frente da prisão do Lula", diz.

 Fonte: BBC Brasil

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

A bola da vez é a destruição do serviço público imparcial

"A entrada no serviço público por concurso público de conhecimentos e especialidades, junto com a estabilidade no emprego, são fundamentais para a defesa do cidadão e da cidadã".


Por José Carlos de Assis

O cidadão brasileiro só terá garantia de tratamento imparcial no serviço público, fora da influência do poder político-partidário dominante, até o fim da atual geração de servidores. Os funcionários das futuras gerações não terão estabilidade. É um recuo de décadas no processo de construção de uma burocracia pública imparcial. Esses ignorantes em ciência política que assaltaram os postos de mando no Brasil não conhecem aspectos elementares da ciência política. Raciocinam como economistas toscos, distantes de funções públicas.

A estabilidade no emprego não é privilégio de servidor. É uma garantia do cidadão. O servidor munido das prerrogativas de estabilidade pode dizer não ao político e mesmo a um mandatário que exige tratamento privilegiado num hospital, sem medo de ser demitido. É claro que alguns agem partidariamente. Essa, porém, não é a regra. A regra é a imparcialidade no tratamento de cidadãos e cidadãs. Se o servidor não cumpre essa regra, é um defeito dele ou mesmo uma irregularidade administrativa que pode ser punida com demissão.

Caso não tivesse direito a estabilidade, o promotor que investiga o caso Marielle já teria sido demitido. Aliás, a sociedade tem todo o direito de cobrar dele imparcialidade nas suas ações. Sobretudo no caso dos documentos de controle da portaria do condomínio onde mora Jair Bolsonaro, solapados da investigação pelo presidente da República com a evidente intenção de esconder provas e indícios de seu envolvimento no caso. Aqui a situação se inverte: se não cumprir o seu dever na recuperação da prova, o promotor deve ser demitido a bem do serviço público, depois do devido processo legal.

Por causa das críticas históricas e universais à burocracia, a sociedade tem grandes restrições ao serviço público. Em muitos casos tópicos e particulares ela tem razão. Mas esse é um mal que vem para o bem. Na Grécia clássica, a primeira democracia da história de dois mil e quinhentos anos atrás, o grande estratego Péricles, quando assumiu o poder pela ala democrática, instituiu o serviço público remunerado. A razão era que até então só ricos exerciam cargos públicos. Com isso, defendiam somente os seus interesses. A remuneração do servidor foi a fórmula encontrada para democratização efetiva do serviço público.

Uma burocracia pública funcional, especializada e hierarquizada foi fundamental para a consolidação do capitalismo e da democracia política a partir do início da Era Moderna. Max Weber fez um ensaio fascinante a respeito. Os Estados Unidos foram justamente um dos últimos países democráticos que trataram de criar uma burocracia supostamente imparcial, com o grave defeito de não terem um sistema de concursos. Até fins do século XIX vigorava o sistema de butim, pelo qual o presidente que entrava varria dos cargos públicos todos os servidores do partido adversário. Isso mudou em fins do século XIX, mas não muito.

A entrada no serviço público por concurso público de conhecimentos e especialidades, junto com a estabilidade no emprego, são fundamentais para a defesa do cidadão e da cidadã. Do contrário, introduziremos também aqui o sistema de butim, em prejuízo óbvio da população, e sobretudo da população pobre. Esta não tem meios para transformar os quadros públicos em joguetes dos partidos dominantes, como acontece hoje com Jair Bolsonaro, que tentou até mesmo enfiar um filho sabidamente incompetente em diplomacia no mais alto cargo do Itamaraty no exterior.

 *José Carlos de Assis é economista e jornalista.
Fonte: Monitor Mercantil

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Lula: "Não vamos permitir que eles destruam o nosso país"

O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, voltou a reunir milhares de pessoas em torno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que retornou ao local depois ser libertado na tarde desta sexta-feira (8) beneficiado pela decisão do STF que considerou inconstitucional a prisão de réus condenados em segunda instância. No discurso que encerrou o ato em sua homenagem, Lula criticou o presidente Bolsonaro e afirmou que é preciso resistir ao desmonte do país.

Uma multidão acolheu Lula no sindicato que o formou como liderança social e política
O ex-presidente Lula voltou à sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, exatos 581 dias depois de sair do mesmo lugar preso pela Polícia Federal por determinação do então juiz federal Sergio Moro, que o havia condenado num processo judicial eivado de irregularidades denunciados pelo advogados de defesa e confirmados pelas revelações do site The Intercept. No dia 7 de abril de 2018, ao anunciar para a multidão presente ao sindicato há mais de 24 horas, que iria se entregar, Lula afirmou que ele já não era mais apenas um homem, mas uma ideia e as ideias não podem ser presas. Neste sábado (9), ele voltou a reafirmou o que havia dito e disse que está disposto a andar pelo país para ajudar a recuperar o país.

Diante de milhares de pessoas que ocuparam as ruas em torno do sindicato e cercado por dirigentes e parlamentares de partidos de esquerda, lideranças sindicais e do movimentos sociais, velhos amigos dos tempos em que dirigiu a entidade, Lula afirmou que “é uma questão de honra a gente recuperar esse país. A gente tem que seguir o exemplo do povo do Chile e resistir.” Afirmou que pretende juntar sua experiência de 74 anos à energia de quem tem 30 anos para fazer muita luta, todos os dias, para brigar pelo país. "Aos 74 anos de idade eu não posso ter ódio mais no meu coração. Eu estou de bem com a vida e vou lutar nesse país”, enfatizou Lula, relembrando seus tempos de Lulinha paz e amor.

Com a experiência de já ter participado de várias caravanas e de cinco campanhas eleitorais como candidato, Lula afirmou que está disposto a andar pelo país. Na sua opinião “não é possível que a gente viva nesse país vendo cada dia mais os ricos ficarem mais ricos e os pobres ficarem mais pobres." O ex-presidente acredita que “só iremos salvar esse país se a gente tiver coragem de fazer um pouco mais. Nós estamos vendo o que está acontecendo com o Chile, que é o modelo de país que o Guedes quer construir.” Lula disse ainda que "eles têm que explicar por que estão apresentando um projeto econômico que vai empobrecer ainda mais a população brasileira” e destacou o retrocesso provocado pelo governo Bolsonaro demonstrado pela pesquisa recente do IBGE que identificou 50% da população ganhando 413 reais por mês

Sobre sua condenação pelo juiz da Lava Jato, Lula disse que o única objetivo foi retirá-lo da disputa eleitoral de 2018. “O que eles não sabem é que um povo como vocês não depende de uma pessoa, mas é um coletivo. Cassaram o Lula e o Haddad quase foi eleito”, afirmou. Apesar de ter obtido sua liberdade, o ex-presidente não desistiu da luta na justiça. "Nós ainda não ganhamos nada. O que nós queremos agora é que seja julgado um habeas corpus anulando todos os processos feitos contra mim, porque já existe argumento suficiente pra provar que o Moro é mentiroso”, destacou.

Demonstrando ter clareza que a luta não se restringe apenas ao Brasil, Lula lembrou que na Bolívia Evo Morales foi eleito para quarto mandato, mas a direita, a exemplo do que fez no Brasil em 2014 contra Dilma Rousseff, não quer aceitar o resultado. Destacou ainda a luta em curso no Chile, contra o modelo excludente que impera naquele país, lembrou a vitória de Alberto Fernandez contra Maurício Macri, na Argentina, e enfatizou que “nós temos que ser solidários ao povo da Venezuela. Quem decide o problema do país é o povo do seu país. O Trump não foi eleito para ser xerife do mundo."

Ao final, Lula afirmou que pretende fazer um pronunciamento à nação dentro de algumas semanas. Afirmou que pretende reunir com muitas pessoas para analisar mais detalhadamente a situação do Brasil e apresentar algumas ideias para ajudar a superar as dificuldades que o Brasil vive.

Encontro com o PCdoB

Antes de subir ao palanque de onde discursou para as milhares de pessoas que foram homenageá-lo, Lula ficou um longo tempo na sede do sindicato. Entre as muitas pessoas com quem esteve, recebeu uma delegação de membros do Comitê Central do PCdoB liderada pela presidenta nacional, Luciana Santos e composta por Renato Rabelo, presidente da Fundação Mauricio Grabois; Jandira Feghali, deputada federal; Vanessa Grazziotin, ex-senadora; Carina Vitral, presidenta da União da Juventude Socialista (UJS); Flávia Calé, presidenta da Associação Nacional dos Pós-Graduandos, acompanhada da filha Aurora, e Rubens Diniz, ex-dirigente da Organização Continental Latino Americana de Estudantes. O PCdoB é autor da Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC) 54, que, junto outras duas ações, uma da OAB e outra do Patriota, foram julgadas pelo STF na quinta-feira (7) e possibilitaram a libertação de Lula.

 Da redação
Fonte – Portal Vermelho

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Paredes de hospitais


Paredes de Hospitais já ouviram preces mais honestas do que igrejas.

Já viram despedidas e beijos mais sinceros que aeroportos.

É fato: a dor e o desespero nos tornam mais humanos e cientes de nossas limitações.

É no Hospital que vemos um homofóbico ser salvo por um médico gay.

Uma médica fria e que teve tudo fácil na vida, salvando a vida de um mendigo.

É lá também que vemos na UTI um enfermeiro judeu cuidando de um racista.

Na mesma enfermaria é possível encontrar o policial e o criminoso recebendo os mesmos cuidados.

No hospital vemos um rico aguardando um transplante de um pobre desconhecido, muitas vezes esquecido e desprezado por ele.

Nessas horas o Hospital toca na ferida das pessoas, expondo a fragilidade humana.

Universos que se cruzam em um propósito Divino.

E nessa comunhão de destinos nos damos conta de que sozinhos não somos ninguém.

A verdade absoluta das pessoas, na maioria das vezes, só aparece no momento da dor ou na ameaça da perda.

Fernando Rossit

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Cuidai da vida dos outros, os outros cuidam da tua



Esta é a realidade, ninguém está imune ás estocadas da língua alheia, nossa caminhada é acompanhada passo a passo pelos atentos de plantão, há sempre alguém reparando o que estamos fazendo, que meio estamos freqüentando ou onde não estamos indo. Nossa vida está escancarada aos olhos de todos, e estamos sujeitos a todos os tipos de interpretações.

“Matos tem olhos, paredes tem ouvidos”, em pequenas ou grandes localidades, nada se faz às escondidas, por bem feito que seja, sempre há um vazamento ou outro pondo em cheque a segurança daquele que andou na contra a ordem. Todos são vítimas, muitos são agressores, o que fazemos ou deixamos de fazer, de onde viemos, o que vestimos como andamos, com que ou com quem andamos, tudo pesa na avaliação dos agentes da fofoca.

Submersos neste lodo de maldade se afloram os conceitos e os preconceitos, uma única escorregada compromete o resto de tua vida, aliás, o rótulo que te dão te acompanha além da própria vida. Sempre irão encontrar um motivo para te criticar, em uma sociedade é impossível que se viva na plenitude de ser invisível. Sem contar que neste antro de serpentes, muitos torcem por tua queda, nesta competitividade onde a inveja e o orgulho alheio predominam, muitos abominam teu triunfo.

No entanto, a grande verdade é que assim é e assim será, desde que o mundo é mundo, os olhares estão atentos a tudo, talvez a melhor saída seja relevar os falsos conceitos que fazem de ti, a melhor maneira é tranquilizar-se em tua consciência, pois somente tu sabes de fato da tua vida o que é bom e onde teu sapato aperta. Tu sempre estarás nos extremos, enquanto para uns tu és anjo, para aqueles outros tu és demônio. Tudo também dependerá de onde os componentes da sociedade faladeira estará te olhando. Cabe a você ter cautela ou não, pois sem dúvida, alguém está cuidando de ti.

Por: Mateus Brandão de Souza – Graduado em História pela FAFIPA

domingo, 10 de novembro de 2019

Bolívia - Evo Morales convoca oposição ao diálogo, comunistas expressam apoio

Presidente Evo Morales concedeu entrevista coletiva neste sábado (9) para conclamar os partidos que elegeram parlamentares para o Congresso Nacional para uma mesa de diálogo com vistas a pacificar o país. Ao mesmo tempo, dez partidos comunistas de países da América do Sul manifestaram apoio ao presidente e ao povo boliviano e repudiaram a tentativa de golpe na Bolívia.


O presidente Evo Morales convocou os partidos de oposição que elegeram parlamentares nas eleições gerais de 20 de outubro para estabelecer um diálogo com o objetivo de pacificar o país, ante a tentativa de um golpe de estado que está em andamento com o ataque violento de grupos violentos de direita provocando grande tensão entre a população. Morales ressaltou os grandes avanços que o país tem vivido e a necessidade de preservaá-las.

“Convoco os quatro partidos que obtiveram membros da assembléia para se reunir e debater para pacificar a Bolívia. Um diálogo para preservar a vida de nossos irmãos e irmãs. Esperamos, mais tarde ou à noite, buscar soluções pacíficas por meio do diálogo ”, afirmou o chefe de estado em entrevista coletiva.

Assista a íntegra do pronunciamento do presidente


De acordo com os resultados das últimas eleições gerais, os partidos com representação na Assembléia Legislativa Plurinacional são: o Movimento ao Socialismo (MAS) de Morales, Comunidade do Cidadão (CC) de Carlos Mesa, Bolívia Diz Não (BDN) de Oscar Ortiz e o Partido Democrata Cristão (PDC) de Chi Hyun Chung.

Apoio comunista

Neste sábado Evo Morales recebeu o apoio de dez partidos de nove países da América do Sul em nota conjunta. Os comunistas sulamericanos repudiam os ataques a democracia e se solidarizaram com o presidente e o povo da Bolívia. A nota destaca o esforço de Evo para pacificar o país e buscar o diálogo, bem como expressa a exigência dos partidos para que seja respeitado o resultado eleitoral de 20 de outubro. Eles temem que essa haver um retrocesso ao tempo das ditaduras militares que atingiram a região em décadas passadas.

Leia íntegra da nota


Repudiamos este novo ataque à democracia no continente e nos solidarizamos com o presidente Evo Morales e com o povo boliviano. Rechaçamos o motim policial, como parte da estratégia golpista.

Destacamos a postura do presidente Evo Morales que tudo tem feito para impedir o banho de sangue, propondo uma mesa de diálogo com a oposição.

Convocamos a todo o movimento popular de nossa região a expressar a mais ampla solidariedade e apoio ao povo boliviano, ao presidente Evo Morales e às organizações que apoiam o processo de mudanças impulsionado pela revolução democrática-cultural e não permitir que se distorça a vontade da maioria do povo boliviano.

Exigimos respeito ao resultado das eleições realizadas em 20 de outubro. Expressamos nosso mais profundo desejo de que está situação possa ser resolvida através do diálogo, sem retroceder nosso continente à época das ditaduras fascistas e de massacres contra setores populares.

Bolívia não está só!

Solidariedade ao povo boliviano!

Viva a solidariedade dos povos da América Latina!

Partido Comunista da Argentina
Partido Comunista da Bolívia
Partido Comunista do Brasil
Partido Comunista Brasileiro
Partido Comunista de Chile
Partido Comunista Colombiano
Partido Comunista Paraguayo
Partido Comunista de Peru - Patria Roja
Partido Comunista do Uruguay
Partido Comunista de Venezuela


sábado, 9 de novembro de 2019

Desconfie


“A mão que afaga é a mesma que apedreja”
(Augusto dos Anjos)


Não se deixe levar pelas aparências, fique atento, pois, sinceridade e falsidade, amor e ódio podem habitar o mesmo coração.

Lembremo-nos da sabedoria popular: “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento”.
Questione supostas verdades, até mesmo as ditas imutáveis e absolutas. Tenhais cautela, pois o palco da vida está repleto de artistas mascarados e atores multifaces.

Atentai-vos, não são poucos os que agem de má fé... Lembre-se, não há preço que pague o valor de tua consciência, portanto, não deixe que o usurpador se aposse dela.

Não se conhece o coração alheio. Desta forma, seja coerente, num mundo sistematizado, onde tudo gira em torno do dinheiro, ninguém jogará ao vento seu capital. Por isso, desconfie.

Preste atenção, “Urubu não acompanha colibri”. Vá ter com o santo, mesmo misericordioso e coberto de bondade, ele desconfia quando a esmola chega em demasia, isto é cautela de santo, espelhemo-nos nela.

Não sejamos loucos, o homem prudente tira lições dos próprios erros, porém o tolo, nem se quer os observa. Entre um e outro, seja igual ao primeiro.

Não menospreze a capacidade alheia, jamais duvide da inteligência adversa. O lobo se reveste como ovelha no intuito de devorá-la.

A questão entre colher o bom ou o mau fruto implica na observação da semente que plantamos, quem planta flores colhe flores, quem semeia carrapichos, fatalmente os colherá.

Sejamos igual ao lince, em sua visão aguçada enxerga longe detalhes que teimam em passar despercebidos.

Não se deixe cair no conto da embalagem, que propositalmente bem trabalhada, não externa os defeitos da mercadoria a qual embrulha.

Atentai-vos,
Atentai-vos,

“Nem tudo que reluz é ouro”.

Por: Mateus Brandão de Souza- Graduado em História pela FAFIPA.

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