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quarta-feira, 13 de maio de 2020

Há os que pensam que são os únicos salvos

“Eu que já andei por todas as religiões, filosofias, políticas e lutas, desde os nove anos de idade eu já desconfiava da verdade absoluta”. (Raul Seixas).

Existe um conceituado número de fanáticos e religiosos de determinadas seitas ou agremiações, que se julgam propriedades exclusivas de Deus e por assim pensarem, tornam-se ao mesmo tempo, proprietários do Deus altíssimo.

São pessoas que interpretam Deus ou a bíblia à sua maneira, e desta forma, passam aos seus fiéis subordinados este “entendimento” como sendo um conhecimento condizente com a verdade pura, absoluta e santa que conduz as almas à salvação eterna.

Após isto, apagam ou fecham suas mentes para debates dentro da razão e não dão importância para conceitos que são contrários ao modo com que estes vêem Deus e o mundo, e assim, julgam-se detentores da verdade incontestável.

Tais fanáticos fazem Deus à sua maneira e de uma forma inversa à santificação, eles se tornam separatistas, presunçosos, petulantes, preconceituosos e em casos mais extremos, raivosos e por assim procederem, acabam sendo periculosos.

As mentes dos fanáticos religiosos estão fechadas para as diferenças de opiniões e conceitos, erroneamente, não dão condições para um debate lógico e por serem tão combatentes e hostis aos pensamentos contrários aos seus, eles satanizam qualquer outra ótica que discorde e se diferencie de suas supostas verdades absolutas.

Os religiosos extremistas, são de certa maneira tão fechados para as diferenças de pensamento, preocupam-se tanto em viver, segundo eles, de acordo com a vontade de Deus, que não se dão conta que a maneira pela qual procedem é fatalmente contrária ao que ensinava o Cristo.

Por exemplo: Os fanáticos são exclusivistas, só o grupo deles é digno de salvação, são preconceituosos, abominam determinadas e inevitáveis diferenças sociais, são excludentes, vêem maldade em tudo que não esteja à risca da cartilha imposta por seus líderes, esquecem-se os fanáticos que seus líderes, são tão vulneráveis ao erro como qualquer outro mortal.

Ao que lemos e sabemos, o Cristo em pessoa combateu a desunião social, a religião por sua vez, separa os homens, Cristo, o unigênito de Deus, disse aos pecadores que ele era o único caminho e suficiente salvador de todas as almas. Determinadas religiões, portanto, querem fazer-se complementos de salvação, no entanto, em uma ótica acurada, percebemos que algumas religiões, afirmam que só o Cristo não basta, é preciso também, passar pelo crivo deste ou daquele pensamento ou norma que rege esta ou aquela religião.

São tamanhos os absurdos apontados como doutrinas e verdades irrefutáveis pelos fanáticos religiosos que se auto-proclamam propriedades e proprietários de Deus, que num olhar contestador sobre suas supostas verdades, percebemos que eles sem se dar conta, anulam em partes o sacrifício do Cristo na cruz, pois de acordo com o que afirmam, é preciso além de Jesus, obedecer o que rege estes grupos, não querem perceber os fiéis, que tudo isso é apenas o ponto de vista dos criadores destas determinadas religiões, pois assim eles entenderam como verdade.

Para muitas pessoas de diferentes religiões, se um mortal finar-se fora de suas dependências, ele estará proporcionando para a sua alma, a maior desventura que se possa imaginar, a ida direta para o fogo eterno.

O que fazer com os que pensam que são os únicos que irão para o céu? O que fazer com estes tantos petulantes que se intitulam sabedores da verdade? Como conviver com estes semeadores da discórdia e do preconceito esbravejando em seus altares e púlpitos?

Não é nada fácil para as mentes questionadoras a convivência com estes pernósticos que tentam impor suas verdades “absolutas e incontestáveis”. São muitos os fanáticos, eles se proliferam juntamente com suas religiões, os que pensam que detêm a verdade já são legiões, e enquanto houver estes conceitos exclusivistas e separatistas, a religião será a principal causa de divisão e separação do homem pelo próprio homem.

Mateus Brandão de Souza, graduado em História pela FAFIPA.

terça-feira, 12 de maio de 2020

O Bicho

Por Manoel Bandeira


O poema abaixo retrata o cotidiano degradante do homem que atingiu o ápice da miséria. Quem nunca se deparou com uma cena como a descrita no texto de Manuel Bandeira? Lamentavelmente, esses fatos acontecem tão rotineiramente que muitos já nem se importam...

O Bicho
“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem”.

Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu em 19 de abril de 1886 em Recife. Em 1903 foi para a cidade de São Paulo a fim de cursar Engenharia na Escola Politécnica. No entanto, em decorrência do acometimento de tuberculose, não pôde concluir o curso. A partir de então, passa por verdadeira peregrinação por diversas cidades e casas de saúde, tendo, inclusive, se mudado por um ano para a Suíça com o intuito de livrar-se da doença. Ao voltar para o Brasil tornou-se inspetor de ensino e depois professor de literatura.

Em 1917 publicou seu primeiro livro – A Cinza das Horas – com características parnasianas e simbolistas. Posteriormente à publicação de seu primeiro livro, o poeta foi se enquadrando no estilo modernista, culminando com a publicação em 1930 da obra Libertinagem, considerada uma das mais importantes da literatura moderna brasileira.

Na obra de Bandeira predominam a liberdade de conteúdo e de forma, o retrato do cotidiano, a sua própria história de vida,  o humor,  a indignação com a realidade do homem e a idealização de um mundo mais justo. O autor conseguiu reunir em sua poesia subjetividade e objetividade e o resultado foi perfeito.
(FONTE: Literatura em conta gotas)
Por Mateus Brandão de Souza, Graduado em história pela FAFIPA.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Divididos pela ganância


Não é de hoje que o dinheiro tornou-se a causa da discórdia e da desunião entre os homens. Quanto mais se tem, mais se quer, quanto mais possuem, menos se aceita repartir.

Da fonte que gera o vil metal, onde homens se matam para possuí-lo e comandá-lo se proporciona, se alimenta e se gera muitos desafetos.

Quem se apodera do “osso”, não quer largá-lo, pois o abundante tutano, aguça a fome dos insaciáveis glutões do dinheiro. Não é de hoje que as cifras tem sido a causa da desgraça deste mundo cão, onde homens e mulheres se destroem, se difamam e se matam, não é de agora que o capital assolou valores morais e éticos, neste instante, as mentes mesquinhas, estão maquinando suas trapaças, elaborando seus planos, uns para tomar, outros para manter em suas mãos a teta açucarada que destila o leite e o mel do prazer carnal.

O dinheiro proporciona o poder, deste nasce uma ilusória sensação de imortalidade, de ser indestrutível, inatingível, inabalável. Com o poder, o homem se acha no direito de fazer e acontecer, de executar o que lhe vem na mente.

Com o dinheiro, o homem corre perigo, por este mesmo dinheiro, ele perde a sua paz, a ansiedade de possuir riquezas tem sido ao homem algo fatal para aquilo que ele tem de mais precioso, a sua própria saúde e a sua própria vida.

Mortos de sede pela posse das moedas, a ganância faz de determinados homens seres desprezíveis, nojentos e nauseantes. É impossível suportá-los, tão esganados são, que se tornam repugnantes, seu egoísmo se aflora pelos poros de suas peles. Sua voracidade é tanta, que a ninguém mais engana, todos sabem de suas intenções, que seus intuitos são unicamente em seus próprios interesses, são tidos por maléficos.

Portanto, é hora de trocá-los, de deitá-os fora e escrevermos uma história plausível num futuro que começa hoje, é hora de nos conscientizarmos que a união pelo bem comum é possível. Bons ventos podem nos soprar e que estes ventos levem para longe a ameaça da mesmice entediante em que erroneamente pensam que estamos habituados e conformados.

É preciso mudar tudo, pois também não é de hoje que temos a consciência de que nada se tem a perder quando nada se possui, quando a exclusão nos faz carentes das condições básicas de dignidade humana, é preciso nos unirmos para uma inversão da realidade.

Que venham até nós dias melhores, mas para isto, temos nós que criarmos condições que viabilizem a chegada destes melhores dias e isto só será possível com o ajuntamento de nossas forças. É grande o número daqueles que estão cansados de assistir a encenação dos cães, ladrando e brigando pela posse do mesmo osso.

O velho amado e combatido Marx dizia: “Proletários de todo mundo, uni-vos”. 
Uma nova realidade é possível, não é conto da carochinha nem histórias do faz de conta, basta trabalharmos em prol do bem comum onde juntos poderemos quebrar os grilhões desta cadeia que nos marginaliza.

Abaixo os egoístas, é possível combate-los. Pensemos nisso.

Mateus Brandão de Souza, graduado em História pela FAFIPA.

sábado, 9 de maio de 2020

"Tanto horror perante os céus"


Quando se perde a confiança em alguém, de fato esta confiança estará para sempre arruinada, não haverá  eficácia nem recurso capaz de restitui-la, será como nódoa indelével em lençol branco. Assim como o gato escaldado que por medo, evita a água ainda que ela esteja fria, aquele que traiu despertará no traído, o mesmo receio do felino pela água.

Até onde vai a honestidade de um ser humano? Por que será que a honestidade é tão vulnerável às tentações? Onde estarão os justos pelos quais deveríamos confiar? Por onde andam aqueles que não se deixarão levar pelas seduções do vil metal e pela grandeza de seus egoísmos?

Por que céus, a carne é mais forte que a consciência? Pela vulnerabilidade destes humanos que em vão querem posar de imaculados, é que perecemos. É por isso que presenciamos, lemos e ouvimos sobre práticas humanas que assolam uma sociedade.

É devido aos corruptíveis tomados pelo câncer do egoísmo é que a base da pirâmide social sofre as consequências de atos falhos, praticados por uma tripulação voltada aos interesses somente daqueles que estão inseridos dentro de um estreito círculo composto de aves de uma só plumagem.

Quem está à margem desta ilha onde alguns tiram benefício próprio, é toda uma sociedade, esta sociedade pois, estagna-se na mediocridade do descaso e amarga as péssimas condições de sobrevivência que lhe é imposta.

Quantos horrores esperam uma sociedade fustigada pela desatenção de suas necessidades mínimas...
Quem nos livrará das laçadas daqueles que agem de má fé? das práticas intencionais feitas por quem ao contrário, deveria suprir aos anseios sociais?

Porém, quem deveria nos assistir, assiste aos seus próprios caprichos e aos caprichos de uma minoria tida como privilegiada por estar inserida na parte interior de seu estreito círculo.

Até quando triunfarão os ímpios?

Até onde seremos vítimas de arapucas armadas nas surdinas por aqueles que destroem nossa dignidade?

Conclamo em alto e bom som, Povo, Povo, acautelai-vos e uni-vos pelos seus propósitos, pois os usurpadores da nossa dignidade, a muito estão unidos, zelando pelos propósitos que só interessam a eles.

Pensemos nisso... Unidos venceremos.

Mateus Brandão de Souza, graduado em História pela FAFIPA.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

"O dia do benefício é a véspera da ingratidão"


As pessoas boas deste mundo cão, nos ensinam que devemos fazer o bem sem olhar a quem, e desta forma, aqueles que buscam agir de boa fé, estão sujeitos a beneficiar outros que mais cedo ou mais tarde, acabarão lhes virando as costas.

A ganância pelo dinheiro tem levado muitos a se corromper, e assim, algumas pessoas querem posar como cordeiros, quando na verdade são lobos famintos, capazes de vender a própria honra por vis trocados.

Existem aqueles que se cegam pela gana do possuir, pelo doentio desejo de ganhar a qualquer custo, onde bestialmente, esquecem-se dos bons conceitos e praticam a todo modo, seus atos lamentáveis, independente de quem quer que seja aquele que saia prejudicado.

As pessoas de mente pequena, escravos da ganância pelo vil metal, esquecem-se do bom senso e tão egoístas se tornam, que tudo lhes é possível, em troca de seu egoísmo, tudo fazem para satisfazer ao seu desejo de levar vantagem em tudo.

Esquecem-se os escravos do dinheiro, que derrotas e vitórias, fazem parte da formação e da evolução do homem como ser humano, porém, os frios e calculistas não tardam em tecerem planos e quando a situação lhes é contrária, querem ganhar no grito, independente se os meios que usam, seja prejudicial para aquele que já lhe beneficiou no passado.

Nada aquieta a sarna dos gananciosos, para suprirem seus vis desejos, eles se tornam capazes de tudo, tudo lhes é lícito e tudo lhes convém, pois a coceira proporciona comichões inquietantes e patéticos. Quando assim o são, a ingratidão é apenas um dos tantos defeitos que acompanham os inescrupulosos. Tudo isso, é imensamente lamentável.

Uma das maiores tristezas desse mundo, é o ser humano pérfido, nada é mais frustrante que perder a certeza da confiança em quem um dia, irmanado, compartilhou conosco, as mais diversas situações...

Porém amigo, se um dia a vulnerabilidade de um ser humano de decepcionou, não te desanimes, tenhas bom ânimo. Continue tua caminhada, ao final da jornada, se ainda te restar um que te seja solidário, comemore a certeza de tua vitória, afinal em meio às cinzas, te restou um em quem podes confiar.

Ainda se ao final, todos os confiáveis se corromperem e só restar a ti, comemore assim mesmo, pois ao término concluirás que fostes heróico por não trair aos teus princípios.

Portanto, não te molestes pelos os ingratos, eles são débeis, e na luta pela moral e pela honra, só os fortes sobrevivem.

Um brinde aos bons.

Mateus Brandão de Souza, graduado em história pela FAFIPA.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

O eterno embate das ideologias


“Os homens procuram construir ou transformar o mundo segundo suas convicções”. A História é testemunha dessa verdade, desde a Antiguidade, homens, mulheres e instituições, conseguiram através de suas ideias influenciar de alguma maneira a sociedade as quais pertenciam.

O jovem Alexandre o grande, um líder com ambiciosas pretensões políticas acreditava piamente que o modo de vida grego seria essencial para o desenvolvimento da civilização mundial. Não foi atoa que estendeu seus domínios desde a sua Macedônia até a Índia e ao longo de sua caminhada compartilhou essa ideia aos diferentes povos que lhe era apresentado.

Séculos mais tarde Roma, qualificou os povos não romanos como bárbaros, isto é, com costumes e modos de vida diferentes, portanto qualificado como inferior ao tipo de vida que a sociedade romana poderia oferecer.

Com o advento ainda na Antiguidade e durante toda a Idade Média, o Cristianismo a partir da moral do Evangelho procurou corrigir os erros da sociedade pagã romana e moldar a Europa segundo suas verdades e valores deixando marcas importantes no mundo ocidental.

É claro que em meio desse processo de construção nem tudo foi perfeito, erros foram cometidos, imperfeições que serviram para despertar em muitos, novamente, o desejo de reconstruir a sociedade partir de novos valores. O iluminismo, a Reforma Protestante e as Revoluções Burguesas foram exemplos de que o velho catolicismo falhou em meio de seu processo de transformação social.

O mundo a partir de então se transforma radicalmente, a religião é quase que banida da vida política, social e econômica, e sede espaço ao pensamento laico ou secular. Desde então essa nova ideologia vem transformando de forma drástica a humanidade, apesar de sofrer resistência por parte dos conservadores.

A política serve de palco para observarmos essa luta pela hegemonia e liderança das diversas ideologias que procuram através do controle do Estado colocar em prática as propostas que segundo seu corpo ideológico podem contribuir de forma positiva com o fim dos problemas que a humanidade enfrenta. O Brasil neste momento tem o privilégio de observar esse conflito ideológico que está sendo explícito no decorrer do período eleitoral.

Diversos partidos políticos, e as mais variadas instituições civis e religiosas, procuram neste momento apresentar suas propostas a fim de convencer a maioria da população de que sua visão de mundo pode transformar nossa realidade que hoje convive com a gritante desigualdade social, com a negligência estatal em garantir os direitos básicos legitimados pela Constituição de 1988 a todo cidadão, e com o caos social gerado a partir dessas deficiências.

Graças à democracia e a liberdade do livre pensamento, que podemos através da discussão e da reflexão julgarmos quais são os projetos e as ideias que são realmente capazes de resolver os problemas que nasceram dos erros cometidos ao longo da história pelos diversos líderes e representantes das mais variadas correntes de pensamento que até hoje lutam para se manter ou recuperar sua hegemonia. O voto, portanto, deve ser fruto de todo um processo, onde a análise, a reflexão e a discussão sejam responsáveis pela escolha que livremente faremos a fim de traçar novos rumos ao Brasil.

Texto de: Lincoln Brito dos Santos, professor graduado em história pela FAFIPA.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Um dia de merda


Aeroporto Santos Dumont, 15:30. Senti um pequeno mal estar causado por uma cólica intestinal, mas nada que uma urinada ou uma barrigada não aliviasse. Mas, atrasado para chegar ao ônibus que me levaria para o Galeão, de onde partiria o vôo para Miami, resolvi segurar as pontas. Afinal de contas são só uns 15 minutos de busão. “Chegando lá, tenho tempo de sobra para dar aquela mijadinha esperta, tranqüilo”. O avião só sairia às 16:30.

Entrando no ônibus, sem sanitários, senti a primeira contração e tomei consciência de que minha gravidez fecal chegara ao nono mês e que faria um parto de cócoras assim que entrasse no banheiro do aeroporto. Virei para o meu amigo que me acompanhava e, sutil, falei: “Cara, mal posso esperar para chegar na merda do aeroporto porque preciso largar um barro”. Nesse momento, senti um urubu beliscando minha cueca, mas botei a força de vontade para trabalhar e segurei a onda. O ônibus nem tinha começado a andar quando, para meu desespero, uma voz disse pelo alto falante: “Senhoras e senhores, nossa viagem entre os dois aeroportos levará em torno de 1 hora, devido às obras na pista”. Aí o urubu ficou maluco querendo sair a qualquer custo. Fiz um esforço hercúleo para segurar o trem merda que estava para chegar na estação ânus a qualquer momento. Suava em bicas.

Meu amigo percebeu e, como bom amigo que era, aproveitou para tirar um sarro. O alívio provisório veio em forma de bolhas estomacais, indicando que pelo menos por enquanto as coisas tinham se acomodado. Tentava me distrair vendo TV, mas só conseguia pensar em um banheiro, não com uma privada, mas com um vaso sanitário tão branco e tão limpo que alguém poderia botar seu almoço nele. E o papel higiênico então: branco e macio, com textura e perfume e, ops, senti um volume almofadado entre meu traseiro e o assento do ônibus e percebi, consternado, que havia cagado. Um cocô sólido e comprido daqueles que dão orgulho de pai ao seu autor. Daqueles que dá vontade de ligar pros amigos e parentes e convidá-los a apreciar na privada. Tão perfeita obra, dava pra expor em uma bienal. Mas sem dúvida, a situação tava tensa. Olhei para o meu amigo, procurando um pouco de solidariedade, e confessei sério: “Cara, caguei”.

Quando meu amigo parou de rir, uns cinco minutos depois, aconselhou-me a relaxar, pois agora estava tudo sob controle. “Que se dane, me limpo no aeroporto” – pensei. “Pior que isso não fico”. Mal o ônibus entrou em movimento, a cólica recomeçou forte. Arregalei os olhos, segurei-me na cadeira, mas não pude evitar e, sem muita cerimônia ou anunciação, veio a segunda leva de merda. Dessa vez, como uma pasta morna. Foi merda para tudo que é lado, borrando, esquentando e melando a bunda, cueca, barra da camisa, pernas, panturrilha, calças, meias e pés. E mais uma cólica anunciando mais merda, agora líquida, das que queimam o fiofó do freguês ao sair rumo à liberdade. E depois um peido tipo bufa, que eu nem tentei segurar, afinal de contas o que era um peidinho para quem já estava todo cagado. Já o peido seguinte, foi do tipo que pesa. E me caguei pela quarta vez.

Lembrei de um amigo que certa vez estava com tanta caganeira que resolveu botar modess na cueca, mas colocou as linhas adesivas viradas para cima e quando foi tirá-lo levou metade dos pêlos do rabo junto. Mas era tarde demais para tal artifício absorvente. Tinha menstruado tanta merda que nem uma bomba de cisterna poderia me ajudar a limpar a sujeirada. Finalmente cheguei ao aeroporto e, saindo apressado com passos curtinhos, supliquei ao meu amigo que apanhasse minha mala no bagageiro do ônibus e a levasse ao sanitário do aeroporto para que eu pudesse trocar de roupas. Corri ao banheiro e, entrando de boxe em boxe, constatei a falta de papel higiênico em todos os cinco.

Olhei para cima e blasfemei: “Agora chega, né?” Entrei no último, sem papel mesmo, e tirei a roupa toda para analisar minha situação (que conclui como sendo o fundo do poço) e esperar pela minha salvação, com roupas limpinhas e cheirosinhas e com ela uma lufada de dignidade no meu dia.

Meu amigo entrou no banheiro com pressa, tinha feito o “check-in” e ia correndo tentar segurar o vôo. Jogou por cima do boxe o cartão de embarque e uma maleta de mão e saiu antes de qualquer protesto de minha parte. Ele tinha despachado a mala com roupas. Na mala de mão só tinha um pulôver de gola “V”. A temperatura em Miami era de aproximadamente 35 graus.

Desesperado, comecei a analisar quais de minhas roupas seriam, de algum modo, aproveitáveis. Minha cueca joguei no lixo. A camisa era história. As calças estavam deploráveis e, assim como minhas meias, mudaram de cor tingidas pela merda. Meus sapatos estavam nota 3, numa escala de 1 a 10. Teria que improvisar. A invenção é mãe da necessidade, então transformei uma simples privada em uma magnífica máquina de lavar. Virei a calça do lado avesso, segurei-a pela barra, e mergulhei a parte atingida na água. Comecei a dar descarga até que o grosso da merda se desprendeu.

Estava pronto para embarcar. Saí do banheiro e atravessei o aeroporto em direção ao portão de embarque trajando sapatos sem meias, as calças do lado avesso e molhadas da cintura ao joelho (não exatamente limpas) e o pulôver gola “V”, sem camisa. Mas caminhava com a dignidade de um lorde.

Embarquei no avião, onde todos os passageiros estavam esperando “O RAPAZ QUE ESTAVA NO BANHEIRO” e atravessei todo o corredor até o meu assento, ao lado do meu amigo que sorria. A aeromoça se aproximou e perguntou se precisava de algo. Eu cheguei a pensar em pedir 120 toalhinhas perfumadas para disfarçar o cheiro de fossa transbordante e uma gilete para cortar os pulsos, mas decidi não pedir: “Nada, obrigado. Eu só queria esquecer este dia de merda!”

(Texto de autoria desconhecida porém é também atribuído a Luís Fernando Veríssimo.)

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