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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Bolsonaro avisa que não vai furar o teto de gastos e repactua com o bando que deu o golpe de 2016

Publicado por Kiko Nogueira

No DCM

As forças que deram o golpe de 2016 repactuam e se reagrupam em nome do acordão que os levou ao poder em 2018.

Jair Bolsonaro discursou em frente ao Palácio da Alvorada nesta quarta-feira (12) tendo ao lado os presidentes do Senado Federal, Davi Alcolumbre, e da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia.

Paulo Guedes também deu as caras.

O discurso do bando, uma papagaiada idiota sobre a recuperação econômica que nunca virá, girou em torno do compromisso de não furar o teto de gastos.

Bolsonaro abraçou Maia e Alcolumbre, todos usando máscaras.

O sujeito percebeu que iria cair se mantivesse o pé o acelerador dos seus aloprados.

Rifou todos os radicais, como se nunca os tivesse conhecido e patrocinado.

Vem falando da necessidade de união com o Congresso, casou com o centrão, deixou de lado a fantasia de duce bananeiro.

“A gente conseguiu avançar muito nesse um ano e meio à frente do parlamento e dar as respostas que o governo esperava do Congresso”, afirmou Alcolumbre.

Na noite anterior, Guedes havia alertado o chefe da “zona sombria” de que ele se aproximada, que podia dar no impeachment.

Bolsonaro é um sobrevivente. Ouviu e respondeu ao assovio, como um cachorro.

Maia já tinha dado a letra no Roda Viva, quando declarou não ver crime nenhum em todos os crimes de responsabilidade cometidos pelo presidente.

Grave foi a pedalada fiscal de Dilma, falou. Daquele voto ele não se arrepende.

Enquanto isso, mais de 100 mil mortos dão seu grito surdo num país perdido.

sábado, 15 de agosto de 2020

Mais de 20 países querem um bilhão de doses da vacina russa

Vladimir Putin anunciou esta terça-feira que o seu país registrou a primeira vacina do mundo contra o coronavírus. O Fundo de Investimento Direto da Rússia já teria recebido pedidos de duas dezenas de países.

Rússia é primeiro país a anunciar vacina pronta para fabricação

Por Cézar Xavier

No Portal Vermelho

«Vemos um grande interesse no estrangeiro pela vacina desenvolvida» pelo Centro Nacional de Investigação de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya, em Moscou, e «recebemos pedidos preliminares de 20 países para a compra de mais de um bilhão de doses da vacina», disse o presidente do Fundo de Investimento Direto da Rússia, Kiril Dmitriyev.

Neste momento, ainda não são conhecidos os países que fizeram os pedidos, embora Dmitriyev tenha sublinhado que a Rússia decidiu produzir a sua vacina contra o Sars-CoV-2 em cinco países e que espera receber a aprovação para a produção do fármaco em vários estados latino-americanos em novembro.

No Brasil, o governo do estado do Paraná emitiu um comunicado oficial anunciando que se reunirá amanhã com o embaixador da Rússia para discutir uma possível parceria. Caso aprovada a negociação, o governo estadual prevê que a vacina poderia ser desenvolvida em solo nacional.

Apesar do anúncio, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) divulgou uma nota afirmando não ter sido procurada pelo laboratório russo responsável pelo desenvolvimento da vacina. Para qualquer medicação ou imunização ser aplicada e comercializada no Brasil, é necessário que mantenha registro da Anvisa.

A vacina «Sputnik V»

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou hoje o registo oficial de uma vacina russa, a primeira do mundo contra o coronavírus Sars CoV-2, responsável pela pandemia de Covid-19.

«Tanto quanto sei, foi registada esta manhã uma vacina contra o coronavírus pela primeira vez no mundo», declarou Putin no início de uma reunião por videoconferência com o governo russo.

O chefe de Estado, que agradeceu a todos os que trabalharam na vacina, afirmou que se trata de um «momento muito importante para o mundo inteiro» e pediu ao ministro da Saúde, Mikhail Murashkin, que fornecesse informação mais detalhada sobre os planos de imunização.

O presidente russo disse ainda que a vacinação da população deverá ser realizada exclusivamente de forma voluntária e precisou que a «vacina trabalha com eficácia e cria imunidade de forma estável, tendo passado todos os testes necessários», disse.

Nos ensaios clínicos, que tinham como objetivo avaliar a segurança e os efeitos da vacina no organismo, participaram 76 voluntários. De acordo com os médicos, a investigação foi um

êxito e a vacina foi considerada segura, uma vez que, no final do processo, «todos os voluntários tinham imunidade».

Yelena Smoliarchuk, diretora do centro de investigação clínica sobre medicamentos da Universidade Sechenov, afirmou que a proteção máxima é alcançada três semanas após a injeção, quando se desencadeia a resposta do sistema imunológico.

De acordo com o Ministério russo da Saúde, a nível nacional, a vacina será aplicada primeiro a médicos, professores e pessoas idosas. A mesma fonte revelou que a nova vacina – designada Sputnik V – poderá ser fabricada de forma massiva a partir de outubro e disse esperar que esteja em circulação em janeiro do ano que vem.

Questionada no Ocidente

Sobretudo no Ocidente, tem sido questionado o processo de validação da Sputnik V, com acusações de que a Rússia não está seguindo os protocolos internacionais estabelecidos.

No entanto, Vadim Tarasov, cientista da Universidade Sechenov, em Moscou, onde os testes tiveram lugar, afirmou que o país «tinha um avanço», uma vez que passou os últimos 20 anos a desenvolver capacidades na área e a tentar perceber como os vírus se transmitem.

Nikolay Briko, funcionário do Ministério da Saúde, ressaltou a mesma noção de que a vacina não foi desenvolvida a partir do nada, acrescentando que o Centro Gamaleya possuía um registro sério e significativo no que respeita à pesquisa de vacinas.

Disse que a «tecnologia de desenvolvimento de tal vacina foi aperfeiçoada. Então, talvez o processo tenha sido acelerado devido ao fato da vacina não ter sido criada do zero».

Adenovírus humanos

O principal questionamento ocidental sobre a vacina diz respeito à falta de publicação de informações científicas sobre seu desenvolvimento. Leia abaixo como Kirill Dmitriev, presidente do Fundo Russo de Investimentos Diretos (RFPI), explica a mecânica da vacina russa:

Desde a década de 1980, o Centro Gamaleya tem liderado o esforço para desenvolver uma plataforma tecnológica usando adenovírus, encontrados em adenoides humanos e normalmente transmitindo o resfriado comum, como “vetores” ou veículos que podem induzir material genético de outro vírus dentro de uma célula.

O gene do adenovírus que causa a infecção é removido, enquanto um gene com o código da proteína de outro vírus é inserido. Tal elemento inserido é pequeno e é uma parte não perigosa de um vírus, sendo segura para o corpo, mas ajuda o sistema imunológico a reagir e produzir anticorpos que nos protegem da infecção.

A plataforma tecnológica de vetores baseados em adenovírus torna a criação de novas vacinas mais fácil e rápida, através da modificação do vetor transportador inicial com o material genético de novos vírus emergentes. Tais vacinas geram uma grande resposta do corpo humano com o intuito de criar imunidade, enquanto o processo total de modificação vetorial e a produção em escala piloto demora poucos meses.

Os adenovírus humanos são considerados dos mais fáceis para modificar desta maneira, portanto, eles se tornaram vetores muito populares. Desde o início da pandemia da Covid-19, o que os pesquisadores russos tiveram de fazer foi apenas extrair um gene codificador da espiga do novo coronavírus e o implantar dentro de um vetor adenoviral familiar para o colocar em uma célula humana.

Eles decidiram usar esta tecnologia já comprovada e disponível em vez de entrar por um território desconhecido. Os estudos mais recentes indicam que apenas duas doses da vacina são necessárias para criar uma imunidade prolongada.

Desde 2015, pesquisadores russos têm trabalhado no modelo de dois vetores, daí a ideia de usar dois tipos de vetores adenovirais, Ad5 e Ad26, na vacina contra a Covid-19. Dessa forma, eles enganam o corpo, que desenvolveu imunidade contra o primeiro tipo de vetor, e impulsionam o efeito da vacina com a segunda dose usando um vetor diferente.

De modo comparativo, seria como dois trens que tentam levar uma carga importante a uma fortaleza do corpo humano que necessita da entrega para produzir anticorpos. Você precisa do segundo trem para ter certeza de que a carga chegará a seu destino. Tal trem deverá ser diferente do primeiro, o qual já foi submetido ao ataque do sistema imunológico do corpo e já é conhecido deste. Desta forma, enquanto os outros desenvolvedores de vacinas possuem um trem, nós temos dois.

Usando o método de dois vetores, o Centro Gamaleya também desenvolveu e registrou uma vacina contra o ebola. Tal vacina tem sido usada por milhares de pessoas nos últimos anos, criando uma plataforma vacinal comprovada que foi usada para a vacina da Covid-19. Cerca de 2 mil pessoas na Guiné receberam injeções das vacinas do Centro Gamaleya em 2017-18, enquanto o mesmo possui uma patente internacional para sua vacina contra o ebola.

Método de dois vetores

Ambas as vacinas estão atualmente em estágios avançados de testes clínicos. Tais conquistas mostram que os laboratórios russos não perderam seu tempo nas últimas décadas, enquanto a indústria farmacêutica internacional frequentemente subestimou a importância da pesquisa de novas vacinas na ausência de ameaças globais à saúde antes da pandemia da Covid-19.

Outros países decidiram seguir nossos passos desenvolvendo vacinas baseadas em vetores adenovirais. A Universidade de Oxford, Reino Unido, está usando um adenovírus de um macaco, o qual nunca foi usado antes em uma vacina aprovada, ao contrário dos adenovírus humanos.

A companhia americana Johnson & Johnson está usando o adenovírus Ad26 e a chinesa CanSino, o adenovírus Ad5 – os mesmos vetores usados pelo Centro Gamaleya. Mas eles ainda terão de dominar a técnica de dois vetores. Ambas as companhias já receberam grandes quantidades de encomendas de vacinas de seus governos.

O uso de dois vetores é uma tecnologia única, desenvolvida pelos cientistas do Centro Gamaleya, o que diferencia a vacina russa de outras vacinas vetoriais de adenovírus em desenvolvimento ao redor do mundo. É válido ressaltar que vetores adenovirais possuem claras vantagens sobre outras tecnologias, como as vacinas mRNA.

As futuras vacinas mRNA, ainda sob testes clínicos nos EUA e em outros países, não usam vetores como transporte e representam uma molécula RNA com um código de proteína de coronavírus envolto em uma membrana lipídica. Tal tecnologia é promissora, mas seus efeitos colaterais, especialmente os impactos na fertilidade, não foram estudados em profundidade.

Nenhuma vacina mRNA recebeu por enquanto qualquer aprovação oficial no mundo. Acreditamos que, na corrida mundial por uma vacina contra o coronavírus, vacinas vetoriais adenovirais serão as vitoriosas, mas até mesmo nessa categoria a vacina do Centro Gamaleya está à frente.

As duas primeiras fases de testes clínicos foram concluídas e seus resultados serão publicados neste mês, conforme exigências internacionais. Tais documentos proverão informação detalhada sobre a vacina, incluindo os exatos níveis de anticorpos mostrados tanto por diversos testes de terceiras partes como pelo teste do proprietário Centro Gamaleya, os quais identificam os anticorpos mais eficientes no ataque à espiga do coronavírus.

Eles também mostrarão que todos os participantes dos testes clínicos desenvolveram imunidade de 100% contra a Covid-19. Estudos em hamsters sírios, animais que normalmente morrem com a Covid-19, mostraram proteção em 100% e ausência de danos nos pulmões depois de terem recebido uma dose letal da infecção.

Após o registro, os cientistas russos pretendem conduzir testes clínicos internacionais em outros três países.

Com informações de agências internacionais

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Sindicato quer quarentena de jogadores ou paralisação do Brasileirão

As três primeiras divisões do torneio já registram pelo menos 52 casos de Covid-19 entre jogadores com adiamentos frequentes de jogos já programados.

Jogadores do Grêmio entram em campo com máscaras como forma de protesto

Por Cézar Xavier
No Portal Vermelho

O Sindicato dos Atletas de São Paulo disse que poderá ir à Justiça para pedir a paralisação do campeonato brasileiro, caso o protocolo da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) não seja aperfeiçoado para garantir a segurança dos jogadores, comissão técnica e trabalhadores envolvidos nas partidas. Após os diversos problemas ocorridos na primeira rodada, o sindicato enviou ofício à CBF, no qual defende duas opções como solução para a realização do torneio.

A partir da orientação de seu médico consultor, Dr. Renato Anghinah, o Sindicato menciona a Alemanha como exemplo, que obrigava isolamento das equipes por até sete dias antes das partidas, com tempo para que os exames fossem feitos e os resultados, conhecidos. Outra ideia proposta pela entidade é seguir o protocolo da liga de basquete americana, a NBA, que isolou totalmente os jogadores e demais membros dos times, criando uma “bolha” em Orlando, nos Estados Unidos, para que a temporada pudesse ser finalizada.

No entendimento do sindicato, os times precisam ser isolados durante toda a disputa do Brasileirão já que, com o calendário apertado, as equipes estão disputando partidas a cada três dias, sem tempo hábil para testes precisos. A entidade lembra ainda que a logística para a realização do torneio nacional, com viagens e dificuldades geográficas, precisa ser considerada.

Diante da situação de insegurança, o Sindicato dos Atletas não descarta a possibilidade de acionar a Justiça. “Em caso de resposta negativa, para a entidade dos jogadores paulistas não restará alternativa a não ser o já conhecido caminho do judiciário”, afirma a entidade, em nota.

Protocolo falho

No documento à CBF, o sindicato menciona os casos que têm aparecido na imprensa envolvendo contágios de Covid-19 entre atletas de times de futebol, expondo fragilidade dos protocolos da entidade organizadora e protestos dos jogadores. É o caso do árbitro da Série B que viajou para apitar Ponte Preta x América e soube de teste positivo dentro do avião.

Com dois casos positivos em Manaus, o treinador Vila Nova disse que os jogadores já tinham tido o contágio antes, portanto teriam imunidade. Depois noticiou-se que o campeonato começou com 37 casos de Covid-19 em quatro jogos das Séries A, B e C, mas s CBF só adiou dois.

Dentre todas as menções, o sindicato considerou particularmente arriscado para os atletas profissionais e demais membros que compõem os times correm, o fato de quatro times da Série B serem considerados transmissores da covid-19 após jogo em AL e a constatação de 18 jogadores do CSA de Alagoas positivados.

As séries A, B e C do campeonato brasileiro, iniciadas no último sábado (8), já registram pelo menos 52 casos de covid-19 entre jogadores. Ao todo, três partidas foram suspensas pela CBF por causa do alto risco de contágio pelo novo coronavírus.

Um dos exemplos foi o São Paulo, que viajou até Goiânia e entrou em campo, no último domingo (9), para enfrentar o Goiás. Horas antes da partida, dos 26 exames realizados em jogadores do time da casas, 10 testaram positivo para o novo coronavírus, sendo oito titulares. O jogo foi suspenso.

Os casos mais recentes de contaminação aconteceram no Corinthians e no Atlético-GO. O clube paulista isolou os atletas, mas o time de Goiânia entrou com recurso na CBF para escalar os quatro jogadores que testaram positivo.

O clube justificou que os jogadores já foram contaminados anteriormente e, de acordo com o próprio protocolo elaborado pela entidade, não havia mais riscos de transmissão. Na manhã desta quarta-feira (12), a CBF aceitou a solicitação e liberou os jogadores para a partida contra o Flamengo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Congresso derruba veto à regulamentação da profissão de historiador

Votação ocorreu nesta quarta-feira. Associação Nacional de História e historiadores comemoram resultado.

Soraya Santos (PL-RJ) preside sessão do Congresso Nacional. Foto: Najara Araujo / Câmara dos Deputados 
Bruno Leal | Agência Café História

O Congresso Nacional acaba de derrubar o veto do presidente Jair Bolsonaro ao Projeto de Lei 368/2009, que regulamenta da profissão de historiador no Brasil. O projeto foi originalmente proposto pelo Senador Paulo Paim (PT/RS).

 O PL foi recentemente aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, mas no final de abril Bolsonaro vetou integralmente o projeto, alegando, equivocadamente, que o mesmo viola a Constituição Federal ao restringir o livre exercício profissional, além de ofender a previsão constitucional de que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.

 A regulamentação da profissão de historiador no Brasil é uma luta antiga dos historiadores e de sua principal associação, a Associação Nacional de História, a Anpuh, que comemora o resultado e aguarda o Senado Federal, que decide a derrubada ou não do veto presidencial em sessão marcada para 16h desta quarta-feira.  


CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. congresso e senado derrubam veto à regulamentação da profissão de historiador. (Notícia). In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/congresso-derruba-veto-regulamentacao-profissao-historiador/. Publicado em: 12 ago. 2020. ISSN: 2674-5917.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Auxílio emergencial: Governo fechou a porta na cara dos marginalizados

Impossibilidade de novo cadastro mantém antigas dinâmicas de exclusão.
 

Por Clara Mota, Lívia Peres, Luciana Ortiz Zanoni

O benefício de caráter emergencial, instituído no País durante a pandemia de Covid-19, é um socorro humanitário pensado para enfrentar uma crise que traz demandas em graus inéditos e urgentes por sobrevivência. O sucesso da política depende, desde a sua concepção, do alcance de camadas da população que não estão necessariamente abrangidas pela rede de proteção social até então existente.

Essa dimensão única do problema faz com que o anúncio governamental de renovação do auxílio por mais dois meses, sem uma segunda chance para o cadastro de pessoas, gere quadro de profunda contradição. Ao mesmo tempo em que a porta de entrada do programa foi fechada para os hipervulneráveis que não conseguiram se cadastrar – assim consideradas as pessoas em situação de rua, não documentadas, migrantes, refugiadas, integrantes de povos e comunidades tradicionais –, a porta de saída segue aberta, num cenário indefinido quanto aos contornos de prorrogação da própria política.

De partida, o programa não considerou a existência de pessoas sem identificação. Essas, antes de buscar o socorro governamental, tiveram que trilhar um dificultoso caminho para obter documentação civil, sofrendo com a suspensão de atendimento por órgãos públicos. Apenas em junho, alguns meses após a decretação da situação de emergência, os invisíveis aos repositórios oficiais de informação, como CadÚnico, e os excluídos digitais, sem acesso a aparelhos celulares, tiveram a oportunidade de requerer o benefício por meio de uma plataforma desenvolvida para recepção dos requerimentos nas agências dos Correios, o chamado “cadastro assistido”.

Cumprida a fase da identificação, o desafio passou a ser a realização do cadastro em si. Paradoxalmente, foi exigido um número de celular como condição de acesso a um benefício voltado à garantia de condições mínimas de vida. Aos isolados socialmente, que não tinham o que comer, demandou-se uma digitalização apressada.

A população em situação de rua, para quem o choque trazido pela pandemia não foi o “de ficar em casa”, mas sim o de conseguir alimentos e abrigo, recebeu alguma atenção apenas no final do mês de junho. Uma complexa rede interinstitucional foi estabelecida para tentar assegurar-lhes o recebimento do auxílio. Em São Paulo, isso aconteceu no âmbito do Programa de Direitos Humanos do Conselho Nacional de Justiça, reunindo-se Poder Judiciário, organizações governamentais e não governamentais para as tarefas de criação de fluxos de emissão de documentos, cadastro assistido e de análises para o ajuizamento de processos judiciais.

Ao informar que, num universo de 149,5 milhões de requerimentos, 64,3 milhões de pessoas receberam o auxílio, o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, celebrou o que seria uma extensão de benefícios e declarou que se estaria “cumprindo o objetivo de não deixar ninguém para trás”. A soma dos resultados estatísticos tem, no entanto, pontos cegos que tragicamente tem refutado a afirmação. A ideia contida na mensagem das Nações Unidas para a sua agenda de desenvolvimento sustentável não nos exorta à conformação com gráficos de números absolutos. Antes, ela transmite a missão árdua de garantir direitos aos que não conseguem transpor as barreiras postas à sua inclusão.

A persistir a vedação de reabertura do cadastro e os entraves para a população marginalizada, o elemento novo na equação desta política pública poderá acabar sendo apenas a doença, mantendo-se antigas dinâmicas de exclusão operadas pela burocracia quando age sem coordenação e especial atenção aos invisíveis.

A natureza e a finalidade do auxílio emergencial não comportam a rigidez de prazos somente para alguns, que, sem opção clara que não seja a da judicialização, assistem à prorrogação do benefício para tantos outros, como se para eles tivesse passado um trem que inexplicavelmente não retorna mais.


Publicado originalmente na Folha de S.Paulo

Via - Portal Vermelho

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Estratégia da ultradireita é esconder a pandemia

Além da negligência, ocultamento no Brasil, EUA e Reino Unido, multiplicam-se sinais de que os governos omitem dados sobre mortes, falta de medicamentos e até vacinas.

Bolsonaro no escuro

Há 15 dias a sociedade não tem informações sobre como andam os estoques de medicamentos necessários ao tratamento de pacientes internados em UTIs. Os últimos dados foram divulgados no dia 20 de julho pelo Conass, o conselho que reúne os secretários estaduais de saúde, e fazem referência ao período entre os dias 12 e 18 daquele mês.

Olhando para cerca de 1,5 mil estabelecimentos de saúde, o Conass diagnosticou que havia desabastecimento generalizado de certos medicamentos, como o relaxante muscular rocurónio, em falta em 96% das unidades. E apontou os estados em pior situação, caso de Acre, Amapá e Roraima – onde estoques de vários medicamentos estavam a poucos dias de acabar. Foi graças à divulgação do levantamento que o Ministério da Saúde admitiu publicamente o problema, que já vinha sendo apontado por gestores estaduais desde maio.

Uma reportagem do El País Brasil alerta que o levantamento tinha previsão de ser atualizado na última segunda-feira.  Mas isso não aconteceu – e, agora, o Conass  afirma que a divulgação dos números cabe ao Ministério. “A pasta, por sua vez, responde com silêncio”, relata o repórter Felipe Betim.

Mas, ao que parece, o problema está longe de uma solução. Na quinta-feira (30), o presidente do Conass sugeriu ao general Eduardo Pazuello que o Ministério acelerasse o processo de compras por meio da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). Segundo Carlos Lula, que é secretário estadual de saúde do Maranhão, o pregão voltado para o mercado nacional – anunciado em junho – não só não aconteceu, como pode atrasar. Em resposta, o ministro interino da Saúde se limitou a dizer que há “alternativas” em discussão.

A falta de transparênciado Ministério da Saúde não é exceção à regra do governo federal, que ficou em penúltimo lugar no ranking que avalia a divulgação dos contratos emergenciais feitos durante a pandemia. Em comparação com as 27 unidades da federação e com todas as capitais, coube ao Executivo federal o penúltimo lugar no levantamento feito pela Transparência Internacional. Em uma escala de cem pontos, o governo cravou 49,3.

E quando o assunto é negar de forma genérica os pedidos feitos via Lei de Acesso à Informação, o governo de Jair Bolsonaro é simplesmente o pior. Também de acordo com a Transparência Brasil – mas em levantamento feito para a coluna Painel, da Folha –, o governo tem recusado sem explicações concretas cerca de 20% dos pedidos.

Em paralelo, tem crescido as denúncias de assédio moral no governo. E o Ministério da Saúde ocupa o terceiro lugar na lista dessas reclamações, atrás de pastas comandadas há muito tempo por ministros da ala extremista, como os ministérios da Mulher, Família e Direitos Humanos e da Educação. Em 2020, já são 680 denúncias – número bem maior do que o registrado em 2019 (426). Para efeito de comparação, no último ano do governo Michel Temer, houve 356 denúncias – ou 20% a menos do que no primeiro ano de Bolsonaro no poder.

 

“Manto de sigilo”

No Reino Unido, a falta de transparência também é um problema. A denúncia parte de um ganhador do prêmio Nobel, o cientista Paul Nurse. Para ele, o governo de Boris Johnson coloca um “manto de sigilo” sobre aquilo que embasa as principais decisões tomadas na pandemia. Ex-presidente da Royal Society e principal consultor científico da Comissão Europeia, Nurse pontua que, nas coletivas de imprensa, o governo tem usado um comitê científico conhecido pela sigla Sage para passar a impressão de que anda de mãos dadas com as evidências. Só que, atualmente, o Sage é metade composto por funcionários do governo – e, embora representem estruturas da saúde, eles não teriam autonomia para decidir as políticas. Nesse sentido, além de estar fazendo as vezes de “escudo” para os ministros, essas autoridades  podem, no futuro, servir como bode expiatório para medidas sobre as quais não tiveram o poder de bater o martelo.

Ele dá como exemplo a decisão em investir na montagem de um grande laboratório para aumentar a capacidade de testes – o que, diante da urgência da crise, teria se demonstrado um erro previsível porque esse tipo de estrutura demora a ser montada. “Deveria ter ficado claro que levaria muitos meses. Como foi tomada essa decisão? É completamente opaco“, diz ao Guardian.

Já nos Estados Unidos, a coisa ultrapassou o terreno da especulação. O governo de Donald Trump não está divulgando os dados sobre as hospitalizações provocadas pela covid-19. Nós falamos aqui sobre a decisão de mudar o fluxo dessas notificações. Antes enviados ao Centro de Controle de Doenças (CDC), os dados passaram a chegar ao Departamento de Saúde (equivalente do Ministério por lá). Num primeiro momento, essa decisão foi muito criticada porque o CDC disponibiliza um painel público e o Departamento, não.

Depois do escândalo, o governo não só prometeu que as informações continuariam a ser divulgadas, como propagandeou que haveria atualizações minuto a minuto. Mas isso não aconteceu, aponta uma reportagem da Pro Publica. “Em vez disso, a medida criou uma confusão generalizada, deixando alguns estados no escuro sobre a ocupação de seus hospitais e dos leitos de UTI e, pelo menos temporariamente, removeu essas informações das vistas do público. Como resultado, não está claro quantas pessoas estão em tratamento num momento em que o número de pacientes infectados em todo o país está aumentando”, relata o repórter Charles Ornstein.   

Também há graves problemas de transparência nos projetos que têm como objetivo acelerar a descoberta de vacinas, testes e tratamentos eficazes contra o coronavírus a partir de investimentos na indústria farmacêutica que já chegam a US$ 9 bilhões. Em primeiro lugar, o governo Trump não divulga nem para o Congresso americano quantos e quais são os contratos existentes sob o guarda-chuva da iniciativa mais cara e famosa (sobre a qual também já falamos algumas vezes por aqui): a operação Warp Speed. Voltada apenas para imunizantes, ela destinou US$ 8 bilhões até agora para sete vacinas.

Pior: as normas do governo federal proíbem a divulgação de informações sobre o processo de avaliação dos projetos, de modo que não dá para saber por que uns são contemplados e outros, não. E também não dá para saber nada sobre a negociação necessária para se estabelecer o valor de cada incentivo financeiro. Além disso, o governo Trump está contratando consultores que têm vínculos com as empresas beneficiadas. E esses contratos não preveem a divulgação de potenciais conflitos de interesse.

 

Publicado em Outras Palavras

Via – Portal Vermelho


segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Funcionários dos Correios anunciam greve para 18 de agosto

Categoria também luta contra retirada de direitos e por proteção contra Covid-19.

Funcionários alegam que terão perda salarial - Foto: Divulgação


No Portal VermelhoPor Mariana Branco.


 A Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telégrafos anunciou nesta segunda-feira (3) greve nacional da categoria a partir do dia 18 de agosto. Segundo nota divulgada no site da Fentect, os trabalhadores lutam contra a retirada de direitos do atual acordo coletivo e a privatização da estatal, que vem sendo anunciada pelo governo em meio à crise sanitária.

 A categoria também reivindica proteção para os quase 100 mil funcionários devido à pandemia da Covid-19. Segundo a Fentect, os sindicatos têm travado batalhas judiciais para garantir aos funcionários itens de proteção e higiene, desinfecção de agências, testagem e afastamento de pessoas do grupo de risco, que coabitam com grupos de risco, ou têm filhos em idade escolar.

 Ainda de acordo com a Fentect, a estatal se nega a fornecer os dados de funcionários e terceirizados infectados pela Covid-19, bem como a quantidade de óbitos na categoria.

 A atual direção dos Correios propôs recentemente a redução de aproximadamente 70 cláusulas de direitos dos seus empregados. Em nota, a empresa afirmou que ajustará os benefícios concedidos ao que está previsto na CLT e em outras legislações.

 Entre as cláusulas do acordo coletivo que a empresa quer suprimir estão 30% do adicional de risco, vale-alimentação, licença maternidade de 180 dias e auxílio creche, entre outros. Segundo Emerson Marcelo Gomes Marinho, diretor da comunicação da Fentect, com o corte o salário médio dos funcionários dos Correios, hoje em R$ 2 mil, pode cair para R$ 1,4 mil.

 “Na verdade, todo o enxugamento da folha salarial dos trabalhadores, mais os fins dos benefícios, têm como pano de fundo deixar a empresa enxuta para concluir o projeto de privatização colocado pelo Salim Mattar [secretário de Desestatização e Desinvestimento] e Paulo Guedes [ministro da Economia]”, afirma o diretor de comunicação.

 Emerson Marinho nega que a estatal seja deficitária e afirma que os Correios não precisam de aportes do Tesouro Nacional. “A direção alega que teve prejuízo no ano passado, mas colocou no Portal da Transparência que teve R$ 104 milhões de lucro líquido em 2019. A receita no ano passado chegou a R$ 20 bilhões. Com a pandemia, o governo argumenta que tem que gastar mais, mas teve acréscimo de 30% na receita de março a junho devido ao crescimento do e-commerce”.

 Em 17 de agosto, 36 sindicatos de funcionários dos Correios realizarão assembleia para votar a deflagração da greve. Caso aprovada, a paralisação começa à 0h do dia 18 de agosto.


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