Doutora Tereza saiu à luta pela polícia
De fato o Paraná é um estado conservador
Há 38 anos, mulher nenhuma podia ocupar cargo de chefia na
Polícia Civil. Até uma curitibana boa de briga ser alçada ao posto de delegada
O sonho de infância de Tereza Ermelino dos Santos era ser
policial. Uma perspectiva pouco plausível para uma jovem negra e pobre nascida
na provinciana Curitiba dos anos 40. Mas ela foi à luta. E conseguiu ir mais
longe do que imaginava. Em 1975, ano em que a ONU instituiu o Dia Internacional
da Mulher, Tereza se tornou a primeira delegada de polícia da história do
Paraná. Sinal de que a sociedade da época começava a dar mais atenção para os
anseios feministas.
A carreira policial começou uma década antes, em 1964,
quando Tereza ainda estava no colegial. Entre o início como agente de segurança
até a aposentadoria 30 anos depois, ela passou por diversas unidades da Polícia
Civil. Como delegada, o primeiro posto foi em Londrina. As datas, confessa, não
lembra muito bem. Passou também por municípios do interior, distritos de
Curitiba e setores especializados. Alguns desses locais, como as Delegacias de
Menores e de Costumes, nem existem mais.
Os problemas que hoje tomam boa parte do tempo e da energia
da polícia praticamente não existiam. “Tráfico de drogas, por exemplo, era uma
coisa rara. Mas acho que a essência da profissão não mudou”, observa. Segundo
ela, o trabalho básico sempre foi receber a denúncia, investigar e prender.
Sem sossego
Cedo, porém, Tereza percebeu que a ideia de uma mulher em
cargo de chefia era um tanto quanto absurda para figurões da segurança pública.
Como na época a lei permitia que apenas homens fossem promovidos além do posto
de comissário (hoje extinto), ela virou delegada por meio de um mandado de
segurança da Justiça.
Mesmo depois de empossada, no entanto, não teve sossego.
“Sofri ‘tortura’ por parte da cúpula [da polícia]. A cada quinze dias vinha
alguém dizer que eu podia ser exonerada, que a qualquer momento podiam tirar o
meu cargo”, conta. Dentro da delegacia, porém, a coisa era diferente. “Mesmo no
trato com os bandidos, ser mulher não era um problema para mim. Com meus
subalternos, muito menos. Todos sempre me respeitaram”, garante.
Mesmo depois de deixar a polícia, Tereza não parou de
trabalhar. Até pouco tempo atrás, esta senhora de 70 anos ainda atuava como
advogada. Após quase 50 anos dedicados à lei, resolveu se aposentar e hoje vive
em Aracaju (SE). De Curitiba restaram a saudade dos amigos e as boas histórias
para contar.
Via Gazeta do Povo
Via Gazeta do Povo
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